Descrição de chapéu The Washington Post

Denúncias de abuso de crianças surdas apontam falhas do Vaticano em dois continentes

Vítimas na Argentina e na Itália dizem que suas acusações foram longamente ignoradas pelo papa Francisco

Luján de Cuyo (Argentina)

Quando investigadores invadiram o Instituto Antonio Provolo para Surdos, descobriram um dos piores casos até hoje entre os escândalos globais de abusos que assolam a Igreja Católica: um lugar de sofrimento silencioso onde, segundo os promotores, pedófilos atacavam as crianças mais isoladas e submissas.

O âmbito do suposto abuso era vasto. Há acusações contra 13 suspeitos; uma 14ª pessoa se confessou culpada de abuso sexual, inclusive estupro, e foi condenada a dez anos de prisão. O caso do acusado como líder do grupo —um padre italiano octogenário chamado Nicola Corradi —  deverá ser julgado no próximo mês. 

Corradi foi diretor espiritual da escola e teve uma carreira de décadas, abrangendo dois continentes. Por isso sua prisão no final de 2016 levantou imediatamente uma pergunta: a Igreja Católica tinha alguma ideia de que ele pudesse ser um perigo para as crianças?

The Instituto Antonio Provolo in Verona, Italy, on Jan. 25, 2019. MUST CREDIT: Photo for The Washington Post by Emanuele Amighetti
O Instituto Antonio Provolo, em Verona, na Itália - Emanuele Amighetti -25.jan.19/The Washington Post

A resposta, segundo uma investigação de The Washington Post que incluiu uma revisão de documentos do tribunal e da igreja, cartas particulares e dezenas de entrevistas na Argentina e na Itália, é que autoridades da igreja, incluindo o papa Francisco, foram advertidas diversas vezes e diretamente sobre um grupo de supostos predadores que incluía Corradi.

Mas não tomaram medidas visíveis contra ele. 

"Eu quero que o papa Francisco venha aqui, quero que ele explique como isso aconteceu, como eles sabiam disso e não fizeram nada", disse uma ex-aluna do Instituto Provolo, de 24 anos, usando a linguagem de sinais enquanto suas mãos tremiam de raiva.

Ela e seu irmão de 22 anos, que pediram para manter o anonimato, estão entre pelo menos 14 ex-alunos que dizem ter sido vítimas de abuso no internato, hoje fechado, à sombra da cordilheira dos Andes. 

Extremamente vulneráveis, a maioria dos estudantes surdos vinha de famílias pobres, que acreditavam com fervor na santidade da igreja.

Gianni Bisoli told a church investigator that he was abused by 30 religious figures and other Provolo faculty members, including Corradi. Bisoli is shown while on his way from Colombare to Sirmione on Jan. 24, 2019. MUST CREDIT: Photo for The Washington Post by Emanuele Amighetti
Gianni Bisoli disse a investigador da igreja que foi abusado por 30 figuras religiosas e membros do instituto Provolo - Emanuele Amighetti -24.jan.19/The Washington Post

Os promotores dizem que as crianças foram bolinadas, violentadas, às vezes amarradas e, em um caso, obrigada a usar fralda para esconder o sangramento. O tempo todo, sua capacidade limitada de comunicação reduziu sua possibilidade de contar a outras pessoas o que lhes acontecia.

Na escola, os estudantes levavam tapas se usassem a linguagem de sinais. Um dos poucos gestos manuais usados pelos padres, segundo as vítimas, era um dedo indicador levado aos lábios --uma ordem de silêncio. 

"Elas eram as vítimas perfeitas", disse Gustavo Stroppiana, o promotor-chefe do caso.

Mas talvez não tenham sido as primeiras. Corradi, hoje com 83 anos e em prisão domiciliar, também é investigado por crimes sexuais em outra escola na Argentina, onde ele trabalhou de 1970 a 1994.

Ex-alunos de uma escola relacionada na Itália, onde Corradi atuou anteriormente, o identificaram como um de vários padres que praticaram abusos sistemáticos durante cinco décadas. As escolas foram todas fundadas e dirigidas por padres da Companhia de Maria para Educação de Surdos, uma pequena congregação católica que responde ao Vaticano. 

Os esforços das vítimas italianas para dar o alarme às autoridades eclesiásticas começaram em 2008 e incluíram um e-mail com a lista dos padres acusados, enviado a Francisco em 2014, e uma entrega pessoal da lista a ele em 2015.

Não foi a igreja, porém, mas a polícia argentina que cortou o acesso de Corradi às crianças, quando fechou a escola Provolo em Luján, na província de Buenos Aires. Promotores argentinos dizem que a igreja não cooperou totalmente com a investigação. 

Enquanto Francisco se prepara para conduzir uma cúpula histórica de bispos nesta semana para abordar abusos sexuais cometidos por religiosos, os lapsos no caso —afetando o país natal do papa, a Argentina, e o país sede da Igreja Católica— ilustra os fracassos ainda presentes da igreja em reparar um sistema que permitiu que padres continuem abusando de crianças muito depois de serem acusados.

O advogado de Corradi recusou diversos pedidos de entrevista para esta reportagem e não respondeu a e-mails que pediam para falar com o padre. Tentativas de alcançar Corradi por meio de sua família não tiveram êxito. O Vaticano não quis comentar uma lista detalhada de perguntas. 

Mas Anne Barrett Doyle, codiretora do site de rastreamento de abusos BishopAccountability.org, disse que o caso de Provolo é "realmente emblemático".

"A igreja falhou com eles de modo abissal. O papa os ignorou, a polícia respondeu", disse ela. "É um claro exemplo da tragédia que continua ocorrendo."

Giuseppe Consiglio, the youngest of the Verona victims' group, said he wanted the Vatican to "open its eyes" and "close the schools." Consiglio is shown behind his apartment in the suburbs of Verona on Jan. 25, 2019. MUST CREDIT: Photo for The Washington Post by Emanuele Amighetti
Giuseppe Consiglio, o mais novo entre as vítimas de Verona, na Itália - Emanuele Amighetti-25.jan.19/The Washington Post

Assim como na Argentina, estudantes surdos das escolas Provolo em Verona, na Itália, guardaram em segredo suas experiências de abuso sexual durante anos. Mas depois que começaram a se abrir esforçaram-se para informar à Igreja Católica, segundo cartas e outros documentos.

Eles escreveram para o bispo local em 2008. Pouco depois, forneceram uma lista de padres e figuras religiosas acusados à diocese local. Em 2011, uma lista de nomes chegou ao Vaticano. Em 2015 a lista estava nas mãos do papa. 

As reclamações começaram com Dario Laiti, um ex-aluno que se apresentou em 2006 depois de perceber uma nova instalação para crianças na cidade e temendo que lá também pudessem ocorrer abusos. 

"Fui o primeiro", disse Laiti, que durante anos inventou desculpas quando sua mulher lhe perguntava por que não queria ter filhos. 

Logo, mais de uma dúzia de ex-alunos estavam contando suas histórias, usando uma mistura improvável de linguagem de sinais e fala limitada. Seus relatos variavam no tempo entre os anos 1950 e 1980.

Como adultos, eles tinham se tornado carpinteiros, entregadores, operários. Alguns estavam desempregados. Poucos tinham relacionamentos duradouros. Um de seus colegas de escola havia se suicidado. 

Uma aluna, Alda Franchetto, disse que tentou contar a seus pais anos atrás —ela correu da escola em um surto de euforia quando tinha 13 anos e explicou a eles o que estava acontecendo lá. Seus pais, disse ela, não acreditaram e a devolveram ao instituto. 

"Eles disseram: 'Você precisa disso para aprender a falar e escrever'", contou Franchetto.

Quando os ex-alunos já adultos começaram a relatar os abusos, era tarde demais para mover ações criminais. Mas não para a responsabilização da igreja. Eles escreveram ao bispo local em 2008, informando-lhe sobre suas queixas.

Pouco depois, a pedido de um jornalista da revista italiana L'Espresso, 15 ex-estudantes deram mais um passo: escreveram declarações juramentadas descrevendo sodomização, masturbação forçada e outras formas de abuso.

As declarações citavam 24 padres e outros membros do corpo docente, incluindo Corradi. A associação de estudantes disse que dezenas de outros experimentaram abusos, mas não quiseram se pronunciar publicamente. 

O bispo, Giuseppe Zenti, foi indiferente. Em uma entrevista coletiva, ele chamou as denúncias de "farsa, uma mentira e nada mais", e comentou que a associação de ex-alunos estava envolvida em uma disputa por propriedades com o Instituto Provolo.

Os ex-alunos abriram processos por difamação contra Zenti e incluíram suas declarações como parte do processo —essencialmente entregando os nomes dos padres acusados à diocese. 

O caso ganhou a atenção do Vaticano, que em 2010 pediu que Zenti examinasse mais profundamente as alegações, segundo cartas da igreja. A diocese local trouxe um juiz aposentado, Mario Sannite, para investigar. 

"Foi assim que me vi no meio dessa história", disse Sannite.

Ele se tornou o representante local da Santa Sé, solicitado a transmitir suas conclusões e suas análises à Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano.

Em dezembro de 2010 e janeiro de 2011, Sannite entrevistou 17 ex-estudantes de Provolo, com a ajuda de um intérprete de linguagem de sinais. Ele disse que os relatos foram perturbadores, e mais tarde escreveu que não havia motivos para se duvidar da "maioria" das acusações.

No relatório enviado ao Vaticano, porém, Sannite escreveu que tinha dúvidas sobre um ex-aluno, o único que citou Corradi como agressor --embora alguns outros entrevistados frequentassem a escola na mesma época que Corradi.

Gianni Bisoli, um instrutor de esqui então com 62 anos, acusou 30 figuras religiosas e outros professores de Provolo de abusar dele —um número muito maior que o dos outros.

E suas denúncias foram especialmente explosivas: um dos que ele acusou era Giuseppe Carraro, o bispo de Verona nos anos 1960 e 1970, que depois de morto estava em processo de canonização.

"As declarações de Bisoli foram provavelmente consideradas muito perigosas", disse Paolo Tacchi Venturi, advogado que na época representava as vítimas. 

Com a ajuda de um intérprete e de Venturi, Bisoli falou com Sannite durante 12 horas, ao longo de três dias, segundo registros. Outros que estavam presentes disseram ao Post que Bisoli descreveu os abusos em detalhes.

Em entrevistas ao Post, Bisoli narrou que foi abusado por Corradi diversas vezes, incluindo uma em que foi encurralado com duas outras crianças num banheiro exclusivo dos padres. Nesse caso, segundo Bisoli, ele foi encostado a uma parede por Corradi e outras duas figuras religiosas e Corradi o sodomizou com o dedo.

Sannite avaliou que Bisoli certamente foi vítima de abuso. Mas no relatório que escreveu, que foi enviado pela Diocese de Verona ao Vaticano, o ex-juiz disse que era implausível que Bisoli pudesse ter sido abusado por tantas pessoas —que o instituto descreveu como semelhante a um "círculo infernal".

Sannite comentou que algumas datas de Bisoli não combinavam, e alguns dos acusados não pareciam estar no instituto nos anos que Bisoli descreveu. Sannite também apresentou outra teoria: que Bisoli "reembalou suas alegações transbordantes com base em suas lembranças de experiências como homossexual" já adulto. 

The city of Verona, Italy, as seen from the Castel San Pietro on Jan. 25, 2019. MUST CREDIT: Photo for The Washington Post by Emanuele Amighetti
A cidade de Verona, na Itália - Emanuele Amighetti-25.jan.19/The Washington Post

Em uma entrevista em sua casa no mês passado, Sannite leu o relatório, mas não deu uma cópia ao "Post". Quando perguntado sobre por que um homem gay seria menos preciso ao descrever abusos, Sannite disse: "Não é que eu possa dizer que há diferenças".

Então ele perguntou por que estavam lhe fazendo essa pergunta. Mais tarde, Sannite escreveu em um e-mail que não quis traçar uma conexão entre a credibilidade de Bisoli e sua sexualidade.

Em uma entrevista, Bisoli disse que era "ofensivo" e uma "provocação" que a sexualidade de uma pessoa na vida adulta fosse incluída em uma avaliação. 

Seguindo diretrizes da igreja, Zenti escreveu uma carta para acompanhar o relatório ao Vaticano, segundo a Diocese de Verona, que não quis mostrá-la ao Post.

Mas Zenti continuou cético das denúncias e disse em um depoimento em 2017 —conduzido em parte como um processo legal separado— que mesmo uma palavra como "sodomização" seria "difícil de transmitir por um surdo-mudo".

O bispo também relatou que ouviu uma teoria de que as vítimas de Verona estavam por trás das denúncias na Argentina também, talvez como modo de "obter a posse das belas propriedades do instituto nesses lugares".

Com base na investigação em Verona, o Vaticano puniu só um padre, Eligio Piccoli, que foi instruído a levar uma vida de oração e penitência longe de menores. Três outros padres receberam advertências —basicamente de que o Vaticano estaria observando seu futuro comportamento.

Uma autoridade da igreja em Verona disse que as alegações contra Corradi não foram examinadas tão de perto principalmente por causa da avaliação sobre Bisoli.

Agimos com base na premissa geral de que Bisoli não era considerado confiável", disse o monsenhor Gianpietro Mazzoni. "Neste caso, talvez, cometemos um erro, já que não sabíamos o que aconteceria depois na Argentina." 

Um dos outros ex-alunos que Bisoli disse que estava no banheiro dos padres, Maurizio Grotto, fez relatos conflitantes sobre o ocorrido. Ele disse a Sannite que não foi abusado por Corradi, e disse em uma entrevista ao "Post" que foi.

Outra ex-aluna de Provolo, Franchetto, disse em uma entrevista que foi molestada por Corradi, mas tentou durante anos esquecer seu rosto, "como medida de autodefesa". Ela não falou ao investigador do Vaticano sobre suas experiências.

O presidente da associação que representa as vítimas italianas, Giorgio Dalla Bernardina, disse que conhece outras vítimas de Corradi que não quiseram falar em público. 

Advogados envolvidos no caso e especialistas em abusos clericais disseram que a igreja não examinou se o padrão de abusos na Itália se repetia em escolas Provolo no exterior para onde foram enviados padres italianos.

Algumas dioceses nos EUA relatam acusações de abusos à polícia independentemente de o padre acusado já estar morto ou de o prazo ter expirado, e suspendem os padres do ministério enquanto as acusações são investigadas. A Diocese de Verona disse que não contatou a polícia. 
 

Venturi, o advogado que representou as vítimas durante a audiência, disse que o Vaticano cometeu outro erro —uma "contradição lógica"— ao reconhecer que Bisoli sofreu abuso, mas não investigando quem seria o agressor.

"Se você diz que ele sofreu abusos, e acredita que ele foi uma vítima, e ele diz que foi abusado por pessoas, então você tem de escutar todas", disse Venturi, comentando que a tarefa foi facilitada porque só alguns dos acusados continuavam vivos. "Você vai e interroga todas."

As vítimas italianas acreditavam que se alguém poderia tratar melhor dos casos de abuso era Francisco, que foi eleito líder da igreja em 2013 —dois anos depois do inquérito de Verona— e que anunciou a criação de uma nova comissão para proteção das crianças.

Os ex-alunos de Provolo escreveram a Francisco no final de 2013, dando um amplo cronograma de seu caso. Eles disseram que não tiveram resposta.

Em 2014, segundo recibos dos correios, eles tentaram novamente, com linguagem mais direta, enviando ao endereço do papa no Vaticano uma lista dos 14 supostos agressores sexuais que eles achavam que ficaram impunes. Não receberam resposta de Francisco ou de alguém mais do Vaticano. 

Assim, em outubro de 2015, 20 pessoas de Verona, na maioria vítimas de abusos, embarcaram em um trem para Roma. Elas não tinham certeza se encontrariam o papa, mas visaram o dia em que o Vaticano ia atender a pessoas com deficiências. E de fato, depois que Francisco rezou a missa na praça São Pedro, uma autoridade do Vaticano convidou duas pessoas de Verona para um pequeno evento com o papa.

Paola Lodi Rizzini e Giuseppe Consiglio se posicionaram perto do palco do Salão de Audiências Paulo 6º segurando uma carta, mais tarde revista pelo Post, listando os mesmos 14 nomes. 

Consiglio, hoje com 29 anos, era o mais jovem das vítimas de Verona. Ele frequentou a escola no final dos anos 1990, e se apresentou em 2012, depois da investigação do Vaticano. Mas ficou aborrecido com a resposta do Vaticano. Disse que queria que a igreja "abrisse os olhos" e "fechasse as escolas".

Ele disse ao Post que sua infância foi destruída por causa do abuso. Ele contou que foi violentado centenas de vezes por um padre que era "grosseiro", mas cuidadoso para não sujar a batina com o sangue do menino.

Consiglio tentou pular de uma janela da escola aos 12 anos, mas foi impedido por uma freira. Foi tratado com antipsicóticos. Quando adulto, ele vivia em casa com alguns amigos. Tinha tal pavor de ser trancado em quartos que pegou todas as chaves da família. 

No Vaticano, ele ficou cara a cara com Francisco.

Rizzini lembra que falou primeiro e disse ao pontífice que eles representavam um grupo de vítimas de Verona.

"Eu disse: 'Giuseppe é uma vítima de abuso sexual, e ele tem uma carta de todas as vítimas'", disse Rizzini.

Consiglio entregou o envelope a Francisco. Um fotógrafo do Vaticano documentou o momento.
A carta apelava ao papa dizendo que o comportamento da igreja em seu caso estava "em absoluto desacordo com a tolerância zero do papa Francisco".

Dizia que a igreja tinha permitido que padres e outras figuras religiosas que abusaram deles continuassem levando "vidas normais".

Então um parágrafo listava 14 padres e irmãos laicos que as vítimas acreditavam que ainda estivessem vivos. A lista incluía o suposto abusador de Consiglio, um punhado de figuras que não tinham sido punidas na Itália e quatro que estariam na Argentina, incluindo Corradi.

Rizzini e Consiglio lembram que Francisco recebeu a carta e a entregou a um secretário sem abri-la. Fotos mostram Francisco abençoando Rizzini e Consiglio, tocando suas cabeças. Ambos lembram que Francisco, antes de se afastar, disse: "Rezem por mim". 

Pessoas envolvidas no caso dizem que o pedido dos ex-alunos não parece ter levado a igreja a examinar melhor os padres citados. 

Quatro meses depois, em fevereiro de 2016, uma carta chegou a Verona de um dos secretários de Francisco, o então bispo Angelo Becciu, que ocupava um cargo importante na Secretaria de Estado. Becciu escreveu que Sua Santidade "recebeu com viva participação o que vocês quiseram lhe confidenciar".

"Ele deseja lembrar-lhes", continuou a carta, "o que a Santa Sé fez e continua fazendo com dedicação inabalável sobre os abusos sexuais por clérigos, atuando em apoio à tragédia das vítimas e para evitar o triste fenômeno". 

No início dos anos 1960, o Instituto Provolo em Verona dispensou um padre e outro professor por "inadequação moral", segundo autoridades da igreja.

Mas não há provas, segundo os registros da igreja, de que a Companhia de Maria soubesse das alegações contra Corradi quando o transferiu da Itália para a Argentina em 1970.

Mesmo que se soubesse algo, "duvido que houvesse uma menção explícita no arquivo", disse Mazzoni, a principal figura judicial na Diocese de Verona. 

Na Argentina, Corradi inicialmente lecionou no Instituto Provolo para Surdos em La Plata, cidade provinciana a uma hora de carro dos edifícios "belle époque" de Buenos Aires.

Na esteira das revelações de abuso disseminado em Luján de Cuyo em 2016, autoridades de La Plata iniciaram uma investigação que descobriu denúncias de abuso sexual e maus tratos, remontando aos anos 1980, contra pelo menos cinco homens que trabalhavam na escola, incluindo Corradi e outro clérigo italiano.

O outro italiano, Elisio Pirmati, também foi citado por estudantes de Verona nas cartas enviadas ao papa.

Maria Corfield, a promotora no caso de La Plata, disse que Pirmati retornou à Itália e vive recluso no Provolo de Verona --que não é mais um instituto para surdos, mas aluga o espaço para outra escola. As tentativas do Post de contatá-lo foram infrutíferas.

Até o momento, Corradi foi acusado de abuso sexual por dois ex-alunos da escola em La Plata.

Promotores públicos receberam um relatório de outra alegada vítima de Corradi que se suicidou já adulto. Embora um total de dez supostas vítimas da escola em La Plata tenham se pronunciado, Corfield disse que falou com outras possíveis vítimas que resistem a se envolver.

"Eles dizem que agora têm famílias e não querem dar explicações", comentou ela.

Lisandro Borelli, 40, passou a estudar no Provolo em La Plata em 1989 após se tornar clinicamente surdo devido a surras violentas de seus pais.

Em entrevista, ele se lembrou de Corradi colocando-o no colo e acariciando seus órgãos genitais no decorrer das aulas, quando o padre também inseria dedos em sua boca para lhe ensinar a pronunciar palavras.

Conforme seu relato, certa vez ele foi punido na escola sendo trancado em uma cela sem comida por dois dias. Em outro incidente, foi atirado escada abaixo como forma de intimidação após flagrar um padre da escola estuprando seu companheiro de quarto.

"Quando descobrimos que isso teve início na Itália, ficamos surpresos", disse Borelli na linguagem de sinais. "Agora penso a respeito e me pergunto se isso estava acontecendo também em outros institutos Provolo."

Em 1994, a congregação religiosa de Corradi o enviou para montar um novo Instituto Provolo no oeste da Argentina.

A escola —um vasto complexo de alvenaria cercado por muros altos que funcionava como internato e escola regular para dezenas de crianças surdas— foi aberta em 1998, com Corradi como diretor espiritual.

Nos corredores com lâmpadas fluorescentes e ladrilhos encerados, Corradi primeiramente atraiu um menino de cerca de 7 anos para seu quarto, segundo a suposta vítima, que hoje tem 22 anos e é tímido e delicado.

Em uma entrevista ao Post, o rapaz relembra sua confusão quando Corradi o despiu e a dor lancinante ao ser estuprado. A seguir, Corradi lhe deu um brinquedo —uma pequena caminhonete azul.

"Eu não conseguia encará-lo", afirmou o rapaz, usando a linguagem de sinais. "Isso me apavorava e repugnava."

Ele afirmou ter sido estuprado regularmente nos cinco anos seguintes. E recordou que nessas ocasiões olhava fixamente uma estátua da Virgem Maria com o menino Jesus, que ficava próxima da cama de Corradi, o qual dizia palavras que ele não conseguia ouvir ou compreender.

A escola, que não ensinava a linguagem dos sinais, adotava uma metodologia que buscava ensinar as crianças surdas a ler e a falar como escutavam.

Segundo promotores públicos, esse sistema também era ideal para ocultar os abusos. Alunos agredidos contam que aprenderam a linguagem dos sinais escondido dos colegas mais velhos, mas que isso foi de pouca valia.

O rapaz de 22 anos e sua irmã —a moça de 24 anos que queria que o papa Francisco viesse à Argentina para ver o que acontecia por lá e que afirmou ter sido estuprada na infância por outro funcionário do Provolo— são de uma família pobre cujos pais tinham conhecimento limitado da linguagem de sinais.

"Nós não queríamos ir à escola, mas nossos pais estavam convencidos de que seria o melhor para nós", afirmou a irmã. "Então, éramos maltratados em casa e apanhávamos porque nossos pais achavam que simplesmente não queríamos frequentar a escola."

Promotores públicos dizem que, como diretor espiritual da escola, Corradi não só participava dos abusos, como facilitava o acesso a crianças para outros predadores sexuais que trabalhavam na instituição.

Promotores públicos e vítimas alegam que, sob a direção de Corradi, uma freira japonesa, Kosaka Kumiko, treinava as crianças mais dóceis. Ela as tocava e as orientava a se tocarem uns aos outros. Kumiko afirmou reiteradamente sua inocência no tribunal.

Também entre os alegados abusadores em Luján há um homem surdo e deficiente mental, hoje com mais de 40 anos. Promotores públicos dizem que ele foi abandonado na infância no Provolo em La Plata e que contou estar entre as vítimas abusadas por Corradi no instituto.

Esse homem alegou que, quando foi designado como jardineiro por Corradi na nova escola Provolo em Luján, começou a abusar de outras crianças.

Os piores casos de abuso documentados por promotores públicos em Luján ocorreram entre 2004 e 2009.

Durante esses anos, Francisco atuava como cardeal Bergoglio em Buenos Aires, uma diocese 1.126 km a sudeste de Luján de Cuyo, e, portanto, não poderia prestar contas sobre as condutas na escola.

No entanto, as alegações de abuso e corrupção de menores na Argentina se estendem muito além de quando a igreja foi notificada e muito depois de as vítimas italianas buscarem alertar Francisco diretamente em 2013.

O incidente mais recente envolvendo Corradi é a alegação de ter se envolvido na distribuição de pornografia para crianças em 2013. Outros suspeitos também teriam tocado estudantes inapropriadamente em 2015 e 2016.

A inação da igreja permitiu que os alegados abusadores continuassem em contato diário com crianças —até que uma ex-estudante atormentada recorreu a autoridades argentinas.

Uma moça esquálida de 27 anos, que, como outras vítimas, falou sob a condição do anonimato, disse que foi estuprada por um padre argentino subalterno de Corradi.

Em entrevista, ela afirmou que pensou durante anos em se suicidar e até escreveu um bilhete de despedida para os pais antes de parar em um penhasco junto a um rio e refletir se iria saltar.

"Eu me sentia como água, como se fosse nada", explicou ela na linguagem de sinais no escritório de seu advogado em Mendoza, na Argentina. "Eu queria me matar, mas continuei vivendo com esse tormento ano após ano."

Segundo a moça, uma amiga a convenceu de que ela e outras vítimas realmente precisavam de justiça.

Então, em novembro de 2016, ela foi a um centro estadual para pessoas com deficiências e solicitou um intérprete de linguagem de sinais. Posteriormente, eles foram juntos ao parlamento estadual, onde, em 24 de novembro de 2016, tiveram uma reunião com um senador que deu o alarme.

Agindo rapidamente com base no depoimento dela, promotores públicos vasculharam a escola dois dias depois, encontrando pornografia e cartas que implicavam um dos colegas de Corradi, o padre argentino Horacio Corbacho, 58.

Em autos processuais, uma carta sexualmente sugestiva, aparentemente escrita por alguém a par dos abusos, indaga a Corbacho "até que ponto se pode exigir mais silêncio de um surdo-mudo?".

No ano passado, Jorge Bordon, motorista de 62 anos de Corradi, admitiu sua culpa em 11 relatos de abuso. Sua confissão envolveu efetivamente alguns dos outros acusados, embora Corbacho, Kumiko e outros tenham negado as acusações. Corradi —sob prisão domiciliar em local desconhecido na Argentina e acusado em seis casos de abuso qualificado— ainda não apresentou contestação.

O bispo Alberto Germán Bochatey, nomeado pelo papa para supervisionar as escolas Provolo após o escândalo, disse que Corradi se considera inocente.

"Ele está arrasado", disse Bochatey, que esteve com Corradi há dois meses. "Ele construiu aquela escola."

Após autoridades argentinas fecharem a escola em Luján em novembro de 2016, o Vaticano nomeou dois padres para conduzirem uma investigação interna que ainda está em curso. Promotores públicos dizem que autoridades da igreja na Argentina recusaram o pedido para partilhar as descobertas.

Bochatey, que não está envolvido na investigação, negou que haja falta de cooperação por parte da igreja.

Ele disse ter recebido uma solicitação para o relatório e respondeu em uma carta a promotores públicos que precisaria ser submetido diretamente ao Vaticano. Disse ainda que não enviou o pedido. Stroppiana, o promotor, afirmou não ter lembrança de receber resposta de Bochatey ou de quaisquer outras autoridades da igreja.

Bochatey acusou promotores públicos e advogados das vítimas de exagerarem o alcance das alegações.

E sugeriu que de alguma forma maçons —membros de uma ordem fraternal conhecida por rituais secretos e serviço comunitário que há muito tempo a Igreja Católica considera como oponente— estavam por trás das acusações, embora reconheça que a igreja não tem "prova" disso.

"Achamos que a ordem maçônica estava por trás disso", comentou ele. "Não conseguimos entender por que [as acusações] são tão diretas e intensas. Eles tentam montar um processo judicial enorme de que aquilo era uma casa de horrores, citando 40 ou 50 casos, mas havia pouco mais de dez."

E acrescentou: "Conversei com muitos pais que disseram que seus filhos estavam felizes e que não queriam que a escola fechasse. Acho que algo aconteceu, mas não da maneira como estão tentando mostrar".

Bochatey defendeu ainda a abordagem da escola, dizendo que o principal era ensinar os surdos a ler e a falar. Talvez alguns professores tenham sido rigorosos demais, disse ele.

"Às vezes, algum professor pode ter agido mal", conjecturou.

Segundo ele, a igreja não só foi forçada a fechar a escola em Luján, como a vender o próprio terreno.
"Estamos pagando caro por nosso erro", concluiu.

The Washington Post

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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