Descrição de chapéu Venezuela Portugal

Crise venezuelana faz comunidade portuguesa local retornar à Europa

Ao menos 10 mil pessoas já migraram da Venezuela com destino a Portugal

A médica venezuelana Dhiara Ramirez, 27, mudou-se para Portugal com o filho, mas só encontrou trabalho em um mercado local
A médica venezuelana Dhiara Ramirez, 27, mudou-se para Portugal com o filho, mas só encontrou trabalho em um mercado local - Patricia de Melo Moreira/AFP
Bruno Cravo
Estarreja (Portugal) | AFP

Cerca de 400 mil pessoas de origem portuguesa vivem na Venezuela, mas a crise política, econômica e social que atinge o país está levando cada vez mais imigrantes desse grupo a retornarem para a Europa.

Incluindo cidadãos portugueses e seus descendentes, 10 mil integrantes da comunidade já deixaram a Venezuela com destino a Portugal desde 2016.

Cerca de um terço deles se mudou para Estarreja, uma cidade de 27 mil pessoas no norte de Portugal, onde até mesmo a associação empresarial local, a Sema, tem ajudado a receber os novos moradores.

Crispim Rodrigues, que voltou da Venezuela para Portugal há 20 anos, é o responsável por receber os migrantes. "As pessoas para quem estendemos as mãos estão em uma péssima condição. Não podem mais viver [na Venezuela] e não têm outra escolha que não o exílio", disse ele na sede da entidade.

O caos no país tem origem na crise econômica, que levou a um desabastecimento generalizado no qual faltam alimentos e medicamentos e a uma inflação que pode chegar a 10.000.000% neste ano, de acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional). 

"Atualmente, o salário mínimo na Venezuela [cerca de US$ 50] não é mais suficiente para comprar um frango e alguns legumes durante todo o mês", disse Rodrigues à agência de notícias AFP.

Segundo dados da ONU, desde 2015 cerca de 3 milhões de venezuelanos fugiram do país, dono das maiores reservas conhecidas de petróleos do mundo. E a tensão voltou a se agravar nesse início de ano após uma nova onda de protestos contra o ditador Nicolás Maduro liderada por Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional.  

Maduro foi reeleito em maio de 2018 para um novo mandato de seis anos, em um pleito quase que totalmente boicotado pela oposição e considerado fraudulento por observadores internacionais.

Por isso, a Assembleia Nacional, de maioria opositora, não reconheceu o novo mandato do ditador e considerou que à Presidência estava vaga. Assim, indicou Guaidó para ocupar interinamente o cargo até que novas eleições livres sejam realizadas —o opositor se declarou presidente encarregado da Venezuela em 23 de janeiro.

Famílias separadas

Dihara Ramírez, 27, e o seu filho de 5 anos são dois dos venezuelanos que escolheram Estarreja. No caso dela, porque a família do marido já morava na região.

A mulher afirma que mora atualmente na casa dos sogros e que recebeu um apoio incondicional da família, mas que só encontrou trabalho como vendedora em um supermercado local —ela é médica. 

"Foi muito doloroso ficar incapaz de conseguir a medicação para ajudar as pessoas", disse Dihara, que nasceu em Maracaibo, a principal cidade do oeste da Venezuela e onde o marido segue morando. 

"A ideia era que ele também viesse para Estarreja, mas não quer perder a padaria que temos lá. Com a chegada de Guaidó, ele quer continuar a lutar para ver como a situação evolui ", afirmou ela.

A maioria dos países da UE, incluindo Portugal, reconheceu o opositor como presidente legítimo da Venezuela.

Diferentemente de Dihara, o neto de portugueses Joachim Tavares, 55, conseguiu mudar com toda a sua família.

Café chamado Venezuela em Estarreja, cidade que recebeu os migrantes
Café chamado Venezuela em Estarreja, cidade que recebeu os migrantes - Patricia de Melo Moreira/AFP

"Pedi ajuda para encontrar trabalho, não necessariamente na minha área, mas um trabalho que pudesse atender às minhas necessidades", disse o engenheiro. Ele afirmou estar feliz com o fortalecimento de Guaidó, mas não pretende voltar à Venezuela por enquanto, já que, avalia ele, a recuperação pode demorar.

Estarreja é o segundo ponto de origem mais importante da comunidade portuguesa da Venezuela, atrás apenas da Ilha da Madeira. 

Uma padaria chamada "Venezuela" e uma loja chamada "Caracas" confirmam a ligação com o país, mas absorver o grande o fluxo de imigrantes ainda é um desafio para a cidade.    

"Nossa principal dificuldade é obter documentos de identidade, é uma etapa que leva tempo, mas é necessário integrar essas pessoas às nossas empresas", afirma o presidente da Sema, José Valente.

No ano passado, a entidade ajudou 513 imigrantes a conseguirem trabalho, e o governo português criou recentemente uma comissão para ajudar a acelerar os procedimentos burocráticos e a retirada de documentos.

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