Procurador-geral do Peru renuncia em meio a crise no caso Odebrecht

Peruanos foram às ruas contra Pedro Chávarry, acusado de encobrir investigações da Lava Jato no país

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Após semanas de impasse entre o Executivo e o Judiciário, e intensas manifestações de rua, o procurador-geral do Peru, Pedro Chávarry, anunciou que entregará o cargo nesta terça-feira (8).

Sua renúncia havia sido pedida pelo presidente Martín Vizcarra e vinha sendo o grito de guerra dos peruanos que saíram às ruas para protestar nas últimas semanas.

Peruanos protestam contra o procurador-geral Pedro Chávarry em ato em Lima no último dia 3
Peruanos protestam contra o procurador-geral Pedro Chávarry em ato em Lima no último dia 3 - Mariana Bazo - 3.jan.19/Reuters

Chávarry era acusado de tentar encobrir as investigações da Lava Jato peruana (que apura o destino das propinas entregues pela Odebrecht no Peru), e vinha fazendo especial pressão para que a líder do partido Força Popular, Keiko Fujimori, fosse liberada —ela está em prisão preventiva.

A tensão começou a ganhar força no último dia 31, quando Chávarry pediu o afastamento dos dois promotores responsáveis pela Lava Jato peruana, Rafael Vela e José Domingo Pérez.

Com boa reputação junto ao governo e boa parte da opinião pública, ambos tinham sido responsáveis pelos pedidos de prisão preventiva de dois ex-presidentes, Alejandro Toledo (2001-2006) e Ollanta Humala (2011-2016), acusados de receber propina e caixa 2 da empreiteira brasileira. Enquanto Toledo permanece refugiado nos EUA, Humala está na prisão desde julho de 2017.

Também tinham iniciado processo contra Keiko Fujimori, ex-candidata à Presidência e filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), e Alan García, presidente peruano em duas ocasiões (1985-1990 e 2006-2011) e líder do tradicional partido Aliança Popular Revolucionária Americana). Ele chegou a pedir asilo político no Uruguai.

O afastamento dos dois promotores colocava em risco, ainda, a assinatura de um acordo que ambos negociaram com a Odebrecht e que seria assinado nesta sexta-feira (11).

Segundo o acordo, a empreiteira brasileira pagaria uma multa de US$ 180 milhões (R$ 672 milhões), entregaria provas à Justiça, e, em troca, obteria imunidade e poderia seguir operando no país.

Após dias de incerteza e protestos, os dois promotores foram reincorporados, e anunciaram que retomariam os casos, priorizando o processo contra Humala, preso há mais tempo.

Enquanto isso, Vizcarra iniciou pressões para que Chávarry deixasse o cargo. O bloco fujimorista do Congresso, liderado por Keiko, era o único a apoiar a permanência do procurador-geral no cargo. A porta-voz do partido fujimorista Força Popular, Luz Salgado, acusava a empreiteira brasileira de estar patrocinando as marchas contra Chávarry.

O partido de oposição, porém, que chegou a ter 73 congressistas e havia conseguido pedir o afastamento de vários ministros e do próprio ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018), hoje está enfraquecido. O irmão de Keiko, Kenji, abandonou a legenda e agora têm apoiado o governo Vizcarra ou permanecido neutro.

Em seu primeiro ano no poder, Vizcarra tem buscado um mínimo de garantia de governabilidade. Com Keiko Fujimori presa e o fujimorismo dividido, tem tido mais êxito que seu antecessor. No final de 2018, Vizcarra tinha 60% de popularidade, enquanto PPK terminou seu breve mandato com pouco menos de 20%.

Zoraida Ávalos, que assumiu o cargo de procuradora-geral de forma interina, prometeu reforçar o apoio aos procuradores que atuam em casos de corrupção. Ela também criticou um projeto de lei proposto por Vizcarra para mudar a estrutura de comando da procuradoria, por considerá-lo uma violação à autonomia do órgão.

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