Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro deverá trocar embaixada por escritório em Jerusalém

Presidente havia feito promessa de mudança do local de representação diplomática, mas enfrentou resistências

Igor Gielow
São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) viajará no fim de semana a Israel com um problema: como cumprir a promessa feita ao premiê Binyamin Netanyahu de mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém.

Ainda presidente eleito, Bolsonaro presta continência a Netanyahu durante evento no Rio
Ainda presidente eleito, Bolsonaro presta continência a Netanyahu durante evento no Rio - Leo Correa - 28.dez.2018/AFP

A solução que está sendo analisada, dadas as resistências cristalizadas à mudança, é o anúncio da abertura de um escritório de representação comercial brasileiro em Jerusalém. O próprio Bolsonaro citou a possibilidade na manhã desta quinta (28), após evento em comemoração da Justiça Militar, em Brasília.

"Nós talvez abramos agora um escritório de negócios em Jerusalém", disse, ao ser questionado sobre a promessa feita durante a campanha.

"Por sinal, a questão de Israel, quem define as questões de Estado é o Estado de Israel e ponto final. Trump levou nove meses para decidir, [para] dar a palavra final para que a embaixada fosse [transferida]", afirmou.

Com isso, o discurso de que a transferência está em estudo ganha amparo em uma medida concreta. Tanto diplomatas brasileiros quanto o Ministério das Relações Exteriores de Israel já vinham trabalham com a hipótese.

Dos dois lados, contudo, a Folha ouviu que a conhecida imprevisibilidade de Bolsonaro impede uma certeza do que vai acontecer.

O tema gera confusão desde que, durante a campanha, Bolsonaro assumiu o compromisso, que contraria a tradição diplomática brasileira de seguir a orientação das Nações Unidas e esperar uma resolução do conflito entre israelenses e palestinos para definir o status da cidade que ambos os povos clamam como sua capital.

Mover a embaixada é reconhecer esse status, e foi uma das primeiras medidas do ídolo externo de Bolsonaro, o presidente americano Donald Trump. Até aqui, apenas a Guatemala fez o mesmo. O restante das nações que reconhecem Israel mantém seus embaixadores na litorânea Tel Aviv.

Para complicar, Bibi, como o premiê é conhecido, está sob pressão e pode perder o cargo nas eleições do dia 9 de abril. Na virada do ano, ele emprestou prestígio político a Bolsonaro visitando o Brasil e comparecendo à posse do presidente, de quem ouviu que a mudança da embaixada seria uma questão de tempo.

A motivação inicial de Bolsonaro foi a de agradar aos evangélicos de raiz pentecostal, grupo que o apoiou de forma majoritária na eleição. Eles acreditam de forma geral que o Estado judeu merece estar nas terras bíblicas, e há uma leitura mais fundamentalista que crê na necessidade de Israel existir para que Jesus Cristo volte à Terra e cumpra as profecias do Apocalipse.

Bolsonaro, que é católico mas batizou-se evangélico para seguir a mulher em 2016, aparentemente não professa a segunda visão, milenarista. Mas citou mais de uma vez a "verdade bíblica" acerca de Israel e a necessidade de reconhecer o Estado integralmente.

O problema está na natureza terrena das coisas. Assim que a ideia foi ventilada, produtores de carne brasileiros foram ao então governo Michel Temer levar a preocupação da categoria. O Brasil é um dos maiores exportadores de proteína animal halal, feita sob princípios de produção e abate islâmicos, e poderia perder mercados com uma atitude francamente pró-Israel.

Após a eleição, a Liga Árabe externou publicamente a questão. Cerca de 40% da carne de frango e 45% da bovina exportados pelo Brasil são halal. A Arábia Saudita determinou embargo à compra de frango brasileiro, embora tenha usado argumentos técnicos.

Com tudo isso, a ala militar do governo resolveu assumir a questão. Já em janeiro, quando estava interinamente na Presidência, o vice Hamilton Mourão baixou o tom da questão da mudança, dizendo ser  apenas um estudo. Recebeu representantes árabes, deixando irritados diplomatas israelenses que acompanharam as promessas de Bolsonaro.

Na sequência, o próprio chanceler, Ernesto Araújo, mudou o tom e adotou o discurso de que tudo está em estudo. Nesta quarta (27), Bolsonaro falou o mesmo em entrevista. A aproximação entre os dois países, contudo, deverá prosseguir.

É uma agenda prioritária de realinhamento brasileiro ao eixo político norte-americano, expresso por Bolsonaro e pelo chanceler. Ambos estão na missão com Eduardo, o filho do presidente que comanda a Comissão de Relações Exteriores da Câmara, e com o assessor internacional da Presidência Filipe Martins. Todos são seguidores de Olavo de Carvalho, o americanófilo ideólogo dos bolsonaristas.

Politicamente, o Brasil sempre foi defensor da solução de dois Estados na região, e nos últimos anos vinha tomando posições contrárias a Israel em fóruns da ONU, especialmente em relação aos direitos humanos. Isso mudou na primeira votação envolvendo o país, na semana passada, naquilo que o chanceler Araújo disse ser uma correção de rota permanente.

No evento desta quinta, em Brasília, Bolsonaro reforçou a posição. "Nós já começamos a votar de acordo com a verdade na ONU. Israel, Estados Unidos, Brasil e mais alguns outros países já começaram a votar diferentemente da forma tradicional, que era o lado da Palestina, por exemplo, e defendendo coisas voltadas a Cuba. Nós voltamos a uma realidade. Nós temos direitos humanos de verdade", afirmou.

Indagado se havia recebido alguma recomendação para não ir a Israel devido a questões de segurança, o presidente negou.

"Não, não, não, não tem problema nenhum. Orientação houve, mas a decisão, palavra final é minha. Estarei em Israel, se Deus quiser, no domingo", disse. 

Colaborou Talita Fernandes, de Brasília.

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