Papa promete ações concretas e apresenta guia contra pedofilia

Encontro no Vaticano recebe cerca de 200 líderes religiosos e vítimas de abusos

Papa Francisco discursa na abertura do encontro sobre abusos sexuais no Vaticano - Reuters
Cidade do Vaticano
O papa Francisco prometeu nesta quinta-feira (21) que medidas concretas e eficientes contra o abuso de crianças por padres serão anunciadas ao fim de uma cúpula que reúne quase 200 líderes da Igreja Católica no Vaticano até o próximo domingo (24).
 
Francisco convocou o encontro, com duração de quatro dias, para tratar do  escândalo que chacoalhou a credibilidade da Igreja Católica nos EUA, na Irlanda, no Chile, na Austrália e em outras partes do mundo, nas últimas três décadas. 
 
“Confrontado com a escória do abuso sexual cometido por homens da igreja contra menores de idade, quero estender a mão para vocês”, afirmou o papa na abertura do encontro diante de bispos e chefes de ordens religiosas, a quem pediu que “ouçam o choro dos pequeninos que estão buscando justiça”. 

“O povo de Deus nos olha e espera não condenações óbvias e simples, mas medidas concretas e eficazes”, acrescentou o pontífice.
Ativistas fazem vigília pelo fim do abuso sexual cometido por padres católicos, em Roma - Yara Nardi/Reuters

O cardeal Rubén Salazar Gómez, de Bogotá, na Colômbia, afirmou que o dano é provocado por aqueles de dentro da igreja, em parte porque os bispos se enclausuraram em uma mentalidade clerical e pensam que podem agir com impunidade. 


“Os primeiros inimigos estão dentro de nós, entre os bispos e padres e pessoas consagradas que não viveram de acordo com nossa vocação. Temos de reconhecer o inimigo interno”, afirmou.

O papa e os participantes assistiram a um vídeo em que cinco vítimas, a maioria das quais decidiu ficar anônima, contaram suas histórias de abuso e de acobertamento. 

“Desde os 15 anos de idade tive relações sexuais com um padre. Isso durou por 13 anos. Fiquei grávida três vezes e ele me obrigou a fazer aborto três vezes, simplesmente porque não queria usar camisinhas ou contraceptivos”, disse uma mulher. 

O chileno Juan Carlos Cruz afirmou que, quando denunciou o abuso às autoridades da igreja, foi tratado como um mentiroso e um inimigo da igreja. 

“Vocês são médicos da alma e ainda assim, com raras exceções, se transformaram em assassinos de almas, em assassinos da fé. Que terrível contradição”, afirmou. 

O cardeal Luis Tagle, das Filipinas, chorou ao ler discurso em que dizia: “vítimas foram feridas por nós, bispos”. 

Uma lista de 21 “pontos para reflexão”, escrita pelo papa Francisco, foi entregue aos participantes. 
O primeiro ponto dizia que cada diocese deve ter um “guia prático” com passos a serem adotados quando uma denúncia aparece. 

Outros pontos incluem ações como informar as autoridades civis sobre acusações substanciais, conforme as leis locais, e assegurar que pessoas de fora do clero sejam envolvidas nas investigações de abusos pela igreja. 


“Propor um guia depois de todo esse tempo é risível”, disse Peter Isely, que foi abusado por um padre quando era criança e hoje lidera o grupo Ending Clergy Abuse, pelo fim do abuso.


Grupos de vítimas disseram que o evento era uma tentativa de limpar a imagem da igreja.  Mas Anne Barrett-Doyle, do grupo bishopaccountablity.org, que monitora casos ao redor do mundo, disse que foi positivamente surpreendida pelo discurso inaugural do papa. 


“Ele está falando de medidas concretas. Isso é bom, vamos ver como termina”, afirmou. 

AFP e Reuters
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