Chanceler do Brasil vai a reunião patrocinada pelos EUA sobre Oriente Médio

Gesto é mais um sinal de alinhamento com Trump; conferência é polêmica por excluir o Irã

Igor Gielow
São Paulo

Em mais um sinal do alinhamento pretendido pelo governo Jair Bolsonaro com o de Donald Trump, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, irá participar de uma polêmica conferência sobre o Oriente Médio patrocinada pelos Estados Unidos e pela Polônia.

O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, durante entrevista em Washington
O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, durante entrevista em Washington - Saul Loeb - 7.fev.2019/AFP

O encontro ocorrerá nesta quarta (13) e quinta (14) em Varsóvia. Cerca de 60 países enviarão observadores, a maioria ministros, mas os americanos emprestarão peso maior com a presença do vice-presidente Mike Pence e do secretário de Estado, Mike Pompeo.

A conferência foi anunciada por Pompeo no começo do ano, e gerou grande controvérsia por estar sendo realizada à margem dos organismos multilaterais das Nações Unidas e por ter excluído o Irã da mesa de debates. Por pressão da União Europeia, o foco da reunião foi ampliado —inicialmente, deveria discutir o comportamento do país persa.

Principais adversários dos EUA na região, os iranianos denunciaram o encontro como um fórum talhado para criticar o regime dos aiatolás. Desde que assumiu, Trump reverteu a política perseguida por seu antecessor, Barack Obama, de negociar com Teerã e retirou os EUA do acordo que visa evitar a militarização do programa nuclear do país.

Além disso, a tensão do Irã com seu arquirrival Israel, maior aliado americano no Oriente Médio, só fez crescer desde o ano passado. Com a maior presença de tropas iranianas em solo sírio, onde apoiam em conjunto com a Rússia a ditadura de Bashar al-Assad na guerra civil, os israelenses passaram a bombardear diretamente alvos de Teerã no país árabe.

Tel Aviv não quer permitir a abertura de uma segunda frente hostil a seu leste. Ao norte, já enfrenta a presença do grupo xiita Hizbollah, que é fomentado por Teerã —país que tem como um de seus objetivos geopolíticos declarados a destruição do Estado judeu.

Para o Brasil, que já participou como observador de negociações passadas sobre o conflito entre Israel e Palestina, a presença de Araújo sacramenta a aproximação com o governo Trump. Araújo esteve com Pompeo na semana passada, durante visita do chanceler a Washington, recebeu nesta segunda (11) o chefe do Comando Sul das Forças Armadas dos EUA e viaja nesta terça (12) para a Europa.

O chanceler já descreveu Trump como o salvador de valores ocidentais contra o que ele classifica de ameaça globalista, um conceito de guerra cultural em que os adversários são governos de esquerda e organizações internacionalistas.

Araújo foi uma indicação do principal ideólogo dos aderentes dessas ideias no Brasil, o escritor Olavo de Carvalho, que mora nos EUA. Seu nome foi chancelado pelo filho do presidente mais ligado à área, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Ele, Araújo e o assessor internacional do presidente, Filipe Martins, são expoentes do “olavismo” no governo.

Além da aproximação com os EUA, há a questão israelense. Bolsonaro, visando agradar sua base evangélica pró-Israel, prometeu mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém —algo que contraria nações muçulmanas que apoiam os palestinos, que desejam ver a cidade como sua capital também. A ideia também emula o que fez Trump em 2018.

A pressão de países árabes, prometendo boicote à compra de carnes brasileiras, fez com que o então presidente interino, Hamilton Mourão, negasse que a mudança fosse ocorrer.

A posição reflete o pensamento da área militar do governo, que já estava insatisfeita com o desempenho de Araújo na negociação da crise venezuelana. O chanceler modulou o discurso, falando então que a transferência da representação é apenas algo em estudo.

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