Jornalismo na Nicarágua virou crime sob Ortega, diz editor que deixou o país

Principal jornalista do país, Carlos Chamorro se refugiu na Costa Rica após ataque a site

O jornalista Carlos Fernando Chamorro, durante entrevista em dezembro - Oswaldo Rivas - 24.dez.2019/Reuters
Sylvia Colombo
Buenos Aires

"O exercício do jornalismo na Nicarágua está criminalizado”, diz à Folha, por telefone, Carlos Fernando Chamorro, editor do site de notícias El Confidencial.

Chamorro deixou a Nicarágua clandestinamente em janeiro e pediu refúgio na Costa Rica, junto com a mulher, Desirée Elizondo, também jornalista e editora de revistas.

A escalada de autoritarismo do regime de Ortega começou em abril de 2018, após a promulgação de um pacote de cortes em pensões. 

As manifestações foram reprimidas de forma violenta. A estimativa é de mais de 300 mortes, entre elas a de uma brasileira, enquanto 500 pessoas estão presas, segundo o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos.

Chamorro é o principal jornalista nicaraguense e a principal voz contra a ditadura de Ortega. Além disso, é figura pública de importância no país centro-americano pela história de sua família e suas trajetórias política e jornalística.

Seu pai, Pedro Joaquín Chamorro (1924-1978), foi editor do La Prensa, único jornal de oposição durante a ditadura dos Somoza. Acabou sendo assassinado. 

Sua mãe, Violeta Chamorro, participou do movimento para derrotar o último dos Somoza e foi presidente entre 1990 e 1997. Hoje, aos 89 anos, não participa mais da vida política da Nicarágua.

Carlos Chamorro fazia oposição ao governo de sua mãe, pois dirigia o Barricada, o órgão de apoio do partido oficial do sandinismo, que havia tomado as rédeas da Revolução Sandinista (1979). Nessa época, era próximo a Ortega, um dos líderes da revolução.

“O sandinismo era algo defensável, mas traiu todas as suas bandeiras. Fez alianças com a direita, caminhou para a direção antidemocrática de almejar ser um país de partido único, não avança em termos de direitos civis e reprime opositores. Virou uma ditadura”, afirma.

Chamorro já tinha vivido dois ataques diretos de Ortega. Primeiro, um saque às instalações do El Confidencial. Objetos pessoais, documentos e computadores dos jornalistas foram levados. 

Dias depois, os profissionais foram impedidos de entrar no imóvel que abrigava a publicação, agora ocupado pelas forças de segurança.

“Eles têm toda a nossa documentação e material sobre investigações em curso, portanto podem armar qualquer tipo de acusação contra nós.”

A decisão de deixar o país veio após a prisão de Miguel Mora, diretor da emissora 100% Notícias, também de oposição. Mora continua preso.

Assim como Chamorro, outros jornalistas de seu grupo saíram da Nicarágua por questões de segurança.

“Estamos, transmitindo o programa de um local secreto, e com o que restou de nossa equipe na capital, Manágua”, explica.

“Mas não podemos sair todos, pois isso seria capitular. Deixaríamos de reportar o que está acontecendo.

A ideia é seguir até que possamos voltar. O que não vai acontecer é que consigam nos deixar calados.”

Outros veículos de comunicação, como o La Prensa, o El Nuevo Diario e o Metro, estão sofrendo com o confisco de recursos e ameaças.

Durante o Hay Festival, em Cartagena, na Colômbia, no último fim de semana, a ativista de direitos humanos nicaraguense e ex-mulher de Mick Jagger, Bianca Jagger, pediu que a mídia internacional também desse a devida atenção à Nicarágua. Afinal, disse, nos dois últimos anos, o número de mortos na Nicarágua foi o dobro dos da Venezuela.

Como Chamorro, Bianca foi uma entusiasta da Revolução Sandinista. Porém, desde que Ortega voltou ao poder, em 2006, a escalada autoritária tem sido muito rápida.

A oposição foi impedida de participar das eleições, a imprensa tem sido sufocada, há presos políticos e, desde abril, mais de 300 manifestantes foram mortos pelas forças do governo e pela milícia chamada de Juventude Sandinista.

“Ortega hoje comete os mesmos abusos que combateu no passado, por parte de Anastasio Somoza. Tudo o que ele fazia de ruim e que nós combatíamos, Ortega está repetindo”, diz Jagger.

Chamorro descreve a escalada de violência de Ortega: primeiro a oposição, depois os manifestantes e, agora, os jornalistas. 

Ele explica que, na Costa Rica, está recebendo apoio de emissoras locais para reproduzir seu programa e que estão surgindo meios digitais nicaraguenses baseados em outros países, como a Espanha. 

“Mas o essencial é voltarmos à Nicarágua, não podemos deixar Ortega sozinho lá dizendo o que é certo e o que é errado.”

As “notícias” locais têm um canal oficial: a transmissão em cadeia nacional que, todos os dias, realiza Rosario Murillo, vice-presidente e mulher de Ortega, na qual conta apenas os feitos positivos do governo.

Ao ser indagado sobre a comparação entre a situação de seu pai durante a ditadura somozista e a sua, Chamorro disse que os métodos de perseguição são parecidos, mas que a imprensa é diferente.

“Naquele tempo, o jornal dele era a única voz contra os Somoza. Hoje, se eu sair de campo, haverá quem continue. Por outro lado, na época de meu pai, a imprensa era também mais influente, enquanto hoje o povo nicaraguense que consome notícias ou que tem consciência política é menor. Creio que é uma batalha que precisa continuar, e o exemplo de meu pai serve de inspiração.”

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