Descrição de chapéu Venezuela

Chegada de ajuda gera medo de conflito na fronteira entre Colômbia e Venezuela

Na região, crianças deixam de ir à escola e moradores estocam alimentos

Pessoas cruzam a ponte internacional Simón Bolívar, entre Cúcuta e Táchira - Raul Arboleda - 5.fev,2019/AFP
Rosalinda Hernández C.
San Antonio del Táchira (Venezuela)

Na cidade venezuelana de San António del Táchira, que faz fronteira com Cúcuta, na Colômbia, surgiu um “toque de recolher” espontâneo, às 20h; a população vem sendo alertada por pessoas não identificadas, que circulam pelas ruas locais em motocicletas, sobre possíveis confrontos.

“Aqui, há muitas noites as pessoas não dormem bem. A incerteza quanto ao que pode acontecer na passagem da ponte internacional nos deixa insones. As crianças não estão indo à escola e tomamos algumas precauções, como comprar comida suficiente, caso aconteça alguma coisa”, disse a moradora Bella Hernández.

A visita à região do chamado “protetor do Táchira” e aliado do ditador Nicolás Maduro, Freddy Bernal, aumentou a preocupação dos moradores, que dizem que “a cada vez que esse senhor aparece aqui, algo de terrível acontece”.

“Grupos começam a circular e amedrontar as pessoas. Tivemos até tiroteios na ponte [Simón Bolívar] durante a noite”, disse Carol Gutiérrez, que mora perto de San Antonio.

A passagem de comboios de veículos da Guarda Nacional (GN), carregados de soldados, pelas ruas das cidades de fronteira vem se repetindo a cada noite.

O mesmo vale para a passagem de veículos blindados pelas avenidas contíguas ao posto de fronteira.

Contingentes militares, uma barreira de arame, contâineres e uma carreta de combustível bloqueiam o acesso à ponte internacional de Tienditas, na Venezuela, lugar pelo qual está previsto que passe a primeira carga de assistência humanitária que chegará ao país.

Na cidade de fronteira, o comércio está em geral fechado, enquanto a economia informal na avenida Venezuela, o corredor viário que conduz à ponte internacional Simón Bolívar, é a única atividade que continua.

As comunicações, seja por telefonia fixa ou móvel, não estão funcionando, e nem o acesso à internet.

O fluxo de pessoas pela ponte Simón Bolívar aumentou nos últimos dias. Em uma visita da reportagem à fronteira, as pessoas que se deslocam da Venezuela para a Colômbia pela ponte eram visíveis; elas chegam ao país vizinho e fazem compras, principalmente de alimentos.

Carregando sacos às costas ou empurrando carrinhos, pode-se ver centenas de pessoas voltando à Venezuela e, ao serem abordadas, sua declaração mais frequente é a de que “precisamos guardar comida, vai acontecer alguma coisa por aqui”.

Há até um comércio informal de remédios nas imediações da ponte diante da necessidade de remédios na Venezuela, e da falta de alternativa a adquiri-los no país vizinho.

“Vim comprar provisões normais, porque não se sabe quando pode haver um conflito aqui. E alguma coisa precisa acontecer, porque nós, venezuelanos, não aguentamos mais essa situação tão crítica. Não temos dinheiro suficiente para viver, e é mais barato fazer compras em Cúcuta do que em San Cristóbal”, disse uma dessas pessoas.

Os moradores da cidade colombiana de Cúcuta temem um possível conflito entre os dois países e disseram estar dispostos a deixar a região, para longe da fronteira, a fim de proteger suas vidas e as de seus familiares.

“Maduro não vai permitir a passagem da assistência, tenho certeza disso, porque é muito teimoso, não dará o braço a torcer e preferirá que morra mais gente. Vou para Bucaramanga [Colômbia] com minha família, no final de semana, e voltarei se estiver tudo bem, porque não quero expor meus filhos a qualquer perigo”, disse o taxista Arturo Gálvez, de Cúcuta.

Em 5 de fevereiro, um grupo de representantes dos países que administram a assistência humanitária à Venezuela fez uma visita surpresa à ponte internacional Francisco de Paula Santander, que une a cidade venezuelana de Ureña a Boconó, no departamento colombiano do Norte de Santander.

A comitiva, formada por cinco estrangeiros, estava acompanhada de policiais e agentes de imigração colombianos.

Durante a caminhada, que não passou de 15 minutos, os pontos de acesso à fronteira foram examinados, assim como a documentação necessária para entrar na Venezuela vindo da Colômbia.

Os representantes internacionais se recusaram a falar com a imprensa.

Segundo funcionários do governo americano, os EUA enviaram ajuda humanitária a Cúcuta, onde os materiais ficarão armazenados até que possam ser entregues à população.

Mas não está claro como a entrada da ajuda aconteceria sem a autorização de Maduro e sem a cooperação dos militares venezuelanos, que, até agora, têm se mantido leais ao regime, salvo exceções pontuais.

Maduro tem rejeitado todas as propostas de ajuda humanitária. “É um show político tudo o que têm chamado de ajuda humanitária. O imperialismo não ajuda ninguém no mundo”, disse  à RT.

“Pedimos aos militares que deixem a ajuda entrar”, disse o presidente interino Juan Guaidó, acrescentando que os oficiais devem decidir se estão do lado da “ditadura” ou do povo.

Em janeiro, Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, fez juramento como presidente encarregado do país, sob o argumento de que as eleições que deram novo mandato a Maduro (até 2025) foram fraudadas.

Mais de 30 países já reconheceram o líder opositor como legítimo, entre eles o Brasil e os EUA.

Ao se referir ao bloqueio da ponte, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, exigiu nas redes sociais que Maduro deixe entrar a ajuda que “o povo venezuelano precisa desesperadamente”.

Guaidó convocou para uma mobilização em 12 de fevereiro e a outra em data a definir para exigir aos militares, sustentação de Maduro, que abram um caminho para a ajuda, inicialmente para os “300.000 venezuelanos a ponto de perder a vida”.

Na pior crise de sua história moderna, a Venezuela sofre com escassez de 85% de remédios e de alimentos. Segundo a ONU, 2,3 milhões de pessoas deixaram o país desde 2015.

talcual

Tradução de Paulo Migliacci; com informações de Reuters e AFP 

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