Descrição de chapéu Governo Trump

Ex-advogado acusa Trump de mentir e revela nova investigação contra presidente

Campanha de Trump estava envolvida na publicação de emails dos democratas, segundo Michael Cohen

michael cohen sentado em mesa fala a microfone com congressistas sentados ao fundo
Michael Cohen, ex-advogado do presidente Donald Trump, depôs ao Congresso americano nesta quarta-feira (27) - Chip Somodevilla/AFP
Danielle Brant
Nova York

Em depoimento de cerca de seis horas e marcado por embates com congressistas republicanos, Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, acusou o presidente americano de mentir sobre negócios na Rússia durante as eleições e sobre pagamentos para silenciar mulheres com quem teria tido um caso.

Ele disse ainda que os procuradores federais de Nova York estavam investigando atividades criminais envolvendo o republicano e analisando conversas que Cohen teve com Trump ou aliados do presidente dois meses após o FBI (polícia federal) revistar propriedades ligadas ao ex-advogado, em abril de 2018.

“Pediram para não discutir e não falar sobre esses assuntos”, afirmou Cohen à comissão de supervisão e reforma da Câmara dos Deputados, quando questionado sobre a conversa que teve com o presidente dois meses depois.

Se Cohen não pôde dar mais detalhes sobre esse caso, ele compensou em vários outros assuntos de interesse dos congressistas, especialmente democratas, que buscam coletar evidências de que o presidente cometeu crimes que podem embasar um pedido de impeachment.

Sobre os negócios do republicano com a Rússia, por exemplo, afirmou que, durante a campanha de 2016, Trump sabia e comandou as negociações para a construção de uma Trump Tower em Moscou.

“Ele mentiu sobre isso porque ele nunca esperou ganhar as eleições. Ele mentiu sobre isso porque ele queria fazer centenas de milhões de dólares no projeto imobiliário em Moscou.”

Cohen disse que, ao menos seis vezes entre o caucus —assembleia de eleitores— de Iowa, em janeiro de 2016, e o fim de junho, o presidente perguntava “Como está indo a Rússia?”, em referência ao projeto da torre em Moscou.

Na primeira vez que depôs no Congresso, o ex-advogado havia dito que as conversas sobre o projeto tinham cessado em janeiro de 2016.

Ivanka e Donald Jr., filhos de Donald Trump, e Jared Kushner, genro do republicano, também estavam envolvidos nas negociações para construir uma Trump Tower em Moscou, disse Cohen.

“A companhia estava envolvida no negócio, o que significava que a família estava envolvida no negócio.”

Ele disse ainda que o presidente mentiu sobre pagamentos feitos à ex-atriz pornô Stormy Daniels, que afirma ter tido um caso com Trump.

O objetivo seria comprar o silêncio da ex-modelo e evitar que ela revelasse a relação durante a campanha de 2016.

Cohen apresentou cópia de um cheque de US$ 35 mil preenchido por Trump e da conta bancária pessoal do presidente.

O cheque é datado de agosto de 2017, quando ele já era presidente, e teria como finalidade reembolsar o ex-advogado pelo pagamento de US$ 130 mil a Daniels. Ao todo, seriam 11 cheques pagos durante o ano.

Em abril de 2018, o presidente disse que não sabia onde Cohen tinha conseguido o dinheiro para silenciar a ex-atriz pornô ou a ex-modelo da Playboy Karen McDougal, que também diz ter tido um caso com o republicano.

No depoimento, Cohen afirmou que o presidente sabia que Roger Stone, seu conselheiro político, estava conversando com Julian Assange sobre a publicação de emails do Comitê Nacional Democrata que prejudicaram Hillary Clinton, adversária de Trump em 2016.

Barry Pollack, advogado de Assange, negou que a ligação tenha ocorrido.

Em documento que leu perante os congressistas, Cohen também chamou Trump de “racista” e “trapaceiro”. 

“Eu estou envergonhado porque eu sei o que o Trump é. Ele é racista. Ele é trapaceiro. Ele é uma fraude.”

Do lado republicano, tentou-se atacar a credibilidade de Cohen, lembrando que, em maio, ele começará a cumprir pena de três anos por mentir ao Congresso.

Já o ex-advogado acusou os republicanos de não terem feito perguntas sobre o presidente.

“Eu só acho interessante que você [Jim Jordan, congressista republicano] e seus colegas não tenham feito nenhuma pergunta até agora sobre o presidente Trump”, afirmou.

À comissão, ele negou que seu testemunho busque obter benefícios com a Procuradoria Federal, como redução da pena que cumprirá.

“Eu não sei de que forma minha presença hoje está fornecendo informação substancial que o [tribunal do] Southern District possa usar para criar um caso”, disse.

Sobre outro tópico em que foi pressionado por republicanos, Cohen não quis se comprometer a não assinar contratos para lucrar com vendas de livros ou com direitos para o cinema ou para a TV de sua história.

Durante seu extenso testemunho, o ex-advogado do presidente forneceu ao Congresso três documentos —de 2011, 2012 e 2013-- que o presidente teria preparado para mostrar a potenciais credores de quem poderia obter um empréstimo.

Segundo ele, os documentos foram apresentados ao Deutsche Bank, e a intenção de Trump era comprar o time de futebol Buffalo Bills, o que acabou não ocorrendo.

Os documentos não tiveram auditoria financeira, mas se tratavam de uma estimativa do próprio Trump sobre sua fortuna.

Na informação de 2013, no entanto, Trump elevou a projeção de sua riqueza de US$ 4,6 bilhões para US$ 8,6 bilhões, com a diferença sendo um acréscimo de valor à marca Trump, que foi contabilizada como se fosse um ativo, como um prédio ou um campo de golfe.

“Minha experiência é que Trump inflava seus ativos totais quando isso atendia a seus objetivos.”

Cohen também confirmou a prática usada pelo tabloide National Enquirer de comprar os direitos de uma história e depois enterrá-la como favor a alguém —no caso, o presidente.

Segundo ele, Trump e David Pecker, dono da AMI, que detém o tabloide, usavam o estratagema antes de o ex-advogado começar a trabalhar para o republicano, em 2007.

Em dezembro do ano passado, a AMI fechou acordo com a procuradoria pelo qual admitiu pagar US$ 150 mil em colaboração com a campanha presidencial de Trump para impedir McDougal de revelar o caso que teve com o presidente em 2006.

Uma porta-voz da campanha de Trump à reeleição chamou o ex-advogado de criminoso que mentiu ao Congresso e à Procuradoria Especial de forma “deliberada e premeditada”.

Mais cedo, numa rede social, o presidente Trump acusou o ex-advogado de mentir.

“Michael Cohen foi um dos muitos advogados que me representaram (infelizmente). Ele tinha outros clientes também”, afirma o presidente, que lembra que Cohen perdeu o direito de advogar pela Suprema Corte estadual por mentir e por fraude.

“Ele fez coisas ruins não relacionadas a Trump. Ele está mentindo para diminuir seu tempo na prisão. Usando o advogado da Desonesta [em referência a Hillary]”, complementou.

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