Traficante El Chapo é condenado nos EUA e pode ser sentenciado à prisão perpétua

Mexicano foi considerado culpado de dez acusações em julgamento que durou três meses

Danielle Brant
Nova York

O traficante mexicano Joaquín Guzmnán Loera, conhecido como El Chapo, foi considerado culpado nesta terça-feira (12) de dez acusações criminais, entre as quais tráfico de drogas, e pode ser sentenciado à prisão perpétua, no fim de um julgamento que durou quase três meses em Nova York.

El Chapo, 61, ficou conhecido pelo alcance do Cartel de Sinaloa, que, segundo os procuradores responsáveis pelas acusações, era “maior e mais prolífica organização de tráfico de drogas do mundo”.

Ele também protagonizou fugas ousadas de prisões mexicanas, como a vez em que escapou de um presídio de segurança máxima, em 2015, após cavar um túnel de dentro de sua cela.

O criminoso foi perseguido e preso novamente em 2016 e extraditado no ano seguinte para os EUA, onde enfrentava diversas acusações federais.

O traficante El Chapo escoltado por policiais mexicanos em Ciudad Juárez em 2017 ao ser extraditado para os EUA
O traficante El Chapo escoltado por policiais mexicanos em Ciudad Juárez em 2017 ao ser extraditado para os EUA - Ministério do Interior do México - 19.jan.17/AFP

A decisão do júri foi tomada depois de mais de uma semana de deliberações na corte distrital federal do Brooklyn, onde os procuradores apresentaram inúmeras evidências contra o líder do cartel. Durante a leitura do veredicto, os jurados encararam o chão, sem olhar para o traficante.

O julgamento teve início em 13 de novembro do ano passado. Desde o começo, os procuradores buscaram mostrar El Chapo como o autor de vários crimes brutais. Eles também o responsabilizaram por espalhar terror ao longo da fronteira de EUA e México.

Já a defesa do traficante sustentou que ele era apenas um bode expiratório e pediu que o júri desconsiderasse os depoimentos de testemunhas que colaboravam com o governo, afirmando que mentiam para se salvar por meio de acordos com as autoridades.

Jeffrey Lichtman, advogado de defesa do traficante, afirmou que deve recorrer de alguns pontos da decisão e disse que o traficante estava bem, apesar do veredicto. “Ele é um cara muito otimista.”

“Ele sempre foi um cavalheiro, sempre foi motivador, sempre foi feliz e apreciou todos os nossos esforços.” 

O julgamento atraiu muita atenção da imprensa e exigiu o reforço da segurança da corte, com atiradores de elite e especialistas com sensores de radiação.

Ao longo dos quase três meses, os presentes ouviram sobre como era o financiamento e a logística do cartel, e escutaram histórias sangrentas sobre a atuação do grupo.

A principal acusação era de que El Chapo liderava uma organização criminosa responsável por comprar drogas de fornecedores na Colômbia, no Equador, no Panamá e no México, em uma área que incluía os estados mexicanos de Sinaloa, Durango e Chihuahua.

Mas ele também foi acusado de estuprar adolescentes, entre elas uma de 13 anos. 

Ao longo de sua trajetória como traficante, El Chapo teria obtido até US$ 14 bilhões (R$ 52 bilhões) ao enviar até 200 toneladas de drogas pela fronteira dos EUA.

Ele usava iates, barcos de pesca, aviões, submarinos semissubmersíveis e outros meios para embarcar os entorpecentes para o país vizinho. 

A ascensão do traficante, nos anos 1980, foi explorada pelos procuradores na corte nova-iorquina, que mostraram como ele continuou expandindo seu império, mesmo dentro de uma prisão de segurança máxima no México.

El Chapo entrou na mira das autoridades mexicanas após ser responsabilizado, em 1993, pelo assassinato de um cardeal católico, Juan Jesús Posadas Ocampo, no aeroporto de Guadalajara.

No mesmo ano, o traficante foi condenado pela morte do religioso e enviado à prisão, de onde fugiu em 2001 –ele teria se escondido em um cesto de roupa sujas. 

El Chapo passou a década seguinte escondido em montanhas e fugindo de operações policiais e militares. 

Em 2012, ele escapou de ser preso pelo FBI (polícia federal americana) e por agentes mexicanos ao fugir pela porta dos fundos de sua mansão em Los Cabos.

Dois anos depois, foi capturado em um hotel em Mazatlán e preso, mas fugiu em 2015 ao escavar um túnel em sua cela. Após sua última prisão, foi extraditado ao Brooklyn, onde havia sido indiciado inicialmente em 2009.

Entre as testemunhas ouvidas no julgamento estavam funcionários de El Chapo, um de seus secretários pessoais, o principal fornecedor de cocaína da Colômbia, um distribuidor americano, um assassino de seu grupo e uma amante.

Uma das testemunhas afirmou que El Chapo pagou ao ex-presidente mexicano Enrique Peña Nieto uma propina de US$ 100 milhões (R$ 317 milhões) durante a campanha eleitoral de 2012 no México. 

Apesar de a condenação ser um baque para o Cartel de Sinaloa, o grupo continua a operar, comandado pelos filhos de El Chapo.

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