Sauditas planejaram e perpetraram assassinato de Khashoggi, diz ONU

Autoridades do reino atrapalharam investigação sobre a morte do jornalista, segundo relatório

Jamal Khashoggi em Manama, no Bahrein, em 2014
Jamal Khashoggi em Manama, no Bahrein, em 2014 - Mohammed al-Shaikh - 15.dez.14/AFP
Genebra

Uma investigação das Nações Unidas sobre o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi apontou nesta quinta-feira (7) que as evidências indicam que houve um crime "planejado e perpetrado" por autoridades da Arábia Saudita.

A morte de Khashoggi, cometida por um time de sauditas em 2 de outubro do ano passado, provocou revolta e manchou a imagem do príncipe herdeiro do reino, Mohammad bin Salman, conhecido como MBS.

O herdeiro era visto até então como um reformista que havia capitaneado importantes mudanças na Arábia Saudita, como permitir que mulheres passassem a dirigir, reformar o código de impostos e impulsionar projetos de infraestrutura.

Agências de inteligência dos EUA acreditam que MBS ordenou uma operação para matar Khashoggi, que era crítico do regime do reino saudita e escrevia uma coluna para o jornal americano The Washington Post. Segundo investigações, o corpo de Khashoggi foi desmembrado e levado a um local ainda desconhecido. 

O jornalista foi morto no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, aonde havia ido para retirar documentos de que precisava para se casar.

Riad nega que o príncipe herdeiro tenha qualquer envolvimento ou que tivesse conhecimento da operação que resultou na morte do jornalista. O reino, no entanto, confirmou em outubro do ano passado que o jornalista tinha sido morto no consulado.

"Provas colhidas durante minha missão à Turquia mostram, à primeira vista, que o sr. Khashoggi foi vítima de um assassinato brutal e premeditado, planejado e perpetrado por autoridades do Estado da Arábia Saudita", disse Agnes Callamard, relatora especial para execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias da ONU, em comunicado.

Autoridades sauditas atrapalharam seriamente e atrasaram os esforços da Turquia de investigar a cena do crime no consulado da Arábia Saudita em Istambul durante 13 dias, segundo a relatora.

Callamard disse que, ao longo de sua missão de uma semana na Turquia, acompanhada de três especialistas, teve acesso a parte do material em áudio do momento da morte de Khashoggi, obtido pela agência turca de inteligência, que ela descreveu como "de arrepiar e horripilante".

O governo saudita não respondeu ao pedido da agência Reuters para que comentasse o relatório da ONU.

Um porta-voz da Procuradoria saudita disse no final do ano passado que 21 sauditas haviam sido detidos por envolvimento com o caso, dos quais 11 haviam sido indiciados. O procurador afirmou que as autoridades pediriam a pena de morte para 5 dos 11 indiciados. 

Para Callamard, há sérias dúvidas sobre a isenção dos processos contra os 11 sauditas.

Reuters
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