Descrição de chapéu The New York Times

Em clima eleitoral, republicanos chamam democratas de socialistas e assassinos de bebês

Ataques do partido de Trump antecipam disputa eleitoral de 2020

A deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, que se classifica como socialista democrática - Saul Loeb - 7.fev.2019/AFP
Washington | The New York Times

No 116º Congresso americano, se você é democrata você é socialista, assassino de bebês ou antissemita.

Ou pelo menos é isso que os republicanos querem que os eleitores pensem. Republicanos estão procurando demonizar democratas bem antes das eleições de 2020, retratando-os como esquerdistas malucos que vão destruir a economia do país, assassinar recém-nascidos ou ignorar a discriminação contra judeus.

Delineada por estrategistas e líderes republicanos em entrevistas na semana passada, a investida agressiva incomum tem por objetivo sufocar a nova maioria democrata ainda em seus primórdios.

Ela foi deslanchada este mês pelo presidente Donald Trump, que usou seu discurso sobre o Estado da União para criticar “os novos chamados à adoção do socialismo em nosso país” e enganosamente descrever legislação apoiada por democratas em Nova York e na Virgínia como sendo algo que permite que “um bebê seja arrancado do útero materno momentos antes de nascer”.

Os republicanos intensificaram o ataque na semana passada, aproveitando uma mensagem postada no Twitter pela deputada novata Ilhan Omar, do Minnesota, que até mesmo alguns democratas condenaram como antissemita em seu tom, e ridicularizando o “New Deal Verde”, um plano ambicioso de estímulo econômico anunciado pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, que se identifica como socialista democrática. De repente até mesmo democratas judeus estariam instigando o antissemitismo e democratas moderados em distritos republicanos seriam trotskistas e stalinistas.

“O socialismo é de longe a maior vulnerabilidade dos democratas na Câmara”, disse em entrevista o republicano Tom Emmer, do Minnesota, presidente do Comitê Congressional Nacional Republicano, destacando que também instruiu sua equipe a chamar a atenção a “todas as ideias extremamente tresloucadas” que os democratas defendem “diariamente ou até de hora em hora, quando possível”.

Republicanos da Câmara identificaram 55 democratas que consideram ser vulneráveis, entre os quais muitos novatos na função. Alguns desses deputados calouros tiraram vagas de republicanos no ano passado, alguns representam distritos em que Trump venceu em 2016 e alguns foram eleitos por distritos até recentemente dominados por republicanos. Feridos por suas derrotas do ano passado, os republicanos estão determinados a começar mais cedo e ser mais agressivos em sua ofensiva em 2020 e esperam explorar a guinada à esquerda dos candidatos presidenciais democratas.

Uma ofensiva publicitária já está em andamento. O Fundo de Liderança Congressional, um comitê de ação política filiado aos líderes republicanos da Câmara, começou na semana passada a publicar anúncios digitais vinculando dois deputados democratas novatos que venceram em distritos antes republicanos, Colin Allred, do Texas, e Antonio Delgado, de Nova York, a Alexandria Ocasio-Cortez e “seu New Deal Verde radical, uma agressão à economia americana”.

Os spots são os primeiros de uma campanha nacional programada, segundo Zach Hunter, um porta-voz do fundo. De tom intransigente, os anúncios trazem imagens de Ocasio-Cortez com expressão severa e oferecem uma prévia de como os republicanos pretendem vilipendiá-la, mais ou menos do mesmo modo como vêm vilipendiando a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, que descrevem em tom caricata como uma radical de San Francisco.

Os democratas enxergam nisso um esforço insidioso para usar mulheres e membros de minorias, especialmente mulheres não brancas, como os novos símbolos do “outro” radical. E estão tachando os republicanos de hipócritas, notando que Trump e outros republicanos distribuíam chavões antissemitas e mensagens racistas insidiosas muito tempo antes de qualquer pessoa ter tomado nota das mensagens de Ilhan Omar no Twitter.

Em entrevista breve, Ocasio-Cortez disse: “Acho que eles usaram aquele argumento até esgotá-lo, então agora precisam encontrar outros alvos. E quem seriam melhores do que gente como eu e outras deputadas novatas? Somos as menos semelhantes a eles de todas as maneiras possíveis, e acho isso um símbolo poderoso.”

Mas republicanos como Emmer dizem que estão apenas repetindo as palavras dos próprios democratas, e eles têm sido beneficiados por tropeços de democratas. A equipe de Ocasio-Cortez publicou um esboço inicial do New Deal Verde –que foi endossado por vários dos principais pré-candidatos presidenciais democratas—que continha frases que esses pré-candidatos não endossaram, incluindo um chamado por segurança econômica para “todos que não tiverem condições ou disposição de trabalhar”. Ocasio-Cortez deletou a versão preliminar do texto de seu site na internet, mas republicanos a republicaram.

A deputada republicana Liz Cheney, do Wyoming, presidente da Conferência Republicana na Câmara, descreveu o plano –endossado por 70 deputados democratas e cerca de 12 senadores—como “uma fantasia” e insistiu que o texto preliminar errôneo fosse incluído no Registro Congressional. O comentarista da Fox News Sean Hannity descreveu o plano como “uma forma de insanidade”. O Comitê Republicano Nacional divulgou um texto de briefing intitulado “A paixão crescente dos democratas pelo socialismo”.

No Senado, onde cinco democratas já disputam a Presidência, Mitch McConnell, o líder da maioria, anunciou que vai impor uma votação sobre a medida. O anúncio atraiu o repúdio do senador Chuck Schumer, líder democrata no Senado, que o descreveu como “manobra cínica” que tem como único objetivo colocar democratas, incluindo os pré-candidatos presidenciais, em situação difícil. Um voto a favor do New Deal Verde pode ajudá-los a atrair eleitores democratas nas primárias, mas pode prejudicá-los na eleição geral.

“Os democratas entregaram esta mensagem aos republicanos de bandeja”, comentou o estrategista republicano Andy Surabian, ex-funcionários da Casa Branca de Trump, explicando que, para ele, o socialismo e a posição dos democratas em relação ao aborto representam linhas de ataque mais poderosas que o antissemitismo. “Todas essas controvérsias casam perfeitamente com a mensagem transmitida pelo presidente no Estado da União.”

Os democratas descartaram a mensagem como sendo apenas o que se poderia esperar.

“Não vamos abandonar políticas socialistas como a Seguridade Social –ou seria ela a ‘Seguridade Socialista’, é assim que eles a chamam?”, disse em tom irônico o senador Richard Durbin, do Illinois, o democrata número dois no Senado. “A questão principal aqui é que o presidente está em clima de campanha –talvez ele esteja sempre em clima de campanha--, e prevejo que muito disto tudo não passe de especulação que não irá adiante.”

Democratas dizem que pretendem combater a ofensiva falando sobre as questões que discutiram em suas campanhas e que os levaram a vencer: a redução dos custos da saúde e dos medicamentos vendidos com receita médica, a aprovação de um pacote infraestrutural e o combate à corrupção em Washington.

“Temos uma pauta para ajudar as famílias e temos ideias”, disse a deputada do Illinois Cheri Bustos, do Comitê de Campanha Congressional Democrata e uma das parlamentares visadas nos ataques. “Os republicanos em Washington sofreram uma derrota. Agora estão tentando manipular a opinião pública com exageros e semeando o medo.”

Mas os democratas precisam tomar cuidado para que esses exageros não ganhem credibilidade na opinião pública. Eles têm plena consciência de que para conservar a maioria, precisam manter o apoio de distritos eleitorais como o de Bustos, no qual o presidente venceu em 2016.

“É claro que vejo os republicanos tentando semear uma divisão entre as pessoas em nossos distritos, as pessoas que estão nos distritos mais moderados”, disse o deputado Josh Gottheimer, democrata centrista de Nova Jersey e presidente do Caucus bipartidário de Solução de Problemas. “Por isso é muito importante governarmos a partir do centro.”

Tradução de Clara Allain

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