Ernesto Araújo exclui curso sobre América Latina de formação de diplomatas

Chanceler reestrutura currículo do Instituto Rio Branco e dá ênfase à leitura de autores clássicos

Ricardo Della Coletta
Brasília

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, promoveu uma série de mudanças no currículo do Instituto Rio Branco, a escola de formação de diplomatas do Itamaraty.

A principal alteração foi a criação das disciplinas clássicos 1 e 2, que serão ministradas no primeiro e no segundo semestres do curso.

A reformulação envolve a extinção da matéria história dos países da América Latina e a redução da carga horária de disciplinas como economia, linguagem diplomática e história da política externa brasileira. O tempo de duração do curso foi estendido de dois para três semestres.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante entrevista coletiva em Brasília 0
O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante entrevista coletiva em Brasília - Walterson Rosa - 1º.fev.19/Folhapress

As aulas de clássicos, dedicadas a autores consagrados da cultura ocidental, serão ministradas pelo diplomata Fabio Marzano, que se tornou chefe de estrutura criada por Araújo: a secretaria de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania. A nova área é considerada polêmica porque sugeriria uma guinada nacionalista do Itamaraty.

A disciplina foi montada a partir do trabalho de dois filósofos norte-americanos: Mortimer Adler e Robert Hutchins.

Eles foram os idealizadores, na década de 1950, da coleção Grandes Livros do Mundo Ocidental, concentrada em autores europeus e dos EUA e que visava reunir os formuladores das “grandes ideias” desenvolvidas pela humanidade.

Já houve, no Instituto Rio Branco, uma aula dedicada ao estudo dos clássicos: a disciplina história das ideias políticas, entre 1987 e 1995.

A reestruturação do currículo foi acompanhada de perto por Araújo e começou antes da posse do chanceler, em 1º de janeiro, quando ele trabalhava na transição de governo.

Procurado, o ministério das Relações Exteriores disse que “modificações curriculares ocorrem regularmente no Instituto Rio Branco”. Segundo a pasta, a última “mudança maior” foi em 2017, quando foram reduzidas disciplinas de cunho profissionalizante e reforçadas as matérias teóricas.

Além das alterações na grade, Ernesto Araújo quer uma coordenação do instituto mais alinhada à sua visão de mundo. Ele planeja mudar a diretoria da escola no meio do ano.

O mais cotado para assumir o posto é o diplomata Nestor Forster Júnior, amigo de Olavo de Carvalho e responsável por apresentar o ministro das Relações Exteriores ao escritor. Olavo, por sua vez, foi quem recomendou o nome de Araújo ao presidente Jair Bolsonaro para assumir o Itamaraty.

No cargo há poucos meses, a atual diretora, Gisela Padovan, é tida como embaixadora experiente e deve assumir um posto consular na Europa.

A extinção da disciplina história dos países da América Latina, que sinaliza uma menor ênfase a temas da região, está em linha com uma mudança de Araújo na própria estrutura do ministério.

Ele extinguiu a subsecretaria-geral de América Latina e do Caribe e passou suas atribuições para a recém-criada secretaria de Américas.

Segundo o Itamaraty, a disciplina foi excluída porque o conteúdo já é “amplamente exigido” no concurso de admissão da carreira.

Além de proficiência em idiomas, a prova de acesso ao Instituto Rio Branco exige conhecimentos de história do Brasil e mundial, política internacional, geografia, economia e direito.


Autores presentes na disciplina Clássicos 1

- Homero
- Tucídides
- Platão
- Aristóteles
- Cícero
- Plotino
- Santo Agostinho
- Tomás de Aquino
- Dante Alighieri
- Maquiavel
- Erasmo de Roterdã
- Thomas More
- Rabelais
- Montaigne
- Shakespeare
- Cervantes
- Hobbes
- Descartes
- John Milton
- Pascal
- John Locke
- Hume
- Swift
- Rousseau
- Kant


As alterações curriculares geraram reações diversas entre acadêmicos que acompanham o Itamaraty.

O professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes critica a nova grade, por considerar as disciplinas dedicadas aos clássicos excessivamente teóricas e calcadas em autores ocidentais.

Segundo ele, é negativa a redução da carga horária de matérias para a profissionalização dos alunos, como planejamento diplomático brasileiro e história da política externa brasileira, fundidas em uma mesma cadeira.

“O Itamaraty já vinha defasado em relação ao projeto pedagógico. Já havia um déficit substantivo e metodológico. A tendência é que a defasagem se aprofunde”, diz Lopes.

Já Paulo Kramer, professor aposentado de Ciência Política da Universidade de Brasília, defende as novas disciplinas. 

“Sou totalmente favorável ao estudo dos clássicos do pensamento ocidental, baseado na leitura atenta e na discussão séria dos chamados grandes livros da nossa tradição, de raízes judaico-cristãs e greco-romanas”, afirmou.

A secretária de Comunicação e Cultura do Itamaraty, Márcia Donner, diz que a inserção de clássicos traz “elementos importantes na formação de qualquer pessoa que vá trabalhar no universo das ideias políticas” e que a criação da disciplina não significa enfoque excessivamente teórico. Na gestão Araújo, o Instituto Rio Branco passou a estar vinculado à secretaria comandada por Donner.

O Ministério de Relações Exteriores alegou ainda que o aumento do curso para três semestres vai ampliar o número de horas de treinamento em línguas estrangeiras.

Hoje os diplomatas recém-admitidos têm aulas de inglês, espanhol e francês (idiomas exigidos no exame de admissão) e também devem optar por árabe, chinês ou russo.

Diplomatas que fizeram o curso relataram à Folha que uma carga horária menos intensa era uma demanda dos alunos. Para o Itamaraty, um curso de três semestres permite “reduzir a quantidade de horas em sala de aula, a fim de que os alunos possam dispor de mais tempo para leitura e elaboração de trabalhos”.

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