Boca de urna na Ucrânia indica segundo turno e comediante à frente

Presidente do país ultrapassou rival segundo levantamentos, mas empate técnico é mais provável

São Paulo

A Ucrânia terá de realizar um segundo turno para definir quem será o seu próximo presidente, indicam pesquisas de boca de urna divulgadas logo após o fechamento das urnas da primeira rodada da disputa, neste domingo (31).

Como previsto, o comediante e “outsider” Volodimir Zelenski está na frente, mas o atual ocupante do governo, Petro Porochenko, ultrapassou a rival Iulia Timochenko no que parece ser um empate técnico pelo segundo lugar.

O candidato Volodimir Zelenski joga tênis de mesa com um jornalista no dia do primeiro turno na Ucrânia
O candidato Volodimir Zelenski joga tênis de mesa com um jornalista no dia do primeiro turno na Ucrânia - Genya Savilov/AFP

Segundo o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, um dos aferidores mais confiáveis de opinião pública do país, Zelenski deve ter 30,4% dos votos —mais do que os cerca de 25% que vinha mostrando no agregado de outras pesquisas.

Porochenko vem atrás com pouco mais da metade de seus votos, 17,8%. Ele superou numericamente Timochenko, ex-primeira-ministra do país na virada dos anos 2010, que era a líder nas pesquisas durante 2018.

 

Ela surge com 14,2%, empatada, contudo, dentro da margem de erro de 2,5 pontos percentuais.

Já o instituto TSN deu 30,4% para ​Zelenski, 18,5% para o presidente e 14% para Timochenko, alegando uma margem de erro de apenas 0,7 ponto percentual.

Por fim, o ChannelOne divulgou sondagem com os mesmos números, mas uma margem de erro de 2,1 pontos. Os primeiros resultados oficiais devem ser divulgados a partir da manhã da segunda (1º). O comparecimento seguiu o padrão do pleito anterior, segundo dados iniciais.

Se confirmado, o resultado é uma grande vitória para Porochenko, 53, que enfrenta grave crise econômica e política.

Ele foi eleito em 2014 no primeiro turno, logo após a crise que derrubou o presidente pró-Rússia Viktor Ianukovitch do poder e levou Moscou a intervir no país, anexando a Crimeia e praticamente isolando o leste do país com a instalação de duas “repúblicas populares”.

Os combates entre esses separatistas e Kiev já mataram mais de 10 mil pessoas, e se encontra em estágio congelado.

Naturalmente, há denúncias de fraudes. A Comissão Eleitoral do país registrou 950 delas, segundo a agência russa Tass, e o escritório de Zelenski, mais de 2.000.

Todas favorecendo Porochenko, com registro duplo de eleitores, por exemplo. Além disso, o presidente reforçou bastante sua campanha anti-Kremlin nas últimas semanas, apresentando-se como o único candidato que pode enfrentar Vladimir Putin e garantir uma integração da Ucrânia às estruturas de poder do Ocidente —como a aliança militar Otan e a União Europeia.

Na prática, isso é muito difícil, para não dizer impossível. Além disso, Porochenko foi atingido por diversas denúncias de corrupção, como aliás também Timochenko.

A chefia da campanha da ex-primeira-ministra anunciou no Facebook que ela está no segundo turno, tendo ficado com 20% dos votos, contra 17% do presidente e 27% do comediante.

Caso Timochenko, 58, acabe indo para o segundo turno com Zelenski, seus desafios não são diferentes dos de Porochenko.

Ela também é uma figura desgastada da “velha política” local, e tem acusações de corrupção pesando contra si.

Se ficar de fora, deve ser o fim de sua carreira política, dado que ela perdeu as duas eleições presidenciais passadas e nunca conseguiu repetir o sucesso de sua imagem, criado na esteira da chamada Revolução Laranja de 2004 —quando protestos contra acusações de fraude eleitoral em favor de Ianukovitch acabaram dando a vitória na disputa presidencial para Viktor Iuchtchenko, pró-ocidental.

Com isso, entrando na corrida apenas em janeiro, o popular comediante Zelenski, 41, emerge como grande favorito para o segundo turno, a ser disputado no dia 21 de abril.

A história de Zelenski é quase inacreditável: ele vive na TV um professor que faz um discurso contra a corrupção, é filmado pelos alunos e vira um hit na internet.

Acaba eleito presidente da Ucrânia, trazendo todo tipo de ingenuidade para a condução do cargo. Até o nome do programa, “Servo do Povo”, que chegou ao serviço de streaming Netflix, batizou o partido de Zelenski.

Seria tentador imaginar total semelhança com a realidade, exceto pela última parte. Zelenski é visto por analistas como imprevisível e despreparado, acusação aliás comum a todos os governantes inesperados que surgiram a partir de ondas de contestação da política tradicional nos últimos anos —Donald Trump nos EUA, Jair Bolsonaro no Brasil, Matteo Salvini na Itália.

Mas ele também é associado a um oligarca ucraniano, o bilionário Ihor Kolomoiski. Judeu e morador de Israel, ele é o segundo homem mais rico da Ucrânia e dono da rede de TV em que Zelenski apresenta seu show. Ambos negam qualquer ligação além da comercial.

Além de ser evasivo sobre como lidar com a Rússia, a integração ao Ocidente e mesmo tirar a economia ucraniana da estagnação que vive depois de um tombo de 17% nos biênio seguinte à anexação da Crimeia, Zelenski terá de explicar como vai governar sem representação parlamentar caso ganhe.

Isso porque a eleição para a Rada, o Congresso ucraniano, só ocorre seis meses depois do pleito presidencial, e políticos temem um imobilismo caso o comediante confirme seu favoritismo.

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