Justiça chilena conclui que ex-presidente Frei Montalva foi assassinado

Crime ocorreu em 1982, durante a ditadura de Augusto Pinochet

O presidente do Chile, Eduardo Frei Montalva, fuma charuto baiano após almoço da casa do governador de São Paulo, Abreu Sodré
O presidente do Chile, Eduardo Frei Montalva, fuma charuto baiano após almoço da casa do governador de São Paulo, Abreu Sodré - 10.set.1968/Folhapress
Sylvia Colombo
Cartagena (Colômbia)

A Justiça chilena determinou na quarta-feira (30) que a morte do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, ocorrida em 1982, na Clínica Santa María, em Santiago, na verdade foi um assassinato, e não decorrência de complicações de uma hérnia, como constava em seu atestado de óbito oficial.

O Chile vivia sob a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). O partido de Frei Montalva, o da democracia cristã, havia sido favorável ao golpe militar que culminou com o fim do governo e da vida do então presidente Salvador Allende (1908-1973). Porém, Frei Montalva se descolou da visão do partido e se transformou em um crítico da ditadura.

A família contestou o resultado dos laudos e, desde 1982, pede a investigação do caso. O que o juiz Alejandro Madrid decidiu nesta semana foi que seis pessoas foram responsáveis por sua morte, com o uso de uma substância que poderia ter agravado seu estado: dois médicos, dois ex-integrantes do CNI, o serviço de inteligência do regime, e dois enfermeiros. Foram condenados a penas de 3 a 6 anos.

A família de Frei Montalva, porém, disse que vai apelar por uma sentença mais dura, a de homicídio qualificado e premeditado, porque acreditam que foi usado veneno. Como está, segundo juristas chilenos, a sentença dá brecha para apelação por parte dos condenados.

O caso reaviva as dúvidas sobre as condições da morte do poeta Pablo Neruda (1904-1973), que foi internado na mesma Clínica Santa María. Neruda padecia de um câncer de próstata e, segundo o atestado de óbito emitido pelo hospital, teria morrido de um ataque cardíaco consequente de sua doença.

Desde então, várias investigações foram feitas, incluindo uma exumação. 

Segundo a equipe forense liderada por um médico espanhol que realizou uma perícia a pedido da Justiça chilena, a causa mortis estava equivocada e Neruda não teria morrido por conta da doença de que padecia. A investigação, porém, foi inconclusiva sobre a possibilidade de envenenamento e novas investigações continuam.

Frei Montalva era pai de outro ex-presidente chileno, Eduardo Frei Ruiz-Tagle, que governou em tempos de democracia, entre 1994 e 2000. Em declarações à imprensa, disse que a Justiça deve ir além e determinar os mandantes do crime que matou o pai, que ele julga ser Augusto Pinochet e a cúpula de seu aparato de repressão.

O presidente chileno, Sebastian Piñera, lançou mensagem por meio de vídeo nas redes sociais: “Quero expressar minha indignação com a conclusão de que foi de fato um vil assassinato o que tirou a vida
do presidente Frei Montalva. Estou convencido de que a busca pela verdade e da Justiça continuará e vai permitir ajudar a reconciliar os chilenos.”

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