Ditadura da Nicarágua liberta cem presos e inicia diálogo para acabar com crise

País atravessa problemas políticos e recessão econômica desde que ditador tentou reformar previdência

Manágua | Reuters

O governo da Nicarágua libertou na quarta-feira (27) cem pessoas que a oposição considera prisioneiros políticos. Com isso, os dois lados retomaram conversas para acabar com uma crise nacional.

Pablo Cuevas, advogado da organização não governamental Comissão Permanente de Direitos Humanos, disse que os detidos começaram a sair das penitenciárias de manhã. O Ministério do Interior da Nicarágua afirmou que cem pessoas foram soltas, mas não deu detalhes de seu estado.

O maratonista nicaraguense Alex Vanegas, que foi mantido preso como prisioneiro político, depois de ser libertado da prisão "La Modelo" em Manágua
O maratonista Alex Vanegas depois de ser libertado em Manágua - Intiocon - 27.fev.19/AFP

Imagens de televisão mostraram micro-ônibus aparentemente transportando prisioneiros libertados pelas ruas da capital, Manágua. Outro grupo de direitos humanos disse que alguma das pessoas soltas serão mantidas em prisão domiciliar.

Um dos ônibus levava o maratonista Alex Vanegas, crítico explícito do ditador Daniel Ortega, preso em novembro. "Continuarei correndo pela liberdade na Nicarágua, não me importo se me prenderem de novo", gritou Vanegas pela janela do veículo.

No entanto, Vanegas foi preso de novo nesta quinta (26), ao sair para correr, segundo seu filho. 

Conversas entre o governo, representantes do empresariado, estudantes, Igreja Católica e políticos opositores foram realizadas com a meta de resolver a crise. Ortega não participou.

Waldemar Stanislaw Sommertag, o núncio apostólico para a Nicarágua, leu um comunicado no final das conversas dizendo que 12 temas foram debatidos e que houve acordo a respeito de nove deles, mas não deu detalhes.

As reuniões continuam nesta quinta-feira (28). A última tentativa de diálogo do governo com a oposição aconteceu em maio, mas as conversas emperraram quando os manifestantes exigiram eleições antecipadas.

O país atravessa uma crise política profunda desde que o ditador Daniel Ortega tentou realizar uma reforma previdenciária em abril, provocando protestos em massa. O caos que se instaurou mergulhou a  nação na recessão.

Segundo Juan Sebastián Chamorro, diretor-executivo da Fundação Nicaraguense para o Desenvolvimento Econômico e Social, a economia retrocedeu, em 2018, entre 4% e 4,5%. Para 2019, “se a situação sociopolítica não se resolver, facilmente estaríamos falando de uma queda de 7% a 11%", diz Chamorro.

O desemprego, no terceiro trimestre de 2018, quase duplicou na comparação com 2017: passou de 3,3% para 6,2%. O subemprego aumentou para 44,9%, dois pontos acima do nível de 2017.

O governo de Ortega, ex-guerrilheiro dos tempos da Guerra Fria que foi eleito em 2006, reprimiu as revoltas populares e cerca de 320 pessoas foram mortas e mais de 600 foram presas, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

A agenda proposta pela oposição exige a libertação dos presos políticos, três com especial destaque: o líder camponês Medardo Mairena, condenado a 216 anos de prisão; e os jornalistas Miguel Mora, diretor do Canal 100% Notícias, recentemente invadido e ocupado pela ditadura, e a chefe de imprensa do canal, Lucía Pineda. Não foi confirmado se eles estão entre os cem libertados. 

A agenda oposicionista pede ainda “o restabelecimento das liberdades, direitos e garantias estabelecidas pela Constituição”, bem como “reformas eleitorais que garantam eleições justas, livres e transparentes”.

Em retaliação às prisões, os Estados Unidos intensificaram as sanções contra aliados e familiares de Ortega e limitaram o acesso da Nicarágua a financiamentos. O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que "os dias do socialismo" estão contados na Nicarágua, Venezuela e Cuba.

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