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Proibida de subir ao palco por ser mulher, cantora deixa Irã e refaz vida no Brasil

Iraniana reconstruiu carreira de artista em SP; amputada, é também modelo e paratleta

A iraniana Mah Mooni, 37, que é cantora, modelo e paratleta de vela
A iraniana Mah Mooni, 37, que é cantora, modelo e paratleta de vela - Adriano Vizoni/Folhapress
Flávia Mantovani
São Paulo

A primeira vez que ela sentiu que renasceu foi após ser atropelada por um ônibus, aos 14 anos. Perdeu a perna esquerda, porém acordou do coma e aprendeu a viver bem com uma prótese. 

Anos depois, a iraniana Mah Mooni, 37, renasceu pela segunda vez quando chegou ao Brasil, em 2012. Desta vez, o que ganhou foi liberdade: de se vestir e usar o cabelo como quer sem ser parada pela polícia, de rir e dançar em público. Principalmente, de exercer sua profissão. 

Mah Mooni é cantora e, no Irã, enfrentava as restrições impostas a artistas mulheres. Não podia tocar instrumentos, apresentar-se na TV ou no palco. Tinha que se contentar em ser backing vocal de homens ou cantar em um coral com várias participantes.

“O Irã tinha muitas cantoras famosas antes da Revolução [Islâmica, que transformou o país em uma república teocrática, em 1979]. Depois, a música parou por uns sete ou oito anos, até que os homens voltaram a cantar, mas sem as vozes femininas”, conta ela. “Agora, muitas jovens estudam música e querem ser cantoras, mas precisam se esconder. A mulher não pode se apresentar sozinha, sua voz não pode aparecer mais do que a do homem.”

Cansada de tudo isso, Mah Mooni deixou Teerã em busca de um ambiente melhor para sua vida e sua carreira. Veio com o marido, Ali Entezari, 41, que já tinha conhecido o Brasil e gostado do que viu. 

“As pessoas não deixam seus países fugindo apenas de guerras, da fome. O Irã é um país rico, mas não temos liberdade”, afirma a cantora.  

A artista vai lembrando as situações pelas quais ela e as conterrâneas passaram desde crianças. Não podiam brincar na rua sem véu, andar de bicicleta ou de moto, rir alto, ir a estádios esportivos. Eram paradas frequentemente pela polícia da moral, que supervisiona as vestimentas femininas.

“Isso é normal para a mulher iraniana. Se seu véu está um pouco para trás ou a manga do vestido é um pouco curta, eles te param”, relata. “Nós não podemos escolher o caminho da vida. Tem muçulmanas que gostam de viver assim, mas, para muitas de nós, é uma grande opressão.”

Mah Mooni teve uma perna amputada após ser atropelada por um ônibus aos 14 anos; a capa da prótese que ela usa foi criada pelo marido, que é designer
Mah Mooni teve uma perna amputada após ser atropelada por um ônibus aos 14 anos; a capa da prótese que ela usa foi criada pelo marido, que é designer - Adriano Vizoni/Folhapress

Ela vê em São Paulo —que descreve como “um mundo” rico em arte e em pessoas de várias origens— muito espaço para crescer. Teve dificuldade com a língua portuguesa, mas hoje se expressa bem e até canta músicas brasileiras. É fã de Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, Elis Regina e Tom Jobim.

Em 2017, sentiu a emoção de subir a um palco pela primeira vez, no Sesc Consolação. “Realizei meu grande sonho”, diz a cantora, que integra a Orquestra Mundana Refugi e os grupos Kereshmeh e Brisa do Oriente e neste fim de semana se apresenta em duas unidades do Sesc. 

Também interpreta músicas compostas para ela, que posta nas redes sociais ou distribui para canais de TV voltados para iranianos expatriados em outros países.

Mah Mooni gosta de falar sobre o Irã e sobre a cultura persa para os brasileiros e percebe que seus interlocutores demonstram interesse. “Nos Estados Unidos, na Inglaterra e no restante da Europa tem muitos iranianos, e as pessoas conhecem bastante do país. Aqui, não. Muita gente acha que falamos árabe, mas nossa língua é persa, nossa música é diferente, nossa dança também”, observa.

Ela também é modelo de moda inclusiva (voltada para pessoas com deficiência). No Irã, sua prótese ficava escondida sob a veste comprida obrigatória, o que ela achava uma pena. Hoje, exibe, com orgulho, a capa prateada de fibra de vidro que o marido, que é designer, criou para o aparelho. “Foi muito difícil me acostumar a andar com a prótese no início. Mas agora estou feliz com esse corpo novo. Gosto de viver assim e de mostrar isso. Só quis ser modelo para mostrar que a pessoa com deficiência é linda.” 

Com esse “corpo novo”, a iraniana se tornou esportista no Brasil. Aprendeu a velejar na represa de Guarapiranga e compete pela equipe Superação Clube Paradesportivo.

Mais uma vez, observa as diferenças para sua terra natal. “Eu velejo com liberdade. Dentro do barco tem homem, tem mulher. No Irã não temos esporte em que mulher e homem ficam juntos, é tudo mais fechado”, diz.

Quando a repórter pede que ela cante, escolhe uma música sobre o movimento Quarta-feira Branca, em que iranianas usam lenços brancos para protestar. Ao terminar, se emociona: “Falo de uma mulher que está cansada de viver em um quarto escuro”, diz, às lágrimas. “O que a gente quer não é um grande sonho, é algo muito pequeno. Nós temos cabeça, temos pensamento, podemos escolher.”

Mah Mooni se considera feminista e participou de movimentos clandestinos de mulheres em seu país. 
Ela afirma que saiu desse “quarto escuro”, mas que não é suficiente. “Eu estou aqui, tenho tudo. Mas preciso ajudar outras mulheres a ter uma vida melhor. Precisamos olhar para as outras mulheres.”

SHOWS DE MAH MOONI

SARAU VOZES FEMININAS E REFÚGIO 
QUANDO  Sábado (23),  às 18h30
ONDE Sesc 24 de Maio, rua 24 de Maio, 109
QUANTO Grátis

ORQUESTRA MUNDANA REFUGI
QUANDO  Domingo (24),  às 16h
ONDE Sesc Dom Pedro II, praça São Vito, s/n
QUANTO Grátis

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