Sob desconfiança, opositor vence eleição na República Democrática do Congo

Anúncio de vitória de Felix Tshisekedi levou a protestos; igreja contesta resultado

Apoiadores de Felix Tshisekedi, vencedor das eleições, participam de manifestação em apoio a ele em Kinshasa
Apoiadores de Felix Tshisekedi, vencedor das eleições, participam de manifestação em apoio a ele em Kinshasa - Baz Ratner/Reuters
Kinshasa (República Democrática do Congo)

O opositor Felix Tshisekedi foi declarado nesta quinta-feira (10) vencedor da eleição presidencial na República Democrática do Congo, em um resultado contestado por observadores da Igreja Católica e pelo segundo colocado. 

Após o anúncio, manifestantes foram às ruas na cidade de Kikwit (400 km a oeste da capital Kinshasa) e entraram em confronto com as forças de segurança, deixando quatro mortos. 

O pleito de 23 de dezembro pode levar a primeira transição democrática da história do país, que tem a quarta maior população da África (80 milhões de pessoas), e foi realizado em meio a temores de conflitos étnicos

O país conseguiu sua independência em 1960, mas logo após passou a ser governado pela ditadura de Mobutu Sese Seko, que foi derrubado apenas em 1997 em um golpe liderado por Laurent-Désiré Kabila. Este, por sua vez, foi assassinado em 2001 e substituído pelo filho, Joseph Kabila, o atual presidente. 

A eleição estava inicialmente marcada para ocorrer em 2016, mas foi adiada por ele, que pretendia permanecer no poder. Impedido de concorrer a um novo mandato, porém, apontou o até então desconhecido Emmanuel Ramazani Shadary como nome governista. 

Segundo os resultados oficiais divulgados pela comissão eleitoral, ele ficou apenas em terceiro, com 4,4 milhões de votos, atrás do vencedor Tshisekedi e do segundo colocado, Martin Fayulu, que teve 700 mil votos a menos. 

O problema é que as pesquisas apontavam Fayulu como favorito e o processo eleitoral ficou marcado por uma série de imprevistos. A votação foi adiada em parte do país que enfrenta um surto de ebola, e a comissão eleitoral demorou para divulgar os resultados, em meio a denúncias de fraudes e manipulação. 

Apoiadores de Fayulu dizem que Tshisekedi, filho de um líder histórico da oposição, fez um acordo com Kabila, segundo o qual o atual presidente manipularia as urnas em troca de imunidade ao deixar o cargo —os dois acusados negam as acusações. 

O vencedor é considerado um nome mais moderado e menos crítico ao governo que o rival, apoiado por líderes de milícias (o país viveu uma guerra civil de 1996 a 2003) e que já comandou grandes protestos contra Kabila.  

Problemas em eleições anteriores no país já levaram a protestos em massa e confrontos que terminaram com diversos mortos.

Exatamente para evitar surpresas no resultado, a igreja montou uma equipe com 40 mil observadores para acompanhar a votação. O grupo disse nesta quinta que sua apuração apontou um resultado diferente da oficial.

Embora os observadores não tenham divulgado quem venceu a disputa na sua contagem, a agência Reuters afirma que foi Fayulu. 

Reuters e AFP
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.