Comunista e capitalista, Hanói é cenário simbólico para cúpula Trump-Kim

Capital do Vietnã mistura símbolos socialistas e uma versão selvagem das leis de mercado

Igor Gielow
São Paulo

A escolha de Hanói para sediar a segunda reunião de cúpula entre Donald Trump e Kim Jong-un é carregada de simbolismo e acenos para o passado e o futuro da região.

Limousine levando Kim Jong-un é escoltada por policiais vietnamitas à frente da Ópera de Hanói
Limousine levando Kim Jong-un é escoltada por policiais vietnamitas à frente da Ópera de Hanói - Ye Aung Thu/AFP

A capital vietnamita é um híbrido curioso, talvez algo que Trump gostaria de ver emulado numa Coreia do Norte economicamente integrada à do Sul. É o centro de um Estado comunista, mas exala capitalismo na sua forma mais selvagem.

Há um ar solene nos prédios públicos, todos encimados por faixas vermelhas com palavras de ordem do Partido Comunista.

O ápice se encontra no mausoléu de Ho Chi Minh, o líder da resistência do país contra os colonialistas franceses e, depois, as forças norte-americanas derrotadas em 1973. Ali, a múmia de Ho se encontra preservada sob uma versão anabolizada do mausoléu de Lênin na praça Vermelha, em Moscou —uma vez por ano, o corpo é despachado para manutenção do embalsamento na Rússia.

Tudo isso contrasta com o que há ao redor. Os comunistas ganharam a guerra enfim finalizada contra a porção sul do Vietnã em 1975, mas desde então adotaram um modelo que se assemelha ao chinês de capitalismo de Estado.

Apesar das ilhas de excelência tecnológica e empresarial orientadas para exportação que surgiram nos últimos anos, gerando um crescimento variando entre 5% e 8% desde 2010, o Vietnã é um país pobre e o capitalismo socialista em questão não parece, para o visitante, atender necessidades mínimas da população.

Hanói é um bom exemplo disso. A dez minutos do mausoléu de Ho, por exemplo, o caos de miséria e da economia informal da Cidade Antiga toma de assalto os turistas. Lá se vende de tudo em lojas e nas calçadas, com produtos falsificados chineses dividindo espaço com matérias-primas da excepcional culinária local.

Segundo o Banco Mundial, 27% da população vive em favelas. O trânsito de pessoas e das onipresentes scooters é inominável, fazendo São Paulo ou a Cidade do México parecerem locais civilizados para se trafegar.

A relação com os americanos é paradoxal. Enquanto locais como o Museu Nacional ou a prisão Maison Centrale, o famoso "Hanoi Hilton" onde pilotos como o falecido senador John McCain passaram anos presos, transbordam triunfalismo contra o imperialismo ianque, a política oficial e o ambiente de negócios é pró-EUA.

Outro fator que tornou o Vietnã atrativo como sede da cúpula é sua proximidade, física e econômica, com a China. Não é uma relação simples, dado histórico de conflitos entre os dois países e a percepção vietnamita de que os chineses tratam o país como uma colônia —o último embate militar entre os países foi em 1979.

Mas a China é o sujeito oculto em qualquer negociação entre EUA e Coreia do Norte, dado que a ditadura comunista de Pequim é quem financia sua irmã menor em Pyongyang. Hanói é um lugar menos neutro do que a sede da primeira cúpula, a ilha-Estado de Singapura, mas ainda assim dentro do concerto regional chinês.

Há outros elementos simbólicos. O hotel Metropole, onde ocorrem as reuniões entre Trump e Kim, é um marco na cidade. Foi lá que o escritor britânico Graham Greene escreveu as aventuras de um agente da CIA tentando manipular a política vietnamita em "O Americano Tranquilo" (1955). O edifício de 1901, cuja elegância contrasta com seus arredores hoje, era parada obrigatória para os famosos visitando a então Indochina francesa.

Em 1972, o hotel então renomeado Reunificação recebeu a atriz americana Jane Fonda em sua polêmica viagem em apoio aos comunistas que lutavam contra seu país. Nos EUA, que viviam a guerra cultural da qual Trump é tributário hoje, ela foi chamada de heroína a traidora da pátria —virou a "Hanoi Jane".

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