Anexação da Crimeia pela Rússia ajudou a asfixiar economia ucraniana

Kiev teve uma queda de 17% no PIB depois que Moscou passou a controlara região

Igor Gielow
Crimeia

A anexação da Crimeia amputou uma parte considerável do potencial econômico da Ucrânia, abrindo novas possibilidades para os russos, mestres no uso geopolítico de recursos energéticos.

Desde 2014, a Rússia passou a controlar todos os equipamentos de extração de gás natural existentes na bacia do mar Negro junto à Crimeia, que produziam 80% da vazão ucraniana. O problema é que, com sanções ocidentais, a venda desse produto é basicamente vetada.

Segundo estimativas do governo em Kiev, há no local entre 100 e 500 bilhões de metros cúbicos de gás.

 Motoqueiros fazem carreata em Sebastopol para comemorar os cinco anos da anexação da Crimeia pela Rússia 
Motoqueiros fazem carreata em Sebastopol para comemorar os cinco anos da anexação da Crimeia pela Rússia  - Alexey Pavlishak/Reuters

No limite, não chega à produção anual da Rússia (700 bilhões de metros cúbicos), maior exportadora do produto no mundo, mas está longe de ser desprezível, ainda mais para uma economia em frangalhos como a da Ucrânia.

O governo do presidente  Petro Porochenko, que busca a reeleição no próximo dia 31 enfrentando dificuldades, experimentou uma queda de 17% no seu PIB depois da anexação e do início da guerra civil no leste do país.

Com dois empréstimos do Fundo Monetário Internacional, vai se mantendo, mas as perspectivas são complicadas: o PIB se arrasta e a inflação de alimentos e serviços disparou até 115% em 2018.

Para piorar, os US$ 3 bilhões  (R$ 11,4 bilhões) anuais que o país aufere cobrando pela passagem de gás russo para a Europa podem sumir em 2020, quando deve entrar em operação um novo gasoduto alternativo, o Nord Stream 2. O valor equivale a quase 3% do PIB (Produto Interno Bruto) ucraniano.

A Crimeia e Sebastopol, que também tinha status separado dentro da Ucrânia como possui agora sob os russos, representavam 4% do PIB ucraniano.

O conflito afetou também a Rússia. Embora a mídia ocidental tenda a listar as sanções como algo próximo de matar o regime de Vladimir Putin, a verdade é que elas forçaram um início de diversificação na economia russa.

O problema maior que atingiu a Rússia na sequência da guerra foi a queda brutal no preço do barril de petróleo, que saiu de mais de US$ 100  (R$ 382) para quase US$ 30 (R$ 114). Isso desestabilizou o orçamento russo, que recebe 40% dos royalties de exportação do óleo, e ajudou a jogar o país em recessão de 2015 a 2016.

“As evidências são muito fracas de que o PIB caiu por causa das sanções”, afirma estudo assinado por Konstantin Kholodin e Aleksei Netsuajev na edição atual do insuspeito “Baltic Journal of Economics”, editado em Riga (Letônia).

Para a península em si, a exploração de gás poderia compensar as perdas decorrentes da paralisação da indústria pesqueira, que teve baixa na competitividade nos anos pós-anexação.

Isso por um dilema ovo e galinha: como só podiam vender para os russos, os pescadores crimeus tinham de usar o custoso sistema de barcaças de transportes no estreito de Kerch para vender o mesmo peixe que os novos conterrâneos pescavam no mar Negro.

A abertura da ponte sobre o estreito, no ano passado, promete mitigar a situação, mas o fato é que a maioria dos donos de frotas pesqueiras eram ucranianos, então a recuperação do setor parece improvável.

As dificuldades também atingem os famosos vinhedos da Crimeia, notáveis pelo vinho adocicado desde os tempos dos gregos.

No ocaso da União Soviética, a percepção de que os vinhos eram rústicos demais levou o governo de Moscou a podar os vinhedos e tentar plantar varietais mais sofisticados —o que deu certo, dentro do possível, na vizinha Krasnodar.

Atualmente, esse produto é raro, enquanto ainda vicejam os licorosos vinhos produzidos em Balaclava. Diz o folclore, pela quantidade de sangue vertido pelos soldados na Guerra da Crimeia por ali.

Ainda há produtos valorizados, como os vinhos fortificados de Massandra, e esforços como a linha Alma Valley, que chega à mesa de restaurantes moscovitas por quase R$ 200.

Seu pinot blanc tem dulçor excessivo, mas o rosé a partir de pinot noir é surpreendentemente equilibrado e sai por palatáveis R$ 60 a garrafa na Crimeia.

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