Descrição de chapéu
Governo Bolsonaro

Bolsonaro emite sinal de desprestígio ao visitar CIA antes de Abin

Desde que tomou posse, presidente nunca esteve na sede da agência brasileira de inteligência

Rubens Valente
Brasília

O presidente Jair Bolsonaro, que visitou a sede da CIA em Washington nesta segunda-feira (18), não esteve na congênere brasileira, a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), desde que tomou posse, em janeiro, para falar com os servidores.

Localizada a apenas 12 km da sala de Bolsonaro na Presidência, no Setor Policial Sul, a Abin tem como uma das principais finalidades a assessoria direta do presidente da República para a tomada de decisões.

Além de priorizar a CIA em sua agenda de compromissos, o gesto de Bolsonaro também foi interpretado como um sinal de desprestígio da Abin pelo fato de o diretor-geral, Janér Tesch, não ter participado da visita.

O presidente Jair Bolsonaro em Washington
O presidente Jair Bolsonaro em Washington - Alan Santos - 17.mar.19/Divulgação/Presidência da República

Bolsonaro foi com o general da reserva Heleno Augusto, ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), ao qual a Abin está vinculada.

Reverente à CIA, Bolsonaro já deu sinais de que tem uma visão pouco positiva sobre a agência brasileira. Em julho de 2018, durante a campanha eleitoral, ele disse que no governo dele não teria ocorrido o “problema dos caminhoneiros, porque a gente teria uma inteligência diferente da praticada hoje em dia pela Abin”, referindo-se à greve dos motoristas que paralisou o país no ano passado.

“Vocês podem ver, o brasileiro não tem capacidade de antecipar aos problemas”, disse Bolsonaro em julho de 2018 durante um evento de campanha na CNI (Confederação Nacional da Indústria).

A visita do presidente à CIA sem representante da Abin ao lado também sinaliza ao governo norte-americano que seu canal prioritário de diálogo na área de inteligência não deva ser mais com os quadros civis, e sim com os militares.

O gesto de Bolsonaro reforça o jugo militar sobre a Abin. O órgão passou rapidamente pelo comando civil, durante o governo Dilma Rousseff, mas voltou para o controle militar no governo Michel Temer.

Bolsonaro manteve a opção de Temer e agora dá demonstrações da ampliação do comando militar sobre os caminhos da agência de inteligência civil.

Alguns movimentos revelam um distanciamento da Presidência sobre a natureza e os métodos de trabalho dos oficiais de inteligência. Augusto Heleno visitou a Abin na sexta-feira (15) para conversar com os servidores no auditório da agência.

Disse que Bolsonaro gostaria de ser informado, no tempo mais curto possível, sobre a veracidade de mensagens viralizadas na internet e que chegam ao seu conhecimento. 

Nos termos colocados por Heleno, a Abin passaria a ser muito mais uma agência de checagem de informação, o que é considerado inviável pelos profissionais de inteligência.

Para produzir um relatório confiável que irá balizar ações e decisões de governo, os oficiais de inteligência devem trabalhar com velocidade, mas muito mais com profundidade e segurança.

A visita de Heleno também teve repercussão na Abin pelo descompasso entre o que ele disse e o que os oficiais de inteligência gostariam de ter ouvido.

Esperava-se que Heleno pudesse esclarecer outros pontos mais urgentes para os servidores da Abin, a saber: o déficit de pessoal, estimado em mais de 70%, o descompasso salarial com outros órgãos federais e o aumento das atribuições da agência sem o devido crescimento da proteção funcional sobre os servidores.

Nos últimos anos, eles têm participado cada vez mais de grupos de trabalho e ações que atacam interesses de organizações criminosas, como facções que operam em todos os estados brasileiros.

Ao entrar no campo minado da violência urbana, os oficiais de inteligência tendem a cobrar mais segurança para suas ações.

Em vez de expor os planos ou indicar caminhos para resolver essas questões, o general chamou a atenção quando falou sobre segurança pública e a necessidade de reprimir a bala, matando de preferência com um tiro na cabeça, segundo a expressão que utilizou, criminosos portando armas de fogo nas ruas do Rio de Janeiro.

Mencionou sua experiência, nesse sentido, no Haiti, onde autorizou a tropa a agir dessa forma. Em outro ponto da palestra, reclamou de textos de jornalistas críticos ao governo.

Procurado pela Folha nesta segunda-feira, o GSI informou que Janér Tesch não participou da visita à CIA porque "do GSI, apenas o ministro Augusto Heleno integrou a comitiva presidencial".

Indagado sobre a reunião de sexta-feira na Abin, o GSI informou que "o ministro está fazendo, regularmente, reuniões com os servidores do GSI e da agência com o objetivo de estreitar o relacionamento e abordar temas relevantes para este gabinete. Nesse contexto, já foram realizadas cinco reuniões, sendo três no GSI e duas na Abin".

O GSI disse ainda não ter informação sobre quando Bolsonaro pretende visitar a sede da Abin em Brasília.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.