Descrição de chapéu Venezuela Governo Bolsonaro

General brasileiro fará parte de comando militar americano pela primeira vez

Em negociação que vinha do governo Temer mas que se encaixa com diretriz de Bolsonaro, oficial irá substituir chileno em função de cooperação

Igor Gielow
Brasília

O Brasil terá, pela primeira vez, um general integrado ao Comando Sul, a unidade que coordena os interesses estratégicos e militares dos Estados Unidos na América do Sul, na América Central e no Caribe.

O Exército designou o general-de-brigada Alcides Valeriano de Faria Júnior, hoje chefiando a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada, de Ponta Grossa (PR), para o cargo.

A negociação vem desde o começo do ano passado. Ela foi acelerada agora porque o atual titular do cargo que o general irá ocupar, um chileno, decidiu deixar o posto antes do prazo previsto, em novembro.

Faria Júnior será subcomandante de interoperabilidade do Comando Sul, responsável por ajudar a comunicação entre forças na região. Ele deverá ir em março para Doral, na Flórida, onde fica sediado o órgão.

O general-de-brigada Alcides Valeriano de Faria Júnior
O general-de-brigada Alcides Valeriano de Faria Júnior - Facebook/Reprodução

A indicação inédita ​de um brasileiro para a função foi revelada nesta quarta (13) pelo jornal Valor Econômico, que citou um discurso ao Senado americano do chefe do Comando Sul, almirante Craig Faller, sobre o caso.

Faller esteve no Brasil nesta semana para falar sobre cooperação militar e a crise na Venezuela, tendo se encontrado com o chanceler Ernesto Araújo e com oficiais no Ministério da Defesa.

O fato de a negociação já estar avançada desde o governo passado desautoriza a especulação de que a indicação faz parte da determinação do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de forjar uma aliança ampla com a gestão de Donald Trump nos EUA.

Na prática, contudo, ela cai como uma luva para essa intenção. O inegável simbolismo é grande e será explorado por adversários e apoiadores do governo, já que até aqui o Brasil só teve cargos de comando em missões multilaterais sob o guarda-chuva da ONU, com exceções históricas como a intervenção militar liderada pelos americanos na República Dominicana, em 1965.

O almirante Craig Faller é comandante do Comando Sul dos EUA - Saul Loeb - 7.fev.19/AFP


Hoje, o Brasil tem cooperação com dezenas de países, geralmente com o envio e recebimento de oficiais para funções de instrução em academias militares, além da participação em missões das Nações Unidas como a que patrulha as águas do Líbano, que é comandada por brasileiros.

Não se trata, contudo, de algum prelúdio para o uso conjunto da força contra a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela.

A área militar brasileira é contrária a uma ação no vizinho, defendendo que ela seria catastrófica para venezuelanos e também para o Brasil, que receberia um fluxo ainda maior de refugiados pela fronteira em Roraima.

O Comando Sul abriga cerca de 1.200 militares e civis, sendo um dos dez existentes no mundo. Seis têm abrangência geográfica, cobrindo todo o globo na defesa de instalações e interesses americanos.

Outros quatro têm funções operacionais específicas e atendem a todos os demais, como os comandos de Transporte ou de Cibernética. Apenas os EUA têm esse tipo de capacidade de projeção de força por todo mundo hoje.

A relação entre forças americanas e de países latinos é longa e conturbada. No começo do século 20, para responder a uma crise justamente na Venezuela, o então presidente Theodore Roosevelt definiu que os EUA tinham direito de tratar a América Latina como sua zona de influência —eufemismo para quintal.

Ao longo dos anos, Washington apoiou golpes militares que lhe favoreciam politicamente, como o de 1964 no Brasil, e interveio diretamente em algumas ocasiões, como na República Dominicana ou em Granada, em 1983, em ambos os casos visando barrar governos esquerdistas alinhados à União Soviética.

O século 21 trouxe o Brasil para as missões de paz da ONU em função de destaque, como no Haiti, Congo e Líbano. A cooperação com outros países acentuou-se, mas ainda há temas tabus para os militares brasileiros. Quando o presidente Bolsonaro e o chanceler Araújo sugeriram que os americanos poderiam construir uma base no Brasil, para surpresa dos próprios diplomatas em Washington, a reação da cúpula da defesa foi rápida, vedando a iniciativa. Na região, os EUA mantém presença na Colômbia, onde atuaram por anos em colaboração com as forças locais contra a guerrilha do narcotráfico.

Outras desavenças acerca da condução das negociações sobre Venezuela levaram o chanceler a ser submetido a uma espécie de intervenção branca por parte da ala militar do governo, receosa de decisões contrárias a seus interesses em campos sensíveis. Agora, tanto Itamaraty quanto Defesa consideram as relações azeitadas.
 

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