Ao fim de cúpula, papa Francisco promete 'batalha total' contra abuso sexual de menores

Vítimas e ativistas, porém, manifestam decepção e dizem que discurso é 'retórica reciclada'

Cidade do Vaticano | Reuters

O papa Francisco, ao término de uma reunião histórica no Vaticano sobre a luta contra a pedofilia, comparou a "praga" dos abusos sexuais de menores de idade com as práticas religiosas do passado, de oferecer seres humanos em sacrifício. A frase foi dita em seu discurso de encerramento.

"Me traz à mente a cruel prática religiosa, difundida no passado em algumas culturas, de oferecer seres humanos —frequentemente crianças— como sacrifício nos rituais pagãos", disse o papa, depois de reiterar que a Igreja se compromete a combater este fenômeno com "a máxima seriedade".

Papa Francisco, durante o último dia da conferência sobre abuso sexual de crianças na igreja
Papa Francisco, durante o último dia da conferência sobre abuso sexual de crianças na igreja - Reuters

Francisco pediu uma “batalha total” contra um crime que ele chamou de abominável e que deve ser “apagado da face da terra”. Ao fim da missa na sala Regia do Palácio Apostólico do Vaticano, ele prometeu que as diretrizes usadas nas conferências nacionais de bispos para prevenir e punir abusadores será revisada e fortalecida.

Mas os defensores das vítimas expressaram desapontamento, dizendo que Francisco apenas repetiu velhas promessas e ofereceu poucas propostas concretas.

Em mais de meia hora de discurso, Francisco jurou que a Igreja Católica Romana “não pouparia esforços” para levar os abusadores à justiça e não encobriria nem subestimaria o abuso.

Francisco dedicou a maior parte do discurso para falar de estatísticas das Nações Unidas e outros organizações mostrando que a maioria dos abusos de​ crianças acontece em seu núcleo familiar.

“Estamos enfrentando um problema universal, tragicamente presente em quase todos os lugares e afetando todos. Ainda assim, precisamos ser claros, que, embora afetando gravemente nossas sociedades como um todo, esse mal não é menos monstruoso quando ocorre dentro da igreja”, disse ele.

RETÓRICA RECICLADA

Anne Barrett-Doyle, do grupo bishopaccountability.org, especialista em abusos clericais dos EUA, chamou a conferência de uma “decepção impressionante” que não foi suficiente para lidar com a dor e a indignação dos fiéis.

“Enquanto os católicos do mundo clamam por mudanças concretas, o papa faz promessas tépidas, todas as quais ouvimos antes”, disse ela em um comunicado.

Ela também mencionou uma afirmação do papa sobre o abuso em todos os setores da sociedade. “Precisamos que ele ofereça um plano arrojado e decisivo. Ele nos deu uma retórica defensiva e reciclada”, disse ela.

“Não ouvi nada concreto”, afirmou o italiano Alessandro Battaglia, vítima de abuso, chorando na praça São Pedro junto com outros sobreviventes. “Eles é que nos destruíram. Não foi suficiente, não estamos satisfeitos.”

Depois da conferência, o Vaticano disse que vai formular medidas de acompanhamento para garantir que todos os bispos voltem para casa sabendo como implementar procedimentos antiabuso.

Como o papa fez a conclusão da conferência, a homília da missa, que encerrou formalmente o encontro de cerca de 200 líderes da igreja, foi feita pelo arcebispo de Brisbane, Austrália —que, alguns dizem, proferiu palavras mais pungentes que o próprio papa. 

“Nós não vamos continuar a impunidade”, disse Mark Coleridge. “No abuso e na sua ocultação, os poderosos [da Igreja] se mostram não como homens do céu, mas como homens da terra”, disse. 

“Em algumas situações, entretanto, nós vimos as vítimas e sobreviventes como inimigos, nós não os amamos, nós não os abençoamos. Nesse sentido, nós fomos nosso pior inimigo”, disse. 

Durante a conferência, uma lista de 21 pontos de reflexão foi apresentado. A primeira delas diz que cada diocese deveria ter um manual prático com passos a serem tomados com o surgimento de casos. 

Eles incluem ações como informar autoridades civis caso haja acusações substanciais em conformidade com as leis locais e, ao mesmo tempo, tomando providências para que não-cléricos estejam envolvidos nas investigações. 

O encontro aconteceu depois de eventos de 2018 que tornou o ano um dos piores para o papa desde sua eleição, em 2013.

Na Irlanda, onde o papa esteve em agosto, o escândalo de abuso sexual abalou a imagem da igreja que, por décadas, teve grande influência sobre a sociedade. 

No Chile, que Francisco visitou em janeiro, todos os bispos do país ofereceram suas renúncias no ano passado em meio a um escândalo de encobrimento. Francisco aceitou sete das renúncias e desligou outros dois da igreja.

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