Descrição de chapéu Análise The Washington Post

Visto como desonesto, Trump tenta na TV convencer americanos sobre muro

Discurso nesta terça (8) busca fazer o que semanas de retórica e tuítes não conseguiram

Philip Bump

No primeiro discurso televisionado do Salão Oval do presidente, na noite desta terça (8), Donald Trump tem por objetivo fazer o que semanas de retórica e tuítes não conseguiram: convencer os americanos da necessidade de um muro na fronteira com o México.

Pesquisas mostram que a maioria da população continua a não acreditar que a barreira seja necessária, e metade não considera o muro prioridade. Trump quer usar o peso do cargo para mudar a ideia de algumas pessoas. Mas será que o poder da Presidência conseguirá ser persuasivo quando exercido por alguém visto como desonesto?

Jonathan Karl, da rede de TV ABC, mencionou esse ponto ao vice-presidente Mike Pence, em uma entrevista veiculada na manhã de terça (8).

“Como o povo americano pode confiar no presidente quando ele diz que essa é uma crise mas repete constantemente afirmações que não são verdade?”, questionou ele.

A resposta de Pence não foi robusta. “Veja só, o povo americano não estão preocupado com debate político e sim com o que está acontecendo de fato na fronteira”, ele disse.

“É uma questão de credibilidade”, rebateu Karl. “A Casa Branca disse que quase 4.000 terroristas entraram no nosso país. Isso não é verdade”. E, com isso, Pence se engajou alegremente em um debate sobre o número, em lugar de respondera pergunta. 

Desde antes de sua eleição, Trump é visto como desonesto pelo público americano, de acordo com pesquisas da Universidade Quinnipiac. Seu melhor resultado no levantamento —52% afirmaram que ele não era honesto logo após a eleição de 2016 —é igual ao pior de Barack Obama.

Mesmo durante o processo de impeachment contra Bill Clinton, a gestão era vista como mais confiável que a de Trump. A Casa Branca de George W. Bush também, tinha bastante confiança dos americanos, embora ele tenha gasto parte do capital político com a guerra no Iraque.

Bush, inclusive, discursou ao país do Salão Oval para defender a invasão do país. Ele tentou usar a Casa Branca como testemunha de caráter a favor de seus argumentos.

manifestantes seguram cartazes e uma bandeira dos estados unidos ao ar livre
Manifestantes protestam em Filadélfia contra o presidente Donald Trump e a paralisação do governo federal - Mark Makela / Getty Images / AFP

Ao discursar no Salão Oval, Trump está fazendo algo parecido: pedindo que o país confie nele porque ele é o presidente. Mas a Presidência é vista como indigna, ao menos em parte, porque Trump a detém. Nem mesmo seu vice consegue argumentar contra sua caracterização como um líder que não merece confiança. 

“A paixão que você ouve nas palavras do presidente Trump, sua determinação de apresentar seu caso ao povo americano, como fará esta noite em seu discurso do Salão Oval, vêm de seu profundo desejo de fazer seu trabalho”, disse Pence mais tarde na entrevista. “Continuaremos a defender esse caso até que os democratas do Congresso venham à mesa para negociar não só o fim da paralisação do governo mas um fim para a crise inegável em nossa fronteira sul”.

Em outras palavras, a administração, sem demonstrar qualquer vergonha, vai continuar a defender as inverdades de Trump, desde que sirvam aos objetivos políticos do presidente.

Alguns americanos certamente presumirão que, se Trump está tentando se beneficiar do peso de um discurso no Salão Oval, certamente será por algo que merece atenção, essa “crise inegável”, na formulação de Pence. Vale lembrar, porém, que Trump tem um longo histórico de declarar inverdades, para conseguir o que quer.

E também vale lembrar que essa não é a primeira vez que Trump fez um apelo dramático por um projeto de construção que provavelmente não ficará à altura da propaganda.

Washington Post

Tradução de Paulo Migliacci

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