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É pesadelo em que você não acorda, diz mãe de velejador preso em Cabo Verde

Brasileiros, que haviam sido condenados a dez anos de prisão por tráfico, foram soltos na quinta

João Pedro Pitombo
Salvador

Mãe do velejador Rodrigo Dantas, 26, que passou 14 meses preso em Cabo Verde, Aniete Dantas, 52, viveu cada passo do processo enfrentado pelo filho e pelos colegas velejadores Daniel Dantas e Daniel Guerra.
Os três brasileiros, além do capitão francês Olivier Thomas, foram presos em 2017, sob a acusação de tráfico internacional de drogas, após a polícia cabo-verdiana ter encontrado mais de uma tonelada de cocaína dentro do casco do veleiro.

Eles alegam inocência. Foram contratados para fazer um serviço de delivery —entrega da embarcação em outro país— de um veleiro de propriedade do britânico George Edward Saul.

Os brasileiros e o francês foram inocentados no inquérito da Polícia Federal brasileira  —em julho do ano passado, até o então presidente Michel Temer pediu ao presidente de Cabo Verde mais atenção ao processo.

Aniete, mãe do velejador Rodrigo, preso em Cabo Verde e solto na quinta-feira (7) 
Aniete, mãe do velejador Rodrigo Dantas, preso em Cabo Verde e solto na quinta-feira (7)  - Raul Spinasse/Folhapress

A Justiça de Cabo Verde, contudo, não entendeu desta forma e os condenou a dez anos de prisão. Há três semanas, entretanto, a sentença foi anulada, e o processo será retomado do início.

A decisão reconheceu que houve violações à garantia de defesa dos réus no processo e determinou que seja realizado um novo julgamento.

Na quinta-feira (7), os três foram soltos e agora vão aguardar em liberdade os próximos trâmites da ação na Justiça cabo-verdiana. O processo segue em primeira instância, mas sem indicativo de data de novo julgamento.

Em depoimento à Folha, Aniete conta o calvário enfrentado pela família e fala da esperança de que o filho logo retorne ao Brasil.

 

Essa era a primeira viagem internacional de Rodrigo em um veleiro. De certa forma, era o início da concretização de um sonho que começou a ser desenhado quando ele tinha 12 anos e matriculou-se na escola de vela em Salvador.

Na nossa família não tem velejadores, mas sempre tivemos muita ligação com o mar. Eu sou professora de educação física e dava aulas de natação. E para quem mora aqui, junto à Baía de Todos-os-Santos, é inevitável essa relação. Para Rodrigo, o mar sempre foi uma paixão, desde criança.

O principal objetivo dele com a viagem era acumular milhas náuticas para poder pleitear a habilitação de capitão junto à Marinha.

Ele estava se profissionalizando e queria muito viver disso. Por isso, para ele, essa viagem foi cercada de uma expectativa muito grande.

Mas o que era para ser uma grande aventura se transformou em desventura. Rodrigo chegou a Cabo Verde cerca de 20 dias depois de ter saído de Natal, de onde o veleiro partiu do Brasil.

Ele me telefonou assim que chegou a Cabo Verde, estava tudo bem. Ligou no segundo dia, mas não ligou no terceiro. Não era o costume dele. Toda vez que ele estava em solo, ele nos telefonava todos os dias.

Liguei na marina onde eles tinham aportado e me disseram que Rodrigo e os colegas tinham sido levados para o calabouço da Polícia Judiciária. E que eles estavam presos.

Foi como se o meu chão se abrisse. Eu não tinha a menor noção de como lidar com aquilo. Imagine o que é conseguir um advogado em Cabo Verde, um país do qual nem sequer eu tinha ouvido falar antes de meu filho ir para lá.

Os meses seguintes foram uma odisseia. Eu e meu marido, João Dantas, pensávamos que o caso se resolveria em algumas semanas ou meses. Mas ficamos mais de um ano em Cabo Verde.

Nos primeiros quatro meses, Rodrigo ficou fora da prisão. Como não estavam no barco no momento do flagrante, ele e Daniel Dantas foram soltos. Mas, depois, o Ministério Público entendeu que eles deveriam ser presos porque havia risco de fuga.

Quando ele voltou para a cadeia, eu e meu marido íamos visitar o nosso filho duas vezes por semana —às quintas e aos sábados—e nós podíamos ficar com ele por uma hora e 40 minutos.

Antes de entrar, nós e a comida que levávamos passavam por uma revista rigorosa. Era um negócio meio agressivo, né? Um negócio constrangedor. Mas você nem pensa nisso porque só quer ver e abraçar o seu filho.

Mas, no fundo, isso tudo parece um pesadelo em que você nunca acorda. 

Você sabe que o seu filho é inocente, mas tem que suportar ele pagando pena em uma prisão, convivendo em local insalubre, sem higiene. Não falo nem da comida, porque num país em que tantas famílias nem sequer têm o que comer, falar da qualidade da comida até perde o sentido.

Entre 2017 e 2018, nós moramos em cinco imóveis diferentes. Em uma das casas, fomos convidados a sair depois que o dono descobriu que nós éramos pais de um dos velejadores brasileiros.

Enfrentamos preconceito até na rua. Já fui chamada de mãe de traficante. É o tipo de coisa que marca muito, você ver o seu filho tachado por uma coisa que ele não fez. 

Por outro lado, fomos acolhidos por parte da comunidade de São Vicente, que organizou missas e atos de solidariedade.

Nós e os pais de Daniel Guerra e Daniel Dantas nos tornamos uma família unida em torno de um só objetivo, provar a inocência deles. Choramos muitas vezes juntos.

É muito difícil quando você sai da visita [da cadeia], senta na calçada e fica se perguntando o porquê de passar por tudo aquilo. Hoje, não perguntamos mais por que, e sim para que, o que nós vamos tirar de lição dessa situação.

Quando houve o julgamento, achamos que tudo ia se resolver, que eles iam ser inocentados. Era uma tripulação de jovens sem antecedentes, sem armas e sem dinheiro.

Eles tinham um contrato para levar para o outro lado do oceano um barco que não era deles. Ninguém compreende por que a Polícia Judiciária não indiciou o dono do barco. Nem por que a Justiça não levou em conta as testemunhas brasileiras e o inquérito feito pela Polícia Federal do Brasil, que os inocentou.
Nesta quinta, nem estávamos esperando que ele já fosse solto. Meu marido foi visitá-lo —eu voltei para o Brasil há dois meses—, e soube que ele sairia da cadeia. 

 Os velejadores Daniel Guerra, Rodrigo Dantas e Daniel Dantas são soltos no Cabo Verde
Os velejadores Daniel Guerra, Rodrigo Dantas e Daniel Dantas são soltos no Cabo Verde - Elvis Carvalho

Foi uma grande surpresa, um presente para a gente. O que eu mais quero agora é que ele volte para casa.

Também espero que logo meu filho possa erguer as velas e voltar para o mar. Ele se deve essa experiência, já que foi para uma travessia oceânica que nem sequer concluiu.

Meu desejo é que Rodrigo volte como mais experiência e com mais garra para continuar realizando seus sonhos. 

Mas eu sei que vou olhar para trás e ver que toda essa história foi um buraco na vida de meu filho.

Aniete Dantas, mãe do brasileiro Rodrigo Dantas, que ficou um ano e meio preso em Cabo Verde, acusado de tráfico de drogas:
Aniete Dantas, mãe do brasileiro Rodrigo Dantas, que ficou um ano e meio preso em Cabo Verde, acusado de tráfico de drogas: - Raul Spinassé/Folhapress

CRONOLOGIA DO CASO

Jul.17 Contratados por uma empresa internacional, o trio de brasileiros Rodrigo Dantas, Daniel Dantas e Daniel Guerra deixa Salvador conduzindo o veleiro Rich Harvest, que tem como destino Portugal 

Ago.17 Barco faz uma parada em Cabo Verde; após uma denúncia anônima para a polícia local, os agentes vasculham a embarcação e encontram mais de uma tonelada de cocaína, levando a prisão dos três brasileiros e do comandante, o francês Olivier Thomas

Mar.18 O trio é condenado a pela Justiça cabo-verdiana a dez anos de prisão por tráfico internacional de drogas

Jul.18 O então presidente Michel Temer pede a seu homólogo cabo-verdiano, Jorge Carlos Fonseca, que reveja o caso, já que a Polícia Federal brasileira considera as provas frágeis

Jan.19 Justiça de Cabo Verde anula a condenação anterior por violações à garantia de defesa dos réus e determina a realização de um novo julgamento

7.fev.19 Depois de 18 meses presos, os três brasileiros e o francês são liberados da prisão por ordem da Justiça; ainda não está claro se eles poderão voltar ao Brasil

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