Divulgação de indiciamento ameaça Netanyahu em eleição

Partido de premiê de Israel perde pontos em pesquisas após anúncio de processo de corrupção; novato Gantz lidera

Daniela Kresch
Tel Aviv

"É tradição. Antes das eleições gerais em Israel, os estudantes da Escola de Ensino Médio Blich, em Ramat Gan (vizinha a Tel Aviv), vão às urnas numa votação simulada. O resultado é visto como prenúncio do desfecho nas urnas verdadeiras.

Em 1977, previram a surpreendente vitória do então novato partido de direita Likud (União). Em 1992, anteciparam a volta do Partido Trabalhista, com Yitzhak Rabin.

Neste ano, os votos da Escola Blich apontam para uma possível derrota do atual premiê, Binyamin Netanyahu, há 10 anos no cargo.

O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu - Ronen Zvulun-3.mar.19/Reuters

Em primeiro lugar, com incríveis 47%, ficou a legenda de centro Kahol Lavan (Azul e Branco), do general da reserva Binyamin "Benny" Gantz e do ex-âncora de TV Yair Lapid. O Likud de Netanyahu recebeu menos da metade (21%) dos votos.

A votação na Blich aconteceu na terça-feira (5), cinco dias depois do anúncio que pode selar o fim da era Netanyahu.

Um mês e meio antes das eleições gerais de 9 de abril, o procurador-geral da Justiça de Israel, Avichai Mandelblit, enviou uma carta de 55 páginas a Netanyahu informando que pretende indiciá-lo em três casos de suborno, fraude e quebra de confiança.

Netanyahu nega as denúncias e precisa agora apresentar seus argumentos antes de o indiciamento ser fechado (o que só acontecerá depois das eleições).

O premiê afirma que está sendo perseguido pela oposição, que pressionou o procurador-geral para, em suas palavras, "derrubar o governo de direta do poder".

A influência eleitoral do anúncio do procurador-geral foram rapidamente evidenciadas pelas primeiras pesquisas. O Likud, de Netanyahu, perdeu pontos em todas elas.

De acordo com o Canal 13 da TV local, Gantz e Lapid venceriam, se a votação fosse hoje, com 36 das 120 cadeiras do Knesset (o Parlamento em Jerusalém). O Likud manteria suas atuais 30 cadeiras, mas ficaria em segundo lugar.

Isso não quer dizer que Netanyahu não consiga retornar ao cargo de premiê. Em Israel, o que vale são as coalizões.

Quem conseguir 61 cadeiras (51% do Knesset) é quem monta o governo. Mesmo que o Azul e Branco tenha mais votos, pode não conseguir formar uma aliança com 61 nomes. Foi o que aconteceu em 2009, quando a ex-chanceler Tzipi Livni ganhou as eleições, mas não levou o governo por não conseguir montar o quebra-cabeças.

No momento, o bloco de direita ainda é mais numeroso do que o de esquerda, o que favorece Netanyahu, que recebe a visita do presidente Jair Bolsonaro em Israel poucos dias antes das eleições. Bolsonaro desembarca no país em 31 de março e ficará até 4 de abril.

Caso Bolsonaro anuncie a transferência da Embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém (passo polêmico que ainda não foi confirmado), poderá dar um importante empurrão político ao premiê. Netanyahu prestigiou Bolsonaro ao participar de sua posse, em Brasília.

Quando indicou Mandelblit para ser procurador-geral de Justiça, em 2016, Netanyahu apostava em que o jurista seria um aliado no alto escalão do Judiciário. Afinal, já pairavam sobre ele investigações policiais em casos de possível corrupção.

"Não haverá [indiciamento] porque não houve nada", repetiu Netanyahu nos últimos dois anos.

 

Mas Mandelblit, 55, um ex-general que atuou como advogado-geral do Exército israelense por sete anos, se tornou o seu pior pesadelo.

Em setembro de 2017, manifestantes anti-governo começaram a realizar comícios dominicais em Petah Tikva, cidade do procurador. Por 41 semanas consecutivas, exortaram Mandelblit a indiciar Netanyahu. Os partidários de Netanyahu organizaram protestos contrários.

Por lei, Netanyahu não precisa renunciar caso seja indiciado, mas dois premiês israelenses deixaram o cargo por causa de investigações.

O mais conhecido é Ehud Olmert (2006 a 2009), que ficou 17 meses na cadeia depois de ser condenado por corrupção. Em 1977, Yitzhak Rabin também renunciou depois que foi descoberto que sua mulher, Leah, tinha uma conta bancária nos EUA (o que era proibido, na época).

A um mês das eleições, ainda é impossível prever se Netanyahu voltará ao poder ou não. Até porque os alunos da Escola Blich também erram. Foi o que aconteceu em 2015, quando previram que a legenda Campo Sionista (união do Partido Trabalhista com outro partido menor) ganharia com 32% dos votos.

Como se sabe, o Likud levou a melhor, na votação real, recebendo 25% dos votos (30 das 120 cadeiras do Parlamento) e conseguindo montar o governo. Já o Campo Sionista ficou com pouco mais de 21% (26 cadeiras) e se manteve na oposição.

Desta vez, é possível que o Partido Trabalhista seja rebaixado a menos de 10 cadeiras. Há quem diga que pode nem mesmo ultrapassar o percentual mínimo para obter assentos no Knesset (3,25% ou 4 cadeiras).

Mas, se os adolescentes da Blich acertarem, pode ser que o próximo premiê seja Benny Gantz. Ele é apontado como o único nome que pode desbancar Netanyahu --mesmo que tenha um acordo com Lapid no qual ambos se alternariam na cadeira de premiê por dois anos e meio cada.

A força de Gantz é seu passado militar. Alguns dos icônicos líderes da esquerda também foram ex-chefes das Forças Armadas, como Yitzhak Rabin e Ehud Barak (ambos do Partido Trabalhista).

Mas Gantz ainda é um enigma político. Até agora, o general tenta se demonstra como "centrista" e "conciliador", o que o ajudaria a roubar votos tanto da esquerda quanto da direita.

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