Com oposição do rei, princesa da Tailândia se candidata a primeira-ministra

Iniciativa, inédita na família real local, deve ser bloqueada pela Comissão Eleitoral

Ubolratana Rajaka, princesa da Tailândia, durante evento de cinema em Hong Kong - Bobby Yip - 24.mar.2010/Reuters
Bancoc (Tailândia) | AFP

A irmã do rei da Tailândia entrou na disputa pelo cargo de premiê do país, nesta sexta-feira (8), como candidata de um partido populista, em uma incursão inédita de um membro da realeza na política que conturbou de imediato a primeira eleição desde o golpe militar de 2014.

Pouco após o anúncio, porém, a candidatura da princesa Ubolratana Rajakanya Sirivadhana Barnavadi, 67, foi posta em dúvida após seu irmão, o rei Maha Vajiralongkorn, 66, classificar a ideia como inapropriada e inconstitucional. 

"O envolvimento de um membro de alto escalão da família real na política, em qualquer hipótese, é um ato que entra em conflito com as tradições, costumes e cultura do país e, portanto, é considerado extremamente inadequado", disse o rei em comunicado. 

A inesperada candidatura da princesa poderia abrir um novo cenário político na Tailândia, país controlado com mão de ferro pelos militares. Mas a tendência é que a oposição real faça com que ela seja desqualificada pela Comissão Eleitoral.

A Tailândia é uma monarquia constitucional desde 1932, mas a família real ainda exerce grande influência e conta com a devoção de milhões e nenhum de seus membros nunca disputou o cargo de premiê nesse período.

Ubolratana abdicou de seus títulos reais em 1972 ao se casar com o americano Peter Jensen, e morou na Califórnia 26 anos. Após se divorciar em 1994, porém, voltou à Tailândia ainda é considerada parte da família real. 

Atleta, atriz e cantora esporádica, a princesa havia demonstrado até agora pouco interesse pelo mundo político, dedicando boa parte do seu tempo à divulgação do cinema tailandês em festivais ao redor do mundo. Ela é dona de uma personalidade extrovertida que contrasta com a discrição do irmão.

Ubolratana foi indicada para disputar o cargo por uma sigla leal ao premiê deposto Thaksin Shinawatra, figura no centro da turbulência política e dos protestos de rua de opositores que assolam a sociedade tailandesa há anos.

A indicação de um membro da realeza por parte do partido pró-Thaksin poderia transformar uma eleição que estava sendo vista como uma batalha direta entre os populistas de Thaksin e seus aliados, de um lado, e o establishment fiel à realeza e aos militares, de outro.

O conflito entre as elites leais à realeza radicadas em Bancoc e Thaksin e seus apoiadores mais rurais resultou em protestos de rua, golpes militares e confrontos violentos ao longo de quase 15 anos.

A entrada da princesa na política foi anunciada por Preechaphol Pongpanich, dirigente do partido Thai Raksa Chart, sigla ligada a Thaksin, bilionário e ex-premiê no exílio, odiado pelo Exército, mas muito popular entre a população de baixa renda.

Thaksin, um reformista, sempre foi visto pela velha Guarda Real e pelos militares como uma ameaça à monarquia. A situação motivou dois golpes de Estado militares contra seus governos, em 2006 e 2014.

Os militares são considerados próximos da família real, em especial ao antigo rei Bhumibol Adulyadej, morto em 2016 e substituído por seu filho Vajiralongkorn. 

Caso ela possa concorrer, um de seus maiores adversários na votação de 24 de março será o premiê  Prayuth Chan-och.

Após o anúncio da princesa, Chan-ocha, líder da junta militar que governa o país, também disse que será candidato, em uma tentativa dos militares de manter sua influência depois de quase cinco no poder. As eleições serão as primeiras no país desde 2011. 

O regime aprovou uma nova Constituição para redefinir o panorama político e garantir que os militares continuem influentes após o pleito. 

Sob o comando de Chan-ocha, os militares se apresentaram como os protetores da monarquia. A entrada da princesa Ubolratana no cenário político, ainda mais pelas mãos do grande inimigo da junta, questionaria este argumento.

A família real na Tailândia é protegida por uma lei draconiana para impedir qualquer crime de lesa-majestade. Legalmente, as irmãs do rei não são cobertas por esta lei, mas ninguém se atreve a criticá-las por medo de uma pena de prisão de vários anos.

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