Descrição de chapéu Governo Trump

Trump e democratas mergulham os EUA na mais longa paralisação

Impasse em relação ao orçamento e à construção de muro na fronteira sul chega ao 22º dia

O presidente Donald Trump em reunião sobre segurança na fronteira na Casa Branca  - Brendan Smialowski/AFP
Danielle Brant
Nova York

​Nos Estados Unidos, fechar o governo não é exatamente algo a que os americanos estejam desacostumados. Desde 1976, quando a lei que definiu o processo de orçamento federal foi aprovada, já foram 21 vezes em que algum impasse provocou a paralisação da administração.

O único presidente que escapou da sina nesse período foi o republicano George W. Bush –em parte, talvez, pela comoção provocada pelos ataques de 11 de setembro e que deixaram disputas partidárias em segundo plano.

A partir deste sábado (12), o também republicano Donald Trump toma para si o posto de presidente cujo governo ficou paralisado por mais tempo desde a criação da lei orçamentária: 22 dias.

O motivo do embate com democratas é o muro que ele quer construir na fronteira com o México, para o qual exige uma soma de US$ 5,7 bilhões, que os adversários se recusam a liberar.

Nesta sexta (11), Trump mostrou que se mantém inflexível. Em mensagem, ele qualificou a situação na fronteira de “crise humanitária”.

“Eu acabei de voltar [da fronteira] e é uma situação pior do que quase qualquer um entenderia, uma invasão”, escreveu. “Eu estive lá várias vezes –os democratas chorões Chuck [Schumer, líder do partido no Senado] e Nancy [Pelosi, presidente da Câmara] não sabem quão ruim e perigosa é para nosso PAÍS INTEIRO...”

Na avaliação de especialistas, a situação se agravou tanto que o presidente se colocou numa posição da qual é difícil de sair sem reconhecer que, talvez, a demanda não tivesse o peso que ele dava a ela.

Dificilmente Trump vai dar o braço a torcer, acreditam.

Restam, então, duas saídas: que o presidente declare emergência nacional, recurso que foi usado, por exemplo, por Bush depois do 11 de setembro; ou que ele perca apoio nas fileiras republicanas no Senado, que podem dar aos democratas o número de votos suficiente conseguirem aprovar na Casa o destravamento do orçamento. Nessa hipótese, porém, Trump ainda poderia vetar o texto.

A primeira hipótese é considerada mais factível –seria a 32ª emergência nacional em vigor no país. Na Casa Branca, autoridades estudam a possibilidade de desviar dinheiro alocado para a recuperação após tempestades e furacões para construir a barreira. Segundo o jornal The New York Times, existe dúvida sobre se é possível fazer isso sem que o presidente declare emergência.

Trump, também nesta sexta, afastou a possibilidade de recorrer à emergência agora. “O que nós não estamos procurando fazer agora é uma emergência nacional. Eu não vou fazer isso tão rápido.”

O balanço geral é de que o presidente fez uma aposta política arriscada, da qual pode sair perdedor, avalia Richard Bensel, professor da Universidade Cornell. “A personalidade de Trump produz muitas explosões, ameaças, vai e volta de extremos. Nesse caso, não ajudou muito”, afirma.

“Trump se trancou numa posição da qual não pode retroceder. Eu acho que ele não queria estar nessa posição”, diz Bensel. Para ele, o mais provável é que, nas próximas semanas, mais republicanos pressionem para que o governo seja reaberto.

Faltou calcular racionalmente as chances de a queda de braço ser bem-sucedida, afirma Bensel. “Ele tem a maioria dos republicanos apoiando-o, adorando-o. Contanto que isso continue verdade, ele vai responder a eles”, diz. “Ele não está preocupado com reeleição, e sim que, se ele recuar, vai perder esse público que o adora.”

David Schultz, professor de ciência política da Universidade Hamline, em Minnesota, também acredita que Trump estava jogando para sua base ao insistir no muro. O presidente parecia achar que isso seria suficiente para pressionar os democratas. 

O professor vê duas falhas na estratégia: a distância para as eleições de 2020 –“é muito cedo para motivá-los”; e o fato de o muro também inflamar os que se opõem ao presidente. “Quanto mais ele é visto como causador da paralisação, pior fica para ele.”

Conforme o impacto econômico se aprofunda, mais eleitores que poderiam votar no republicano podem mudar de ideia. “O assunto o fere quanto mais tempo dura e Trump não está oferecendo nenhuma retórica que mostre um caminho para negociar”, diz. “Ele quer que os democratas desistam e os democratas sabem que, quanto mais tempo esperarem pacientemente, mais isso vai ferir o Trump.”

Como efeito da paralisação, o  terminal G do aeroporto internacional de Miami ficará parcialmente fechado de sábado (12) a segunda (14) por falta de agentes de segurança. O bloqueio será só na parte da manhã e os voos serão desviados para outros terminais.

Linha do tempo dos efeitos da paralisação

22.dez.18 
Começa a paralisação parcial. As principais agências afetadas são os departamentos de Agricultura, Comércio, Segurança Doméstica, Habitação e Desenvolvimento Urbano, Interior, Justiça, Transporte e Tesouro, além da Agência de Proteção Ambiental

27.dez 
Apagão afeta Comissão de Valores Mobiliários americana e atrasa análises de ofertas públicas e operações de fusões e aquisições

28.dez 
Departamento de Agricultura estende prazo para agricultores pedirem subsídios para compensar os efeitos das tarifas impostas pela China

29.dez 
A agência que regula alimentos e medicamentos interrompe suas inspeções de rotina

30.dez 
Serviços de Parques Nacionais suspendem coleta de lixo e manutenção de rodovias

2.jan.19 
Museus Smithsonian e Zoológico Nacional fecham as portas

4.jan 
Departamento de Agricultura adia a divulgação de relatórios sobre lavouras americanas e mundiais

O que acontece se a paralisação continuar 

18.jan 
Cortes distritais federais ficam sem recursos; casos civis podem ser suspensos ou adiados

25.jan 
Trabalhadores federais ficam sem receber outro pagamento

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