Descrição de chapéu Opinião

Presidente esquerdista do México e Jair Bolsonaro guardam muitas semelhanças

Líderes dos dois países usam estratégias parecidas para governar

Montagem com as fotos dos presidentes Andrés Manuel López Obrador (à esq.), do México, e Jair Bolsonaro, do Brasil
Montagem com fotos dos presidentes Andrés Manuel López Obrador (à esq.), do México, e Jair Bolsonaro, do Brasil - Xinhua e Pedro Ladeira/Folhapress
Carlos Malamud

Os novos presidentes das duas potências da América Latina, México e Brasil —Andrés Manuel López Obrador (AMLO) e Jair Bolsonaro— assumiram seus cargos com um mês de diferença entre um e outro.

Quando se comparam os dois, geralmente se destacam suas diferenças, visto que se situam em extremos políticos e ideológicos opostos e dada a visão diferente que têm do Estado e mercado e do público e privado. 

Porém, mais além de tudo que os diferencia e que é visível em qualquer aspecto da realidade, é possível identificar vários pontos que os dois têm em comum. Essa comparação tem alguma utilidade, já que realçando as semelhanças pode-se mergulhar mais fundo em determinadas questões-chave da nova realidade regional.

A comparação mais clara surge entre o modo em que eles foram eleitos, sua capacidade de canalizar a insatisfação social e de tirar proveito do voto baseado no sentimento de revolta. 

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, durante coletiva de imprensa - Francisco Cañedo - 9.jan.2019/Xinhua

As posturas ferrenhas de ambos contra a corrupção lhes conferem um ar de serem antissistema, por mais que ambos tenham uma trajetória política longa. Vem daí sua obsessão por promover reformas aceleradas que reflitam tanto sua vontade de transformar quanto o cumprimento de suas promessas eleitorais.

A comparação não fica apenas nisso, dadas as semelhanças que podem ser detectadas na forma de exercer o poder e no estilo personalista que os dois presidentes querem seguir. Sua característica caudilhista transcende os partidos políticos tradicionais, ao aproveitar a crise em que estão mergulhados e a insatisfação do povo com a democracia e suas instituições. 

Assim, os dois líderes se apropriaram de um dos dogmas políticos do peronismo: governar por meio da relação direta entre o povo e o líder, evitando a intermediação dos partidos. Exacerbando a polarização social, eles a convertem em uma ferramenta útil para mobilizar suas bases, segundo os moldes dos populismos de qualquer vertente que nos cercam.

Com a maximização dos extremos, elimina-se o centro político e a necessidade de moderação. Esse caminho, que enxerga a política como conflito, vai fechando os espaços para consensos. 

Os extremistas, que não têm adversários, mas inimigos, costumam preferir o confronto ao consenso e negam-se a resolver as diferenças pela discussão e negociação. 

Tanto Bolsonaro quanto AMLO possuem um aspecto autoritário que se reflete em sua maneira de governar. Os dois são a favor da militarização da segurança e recentralização do sistema federal. Quanto mais poder o governo concentre, mais isso beneficiará seu objetivo de converter o presidente no principal ator político.

Embora ambos tenham chegado ao governo por meio de eleições limpas, seu apreço pela democracia representativa e o liberalismo político é escasso. Algo semelhante pode ser dito em relação à imprensa tradicional, dado seu controle das redes sociais e sua preferência por plataformas alternativas. 

Tampouco devemos esquecer o apoio recebido das igrejas evangélicas, algo muito mais claro no caso de 
Bolsonaro, embora não tenha sido desprezível no esforço para eleger AMLO. 

Os dois têm boas relações com Trump por enquanto, um obrigado, o outro persuadido, mas no caso mexicano isso pode mudar a qualquer momento.

Há um último ponto a mencionar, se bem que isso só ficará mais claro com o tempo. É conhecida a tradição isolacionista do Brasil e do México e a resistência de ambos a assumir algum tipo de liderança regional. 

Por isso é importante saber se, mais além das diferenças entre eles, Bolsonaro será uma referência para a direita latino-americana mais dura e AMLO seu equivalente para uma esquerda cada vez mais órfã desde a crise venezuelana e a saída de Raúl Castro do governo cubano.

Carlos Malamud é historiador argentino e analista sênior para América Latina do Real Instituto Elcano. Tradução de Clara Allain.

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