Antissemitismo se dissemina pela Europa, e governos esboçam reação

Na França, que tem o maior número de judeus do continente, ocorrências subiram 74% de 2017 a 2018

Paris

O ministro do Interior da França, Christophe Castaner, disse recentemente que o antissemitismo “se espalha como um veneno”.

Estatísticas sobre atos violentos contra judeus na Europa em 2018, além de incidentes recorrentes nas últimas semanas, dão concretude à metáfora ao mostrar um crescimento de ocorrências em vários países —o ódio em franca disseminação.

No Reino Unido, o total de casos de injúria, ameaça, agressão física, tentativa de homicídio e depredação de patrimônio de judeus subiu 16% no ano passado, em relação aos 12 meses anteriores.

A informação é do principal órgão nacional de monitoramento do antissemitismo.

Também por lá, o Partido Trabalhista, principal força de oposição, está às voltas com acusações de leniência em relação a membros e diretórios supostamente antissemitas.

Esse foi um dos motivos apontados por nove parlamentares para se desfiliarem da legenda, em fevereiro.

Na Alemanha, dados preliminares sugerem uma alta de 10%, em 2018, no número de incidentes em que judeus foram o alvo.

Quando se levam em conta apenas as agressões físicas, o aumento é de 60%, segundo o governo do país.

O quadro preocupa ainda mais na França, que abriga a maior população judaica do continente —cerca de 550 mil pessoas.

Ali, a soma de ocorrências antissemitas subiu 74% de 2017 a 2018, segundo o Conselho Representativo das Instituições Judaicas (Crif).

E o que é pior: os números estão subdimensionados, já que apenas 3% das injúrias racistas geram queixa policial —no caso das ameaças, a notificação vai a 19%.

O mês de fevereiro viu uma sequência de ataques na França.

Retratos da ex-ministra Simone Veil (1927-2017), sobrevivente de Auschwitz e patrimônio da política nacional, foram cobertos com suásticas, assim como uma centena de túmulos de um cemitério no nordeste do país.

A vitrine de uma lanchonete que vende bagels no miolo turístico de Paris amanheceu com a inscrição “Juden” (judeu, em alemão). 

Árvores plantadas na região metropolitana em homenagem a um jovem morto em 2006 por causa de sua religião apareceram cortadas.

Por fim, participantes de uma marcha dos “coletes amarelos” (que há três meses vão à rua contra a depreciação do poder aquisitivo da classe média) agrediram o filósofo Alain Finkielkraut com injúrias como “cai fora, sionista de merda”, seguidas por exclamações na linha “nós somos o povo, a França nos pertence”.

A hostilidade aos judeus em alguns círculos franceses remonta ao século 19, pelo menos.

Em 1894, pouco depois de a Alemanha anexar a Alsácia e parte da Lorena, o capitão do Exército Alfred Dreyfus, judeu, foi condenado e preso porque teria passado documentos secretos para o inimigo.

Só seria inocentado de vez 12 anos mais tarde.

“O antissemitismo nunca desapareceu. Abarca certa esquerda pró-Palestina, a extrema direita e a imigração muçulmana mais radical”, diz o sociólogo Michel Wieviorka, da Escola de Altos Estudos em Ciências Humanas. 

“O que acontece agora é que os ‘coletes amarelos’, a legitimação da violência [nas franjas dos protestos] e o recurso ostensivo à internet e às redes sociais impulsionaram discursos e atos que correspondem a ódios e preconceitos antigos.”

​​Meïr Waintrater, membro da comissão do Crif para as relações com os muçulmanos, reitera o aspecto pluriforme do discurso de ódio, que compara a um “supermercado de temáticas onde pessoas de direita e esquerda, cristãs e ateias vão fazer compras”.

Nessa loja perversa, afirma ele, a mercadoria mais buscada hoje é o complotismo antijudeu, ou seja, a responsabilização de judeus pelos males do mundo, de A a Z.

“Eles acabam servindo de para-raio de um mal-estar generalizado, da insegurança social e política difusa que atravessa a Europa" diz Waintrater.

"Isso já aconteceu no século 14, quando [os judeus] foram perseguidos sob a acusação de terem disseminado a peste negra. O antissemitismo é a tradução de algo, mais do que uma situação em si.”

O “supermercado” descrito por Waintrater acomoda ainda um produto de aparência mais sofisticada, que se pretende moralmente defensável: o antissionismo, oposição à existência do Estado de Israel, que às vezes se confunde com a contrariedade em relação às políticas do governo do país, principalmente em relação aos territórios palestinos.

“Compreendo que as pessoas não gostem do [primeiro-ministro de Israel, Binyamin] Netanyahu ou de outros, mas usar o termo ‘sionista’ em críticas a políticos é reduzir um povo a uma só dimensão [política]. É como se todos tivessem de responder por aquilo que os governantes fazem.”

Para Waintrater, a expressão tem sido empregada com frequência cada vez maior para “dissimular um antissemitismo primário”, como artifício para evitar a palavra “judeu”.

Por causa disso, deputados franceses chegaram a articular um projeto de lei que criminalizaria o antissionismo.

O presidente Emmanuel Macron se opôs à iniciativa, mas anunciou um pacote de medidas que inclui a dissolução de três associações de extrema direita e a apresentação, ao Parlamento, de uma lei que forçaria empresas de internet a excluir conteúdo racista e a usar todos os recursos para identificar quem o produziu.

Mas os governos precisar ir além de reações pontuais ao antissemitismo, avalia Arnd Bauerkämper, que ensina história contemporânea na Universidade Livre de Berlim.

“Ao longo de décadas, quase todos os Estados europeus negligenciaram a integração de imigrantes, filhos e netos destes às sociedades locais”, diz.

“Alguns ainda são vistos como estrangeiros, aliens, porque falam quase só a língua de origem, nunca saem de seu círculo. O multiculturalismo enrique um país, mas há que existir um acordo em torno de princípios comuns básicos.”

Não se trata, sublinha o professor, de culpar a vítima ou atenuar a gravidade de agressões de qualquer ordem.

Para ele, é urgente desenvolver novas formas de narrar e deixar acesa a memória do Holocausto, posto que já não restam tantos sobreviventes.

“Não basta mais erguer monumentos e forçar crianças a irem visitá-los com a escola.”

Waintrater faz coro. “Não estamos no cume de uma montanha com informações que as gerações passadas empilharam e consolidaram. É preciso recomeçar do zero.”

74%
Foi o crescimento dos atos antissemitas (insultos, ameaças, agressões físicas, tentativas de homicídio e depredação de patrimônio) na França em 2018, em relação a 2017
 
550 mil
É o total aproximado da população de judeus na França
 
60%
Foi o quanto subiu a quantidade de agressões físicas a judeus na Alemanha, de 2017 para 2018

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