Descrição de chapéu Venezuela

Venezuelanos foram da resignação à expectativa de mudança com Guaidó

Menos de 2 anos separam contestada eleição de Assembleia Constituinte de dia chave para opositor

Juan Guaidó participa do show Venezuela Live Aid, em Cúcuta, na Colômbia
Juan Guaidó participa do show Venezuela Live Aid, em Cúcuta, na Colômbia - Luis Robayo/AFP
Sylvia Colombo
Buenos Aires

Uma bandeira da Venezuela, manchada de sangue e rasgada, estava jogada na calçada. Era uma imagem devastadora. Faltavam três dias para a votação para eleger a Assembleia Constituinte, no fim de julho de 2017, e eu estava numa das ruas do bairro de Bello Monte, em Caracas.

Na noite anterior havia ocorrido um confronto entre os jovens do La Resistencia —grupo anti-Maduro que se formou em 2014— e a Guarda Nacional Bolivariana, ajudada pelos chamados “coletivos” —a milícia pró-governo.

Do outro lado da rua, um sujeito que havia sido apedrejado gritou para mim: “Não se preocupe, o menino não morreu, está na UTI”. Ele tentava amenizar meu horror diante da poça de sangue aos meus pés.

Naqueles dias de tensão e violência na capital venezuelana, ninguém sabia qual seria o desfecho dessa história ainda em aberto. A cidade, porém, já parecia estar em guerra.

Ruas cortadas pelos próprios moradores com arames e o que mais se pudesse encontrar, jovens sendo espancados e presos pelas forças de repressão do governo, opositores sendo perseguidos ou se escondendo em embaixadas.

O grito de guerra nas ruas era “A Constituinte não vai”, um desesperado reclamo para que Maduro não elegesse um novo órgão legislativo, inteiramente governista, o que, na prática, esvaziaria o Congresso eleito pelo povo, em 2015, de maioria opositora.

No dia da eleição, não se via nenhuma fila nos centros de votação. À noite, os jornalistas estrangeiros na sede do Conselho Nacional Eleitoral não acreditavam no que a presidente do órgão chavista dizia: a votação tinha sido recorde, mais de 8 milhões de pessoas haviam eleito uma Assembleia com todos os postos ocupados por legisladores pró-Maduro.

Muitos países se manifestaram, dizendo não reconhecer o novo órgão. A Folha, a partir de então, passou a chamar a Venezuela de ditadura.

Já eram graves os problemas de hiperinflação, repressão aos meios de comunicação e carestia de alimentos e remédios. E as pessoas haviam protestado nas ruas por três meses seguidos para evitar a escalada autoritária do governo. 

O saldo, porém, foi a vitória de Maduro e a morte de mais de 130 venezuelanos na repressão. Em vez de mais inconformismo, porém, o que se viu na Venezuela no que restou de 2017 e em 2018 foi a resignação tomando conta da população.

Sim, continuaram a ocorrer protestos, mas cada vez mais isolados. Com os problemas estruturais e sociais se tornando mais agudos, as pessoas passaram a se preocupar mais em como iam comer no dia seguinte, como iam trabalhar ou sustentar seus filhos.

A diáspora, então, começou a se tornar mais aguda. Em um comunicado divulgado nesta sexta (22), a ONU informou que 2,7 milhões de venezuelanos saíram do país desde 2015.

A maioria deles deixa a Venezuela caminhando e emigra como pode, com as roupas do corpo, pelas fronteiras, por mar ou ar, muitas vezes sem documentos, sem trabalho ou perspectivas no novo país.
Cansada da repressão, das eleições de governadores e prefeitos que vieram depois e que claramente mostravam um resultado que não condizia com a realidade, a maioria da população se resignou.

A campanha para as eleições de maio do ano passado foi fraca. Os cidadãos entrevistados nas ruas diziam que votar era inútil, porque poderia haver manipulação do pleito.

Apenas um oposicionista parecia animado: Henri Falcón. Os outros mais famosos ou não queriam ou estavam inabilitados a se candidatar. 

As pesquisas mostravam Falcón à frente na disputa e que poderia vencer Maduro.

As eleições, no entanto, ocorreram sob o signo de irregularidades: opositores foram proibidos de participar e não havia observadores internacionais, além da baixa participação popular —os números foram nitidamente inflados pelo CNE. 

Maduro saiu vencedor, e novamente muitos países não o reconheceram como vencedor.

A desesperança voltou a predominar. Era mais fácil imigrar ou encontrar um modo de ganhar dinheiro fora do país para trazer à Venezuela. Ou então se apoiar em iniciativas de organizações apartidárias —pessoas da sociedade civil fazendo caridade, abrindo refeitórios na periferia, tentando ajudar como era possível.

Líderes no exílio, como Julio Borges, ex-presidente da Assembleia Nacional, Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas, David Smolansky, ex-prefeito de El Hatillo, e Freddy Guevara, espécie de porta-voz de Leopoldo López, em prisão domiciliar, começaram a viajar pelo mundo e a se reunir com líderes internacionais para pressionar por mudanças.

O fato de haver tanto apoio internacional e tanta cobertura midiática para a tentativa de entrega de ajuda humanitária neste sábado (23) deve-se muito à campanha realizada por esses opositores.

A oposição, porém, havia se desgastado com a população. Depois de terem aceito negociar com Nicolás Maduro na República Dominicana, respeitado suas demandas e serem enganados pelo ditador, o apoio da opinião pública aos líderes tradicionais da oposição havia diminuído.

Foi de Julio Borges, principalmente, a ideia de que era preciso uma cara nova para fazer com que a população saísse às ruas novamente. O escolhido foi o jovem deputado Juan Guaidó, de 35 anos.

Escolhido no começo do ano como presidente da Assembleia Nacional, Guaidó executou o plano à risca.

Logo após Maduro ter feito o juramento para um novo mandato, em 10 de janeiro, a Assembleia Nacional não reconheceu a posse. O cargo de presidente estava, de acordo com o órgão, vago.

As pessoas voltaram às ruas. Em 23 de janeiro, Juan Guaidó, sobre um pequeno palco cercado de apoiadores, seguiu os ritos da Constituição. Uma vez que o Parlamento considere o poder vago, o próximo na linha sucessória, o presidente da Assembleia Nacional, deve se declarar “presidente encarregado” e convocar eleições.

Assim fez Guaidó, dando início a uma nova onda de manifestações em Caracas. À Folha, ele explicou as três medidas iniciais básicas: articular a entrada da ajuda humanitária, planejar uma transição com anistias e convocar eleições.

Guaidó não é um grande orador, mas pessoalmente passa boa impressão. Tem um sorriso e um jeito de acenar que lembram o ex-presidente norte-americano Barack Obama. Diz que não quer o poder para ele —e sim ajudar na transição. Afirma ser contra o discurso caudilhista de eleger um salvador da pátria. Não pode impedir, porém, que seus apoiadores cantem: “Se sente, se sente, Guaidó presidente”.

Um mês depois de seu juramento, o plano está sendo posto à prova nas fronteiras da Venezuela com o Brasil e a Colômbia. “Eles esperam que nós nos cansemos e que a resignação volte, mas não vai voltar mais. O que começou, não tem retorno. Pode ser um caminho difícil, mas vamos bem”, disse à Folha.

O regime não ficou quieto, como se pode notar por suas últimas ações, fechando a fronteira terrestre com o Brasil, adotando um discurso militar e aumentando a repressão.

Maduro inflamou ainda mais seu discurso de que há uma ação militar, comandada pelos EUA e executada por seus “países-satélite”, como se refere a Colômbia, Brasil, Chile e outros, embutida na entrega da ajuda humanitária.

Jornalistas estrangeiros estão na mira do regime. Uma semana após Guaidó se declarar presidente interino, houve perseguição a opositores e jornalistas, com 11 destes detidos e deportados, incluindo um brasileiro.

Na fronteira, seis correspondentes estrangeiros que cruzaram a ponte Simón Bolívar em direção à cidade de San António del Táchira tiveram seu material apreendido e foram detidos por algumas horas.

O sucesso da entrega da ajuda humanitária depende da execução do resto do plano da oposição. 

Caso fracasse, Guaidó e sua turma podem perder o timing da mudança. Os próximos momentos serão críticos para o regime.

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