Descrição de chapéu
Governo Bolsonaro

Jabuticaba diplomática de Bolsonaro pode agradar aliados, mas já causa estrago

Escritório comercial em país com embaixada a 65 km de distância não é nada mais do que um ato político

Igor Gielow
São Paulo

O Brasil de Jair Bolsonaro criou uma jabuticaba diplomática ao anunciar um escritório em Jerusalém.

Visou agradar os anfitriões em sua visita a Israel, sua base evangélica, o governo de Donald Trump e ainda evitar uma retaliação comercial por parte dos importadores muçulmanos de carne brasileira.

 

Resta saber se vai funcionar o eufemismo entre aliados, uma vez que a desejada mudança de embaixada micou por ora. Do outro lado, já começou a provocar estragos: a convocação do embaixador palestino para consultas é um ato igualmente político, mas que poderá ser seguido por outros países de maioria muçulmana e gerar constrangimentos.

A convocação em si tem valor meramente simbólico, dado que as relações com a Palestina não envolvem trocas comerciais ou políticas significativas. Mas a Liga Árabe, que já se opunha à ideia inicial da mudança da embaixada e insinuou boicote de importação de proteína animal, pode ir pelo mesmo caminho e acabar escalando uma disputa diplomática inaudita por aqui.

O movimento é alvo de chacota por parte de diplomatas que acompanham com ceticismo os gestos do seu novo chefe, o chanceler Ernesto Araújo.

Afinal de contas, o Brasil tem uma embaixada em Tel Aviv, a cerca de 65 km do centro de Jerusalém. Escritórios de representação, ou comerciais, são postos do Brasil em países com os quais não possui relações plenas.

No caso palestino, por exemplo, o Brasil mantém desde 2004 um escritório de representação em Ramallah, a sede do poder da Autoridade Nacional Palestina.

Em 2010, o Brasil reconheceu a Palestina como Estado e deu o status de embaixada à sua delegação em Brasília, mas não fez o mesmo com o seu escritório na Cisjordânia porque o país é um membro observador na ONU (Organização das Nações Unidas), e não pleno.

Já o chamado escritório comercial o Brasil mantém em Taiwan, que não reconhece como Estado independente da China desde 1974.

Assim, foi facilitada a exportação de aeronaves da Embraer para a ilha que Pequim considera uma província rebelde, e várias empresas de eletrônicos taiwanesas se instalaram no Brasil.

No caso do escritório de Jerusalém, a natureza comercial é praticamente inexistente, dado que importadores potenciais e parceiros tecnológicos israelenses ficam em Tel Aviv e outras cidades.

Como se vê, nesses casos tudo é sinalização política sob uma nuvem de pormenores burocráticos.

Na prática, o Brasil terá sua bandeira em um prédio com as belas pedras calcárias de coloração creme com as quais a cidade santa é edificada desde a antiguidade, mas o dia a dia da relação entre os países e questões consulares mais comezinhas continuará sendo tocado pela embaixada em Tel Aviv, cidade que é um museu a céu aberto da arquitetura agora centenária do estilo Bauhaus.

A solução brasileira copia a de países como a Hungria, que não quis violar a determinação da ONU de não reconhecer Jerusalém como capital de Israel ou da Palestina até que o conflito iniciado em 1948 entre os dois países não chegue a algum termo.

Outros países, como a Rússia, adotam outro encaminhamento salomônico, ao dizer que a metade oriental da cidade é capital palestina e a ocidental, israelense.

Houve grande frustração por parte do lado israelense, segundo relatos de diplomatas locais. Mas a abertura do escritório foi o que o acuado Binyamin Netanyahu conseguiu a essa altura e frente aos ataques contra a ideia de Bolsonaro de imitar Trump e fazer a mudança.

Os EUA podem se dar ao luxo de esnobar o mundo árabe, mas o setor agropecuário fez chegar ao presidente que esse não seria o caso para o Brasil. 

A venda de carne de frango e boi processados dentro do sistema islâmico de regras, o chamado halal, fez do Brasil potência dominante no setor em mercados muçulmanos —não só árabes, mas também em lugares tão distantes quanto o Afeganistão ou a Indonésia.

Estima-se que 45% das carnes de aves e 40% das de bovinos exportadas pelo país tenham o selo. A Liga Árabe fez chegar claramente o recado da retaliação possível ao governo.

O resto é conhecido: a ala militar do governo, o vice-presidente Hamilton Mourão à frente, baixou o tom da mudança prometida a Netanyahu pelo próprio Bolsonaro na virada do ano. O que era certo virou estudo, tom adotado por um tutelado chanceler Araújo, que modulou sua fala sobre o tema.

Frustram-se também os americanos, que após a visita de Bolsonaro a Trump há duas semanas esperavam o apoio de um país de maior porte à mudança que Washington promoveu no ano passado. Até aqui, apenas a Guatemala fez o mesmo que os EUA.

Por fim, é de se esperar a reação dos setores evangélicos brasileiros, que cobraram duramente Bolsonaro pela atenuação do tom de sua promessa após a intervenção dos militares e do agronegócio contra a mudança.

Para os aderentes das denominações pentecostais e neopentecostais entre os evangélicos, reconhecer Jerusalém como capital de Israel é a restauração de uma verdade bíblica —termo que foi usado pelo presidente.

Algumas correntes vão além, inspiradas por movimentos fundamentalistas norte-americanos, e acreditam que o Estado judeu estar plenamente estabelecido é uma pré-condição para a volta de Jesus Cristo à Terra.

O governo israelense tem forte ligação com esses grupos, que exercem forte lobby em Washington, ainda que, se for levar a leitura do Apocalipse até o fim, o retorno do messias forçará a conversão dos judeus ao cristianismo antes do fim dos tempos.

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