Corrupção é vodu que desgraça o Haiti?

Réplica ao artigo de Clóvis Rossi "Protestos são mais recente exemplo de como corrupção é vodu que desgraça o Haiti"

Rodrigo C. Bulamah, Júlia Goyatá e Flávia Dalmaso
São Paulo

Foi com grande preocupação que lemos o artigo de Clóvis Rossi sobre a conjuntura no Haiti, intitulado: “Protestos são mais recente exemplo de como corrupção é vodu que desgraça o Haiti”

Publicado neste jornal no dia 18 de fevereiro de 2019, o texto traz apontamentos importantes sobre as falhas da missão da ONU naquele país e sugestões interessantes a respeito do prestígio político que a Minustah trouxe ao Exército Brasileiro.

No entanto, acaba recorrendo a metáforas preconceituosas em relação ao vodu haitiano.

Ainda que não intencionalmente, o artigo lança mão de um discurso indevido e, infelizmente, corriqueiro quando associa práticas religiosas afro-americanas ao atraso, à pobreza e à barbárie.

Um bom exemplo é o trecho: “a nociva ação humana espetou mais alfinetes no corpo do país do que seria capaz o mais terrível feiticeiro”. 

Essa imagem é inapropriada, pois retrata uma cena que sequer é comum no Haiti.

Bonecos vodu, feiticeiros terríveis ou ainda zumbis ansiosos por sangue correspondem muito mais ao imaginário ocidental construído por estrangeiros do que a elementos presentes no cotidiano do país.

Basta lembrar que o primeiro filme sobre zumbis produzido nos EUA, “White Zombie”, se passa exatamente em uma fazenda haitiana e data de 1932, em plena ocupação norte-americana (1915-1934).

Também é problemática a passagem: “a crônica instabilidade política em seus 200 anos de independência foi o fator que mais contribuiu (...) para transformar o que uma vez foi a mais rica colônia nas Américas no mais pobre país do hemisfério ocidental”. 

Aqui, 200 anos de uma história rica, heterogênea e complexa são ignorados em favor de um argumento que, no fundo, parece remeter a possíveis vantagens do período colonial.

Desse modo, reiteramos nossa preocupação com artigos ou reportagens que evoquem imagens produzidas a partir de uma visão distorcida do que seria o Haiti, sua história e seu povo.

Estereótipos que quase sempre o associam a todo o tipo de carências: um lugar onde falta estrutura, falta Estado, falta civilização. 

Tal caricatura dificulta a possibilidade de voltarmos nossos olhos para os complexos processos criativos a partir dos quais se produzem as histórias desse país, também marcado por abundâncias e riquezas. 

O que conhecemos hoje como vodu é exemplo disso.

Uma religião e um modo de conhecimento que desde os tempos coloniais oferece um potente e multifacetado espaço de devoção, convivência, criação e compartilhamento de práticas e saberes profundamente atrelados aos princípios de liberdade que inspiraram uma das mais significativas revoluções sobre a qual temos notícia: a Revolução Haitiana. 

Rodrigo C. Bulamah, Júlia Goyatá e Flávia Dalmaso são doutores em antropologia social, formados em universidades públicas brasileiras e com pesquisas sobre diversos temas relacionados à história, à cultura, à religiosidade e ao parentesco no Haiti

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