Ditadura da Nicarágua prende diretor de TV em cela de segurança máxima

Chefe de canal opositor está isolado e com dores, diz advogado; ele pode pegar até 15 anos de prisão

Flávia Mantovani
São Paulo

Preso em uma cela de segurança máxima, onde até a comida é recebida por uma janela, sem direito a visitas, ao contato com outros detentos ou a sair para tomar sol. Assim está o diretor de um canal de TV nicaraguense detido há quase dois meses pela ditadura de Daniel Ortega, conta o advogado dele, Julio Montenegro.

Acusado de terrorismo pelo regime, Miguel Mora, chefe do 100% Noticias, também está com problemas de visão pelas más condições em que se encontra e tem dores no rosto após ter sido agredido, relatou Montenegro à Folha.

Mora foi preso junto com a chefe de Redação, Lucía Pineda, quando a polícia invadiu a sede do canal na noite do dia 21 de dezembro. Outros dois funcionários foram levados e soltos após alguns dias, mas Pineda continua presa, também isolada e em péssimas condições, disse o advogado.

Manifestante segura cartaz com as fotos de Miguel Mora e Lucía Pineda em San José, na Costa Rica - Ezequiel Becerra - 22.dez.2018/AFP

O 100% Notícias fez uma forte cobertura dos protestos contra o governo, que começaram no dia 18 de abril e foram fortemente reprimidos. 

Testemunhas disseram que cerca de 40 agentes da polícia entraram na sede da TV armados, dando chutes e ordenando que as pessoas se jogassem no chão. Equipamentos foram apreendidos, o canal, fechado e o edifício permanece vigiado por policiais.

Os dois jornalistas estão em prisão preventiva, aplicada a delitos graves, e sujeitos a uma pena de 15 anos. 

Enquadrados em uma controversa lei antiterrorismo aprovada às pressas em julho de 2018, foram acusados de “conspiração para cometer atos terroristas” e “apologia a delitos impulsionados pelo ódio”.

Mora e Pineda ficaram por 40 dias no El Chipote, presídio conhecido como centro de tortura de presos políticos. No último dia 30, após uma audiência, foram transferidos para outras penitenciárias.

“A cela onde Mora estava no Chipote era tão escura que, quando recebeu uma visita de deputados europeus, a luz dos celulares o incomodou”, conta Montenegro, referindo-se a uma missão da União Europeia que esteve no país em janeiro. “Agora, nessa outra prisão, ele não tem o mesmo direito dos outros presos de sair para tomar ar uma hora por dia.”

O vídeo abaixo mostra Mora na prisão.

Segundo o defensor, líderes de movimentos sociais e outras “pessoas emblemáticas” que participaram dos protestos contra Ortega estão sendo submetidas ao mesmo duro regime nas penitenciárias.

Ele se queixa de não ter acesso aos clientes —o único contato foi na audiência preliminar, e agora ele aguarda o julgamento, marcado para 15 de março, para vê-los novamente. 

As famílias também sofrem com restrições às visitas. Veronica, mulher de Mora, fez quatro pedidos judiciais para vê-lo no Chipote, mas só conseguiu entrar em uma ocasião. “A simples solicitação de entrada no presídio foi negada. Estamos demandando que os direitos humanos sejam respeitados”, diz o advogado.

Na audiência, Mora “relatou sentir dores na parte direita do rosto, por causa dos golpes que levou, e Lucía tinha dores de cabeça, provavelmente pela situação de estresse que está vivendo, já que foi submetida a pelo menos 30 interrogatórios”, conta Montenegro.

Durante a visita dos deputados europeus à prisão, tanto Pineda quanto Mora gravaram vídeos dizendo que não vão desistir e que vão continuar lutando pela liberdade de expressão e de imprensa na Nicarágua.

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