Descrição de chapéu Venezuela

Jornalista brasileiro é retido e interrogado em quartel na Venezuela

Repórter do jornal gaúcho Zero Hora deixou o país após ameaça de prisão por militares

São Paulo

Um jornalista brasileiro ficou retido em uma unidade militar na Venezuela por duas horas, período em que teve o passaporte e o celular apreendidos, foi interrogado e ameaçado de prisão. Ele já está de volta ao Brasil e em segurança.

Rodrigo Lopes, do jornal gaúcho Zero Hora, foi abordado por um homem não identificado na sexta-feira (25), quando cobria um ato de apoiadores do ditador Nicolás Maduro próximo ao palácio de Miraflores, sede do governo.

De acordo com seu relato, o homem tomou o celular de suas mãos e, ao ver fotos e vídeos de um comício do líder da oposição Juan Guaidó, onde o repórter havia estado horas antes, levou-o a uma área protegida por barreiras militares.

 
Forças de segurança vigiam prédio militar em Caracas
Forças de segurança vigiam prédio militar em Caracas - Carlos Barria/Reuters
No tempo em que ficou no Centro Estratégico de Segurança e Proteção da Pátria, Lopes, 40, foi interrogado sobre a linha editorial do veículo em que trabalha. Por três vezes, teve seu pedido de comunicação com a Embaixada do Brasil negado. Um militar chegou a ameaçar prendê-lo e bater nele, mas ele não sofreu agressão física.

Ao ser liberado, recebeu de volta o celular e o passaporte, mas foi ameaçado pelo homem em trajes civis que o escoltava, que tirou fotos de seu rosto. “Agora, o senhor está fichado conosco, conhecemos tua cara e sabemos onde escreves”, ouviu, segundo texto publicado pelo jornal gaúcho. “Se te pegarmos novamente, tu vais ser preso e responderá processo segundo as leis venezuelanas.”

Lopes conta ainda que os militares reagiram com ironia quando viam sua nacionalidade, afirmando que o governo brasileiro não reconhece Maduro e que a imprensa do país o classifica como ditador.

No último dia 23, o governo Bolsonaro, os EUA, a Colômbia e outros países reconheceram o líder do Legislativo venezuelano, Juan Guaidó, como presidente interino do país. Guaidó fez um juramento presidencial diante da população que participava de um grande ato pedindo a saída de Maduro. A oposição afirma que o líder chavista foi reeleito em um processo ilegítimo e por isso considera o cargo vago.

Após o episódio envolvendo o jornalista da empresa, o grupo RBS —ao qual pertence o Zero Hora— decidiu, junto com o repórter, retirá-lo de lá, “uma vez que não havia mais condições mínimas de segurança para atuação do profissional depois da detenção”, segundo nota.

“Em coberturas internacionais, tomamos esse tipo de decisão em conjunto com o repórter, pois é ele que está em campo e consegue avaliar o risco”, disse à Folha Marta Gleich, diretora de Jornalismo de Rádio e Jornal do Grupo RBS. “Como ele poderia ser preso caso fosse pego uma segunda vez, decidimos que não correríamos esse risco.”

Segundo ela, o profissional está bem, “fora a frustração de não poder trabalhar”. “Não é de hoje que grupos de mídia independentes são atacados por esse governo. Veículos foram fechados, jornalistas tiveram que se exilar. A imprensa profissional não tem condições de trabalhar na Venezuela. Quem perde com isso é o público, dentro e fora da Venezuela, é o direito à informação”, completou.

De acordo com o repórter brasileiro, um jornalista espanhol estava na mesma situação que ele e disse que esse tipo de retenção de profissionais tem acontecido com frequência. 

Lopes foi para a Venezuela produzir conteúdo para o jornal, a emissora de rádio e o site do grupo RBS, e estava em seu primeiro dia de cobertura quando foi retido pelos militares. Vencedor do Prêmio Rei da Espanha de Jornalismo, já fez mais de 30 coberturas internacionais, principalmente em áreas de guerra e catástrofe, como Síria, Iraque, Líbia, Líbano e Haiti.

Em nota, o Grupo RBS afirmou que “reitera sua defesa à liberdade de imprensa e repudia toda e qualquer forma de violência dirigida a jornalistas em atividade profissional”.

Em nota, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) protestaram "com indignação" contra o episódio e afirmaram esperar que as autoridades brasileiras "façam chegar ao governo venezuelano o protesto diante da violência cometida contra um cidadão e profissional do nosso país, em legítimo exercício de sua atividade".

"Trata-se de mais um episódio de ataque ao livre exercício do jornalismo, cometido pelo regime de Nicolás Maduro, que há muito abdicou da fachada de aparente democracia. As associações solidarizam-se com o repórter e o jornal Zero Hora, bem como com todos os jornalistas venezuelanos e estrangeiros, que tentam fazer seu trabalho em meio às ameaças do regime bolivariano", diz a nota.

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) também condenou a retenção de Lopes pelos militares, que considerou “uma prática abusiva do governo para intimidar e restringir a circulação de informação independente e de interesse público internacional”.

A presidente da entidade, María Elvira Domínguez, responsabilizou o governo pela segurança dos jornalistas e disse que impedir aos profissionais a busca e divulgação da informação é uma forma de “violar o direito dos cidadãos a estar informados”.

No dia 13 de janeiro, as jornalistas venezuelanas Osmary Hernández, correspondente da rede americana CNN, e Beatriz Adrián, correspondente da Caracol Noticias da Colômbia, foram detidas temporariamente. Em novembro de 2018, dois jornalistas brasileiros e um espanhol passaram pela mesma situação na fronteira da Venezuela com o Brasil.  

Desde o ano passado, dois jornalistas estão presos na Venezuela (um venezuelano e um alemão).

O Instituto Imprensa e Sociedade da Venezuela (Ipys) registrou, entre 23 e 24 de janeiro, 16 casos de restrições ao exercício jornalístico, além de censura de canais estrangeiros, limitação de opiniões em emissoras de rádio e bloqueios à internet.



 

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