Descrição de chapéu The New York Times

Índia demonstra poderio ao derrubar satélite em teste de bateria anti-foguetes

Ação insere país asiático no clube de poucas nações capazes de destruir alvos no espaço

Míssil capaz de atingir satélites é disparado em Odisha, India, na quarta (27) - Departamento de Imprensa da Índia/Reuters
Nova Déli | The New York Times

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, anunciou na quarta-feira (27) que a Índia testou um foguete interceptor que derrubou um satélite, escalando a rivalidade de seu país com a China e o Paquistão e demonstrando uma força estratégica que poucos países podem se arrogar.

Se o resultado positivo for confirmado, o teste pode desestabilizar o equilíbrio de poder entre Índia e Paquistão, ambos potências nucleares que há anos mantêm uma relação de desconfiança mútua, com choques tendo ocorrido brevemente no mês passado.

Esse salto tecnológico insere a Índia no clube exclusivo de países (que inclui os Estados Unidos, Rússia e China) que já comprovaram ser capazes de destruir alvos no espaço. Essa pode ser uma vantagem crucial em uma guerra, permitindo ao país que a possui essencialmente cegar outro país, eliminando os satélites espaciais de comunicação e vigilância de seu adversário.

Não é uma proeza fácil. Neste caso, cientistas estimam que o satélite que a Índia afirma ter destruído se movia em torno da Terra a 27 mil km/h.

Modi fez o anúncio à nação semanas apenas antes de o país se dirigir a uma eleição fortemente disputada.

“A Índia se ergue altiva como potência espacial!” tuitou Modi após o anúncio, acrescentando que o esforço inteiro foi realizado inteiramente por indianos.

Quando a China primeiro realizou um teste bem-sucedido de um míssil antissatélite, em 2007, desencadeou receio global em relação à escalada armamentista no espaço.

Muitos analistas hoje temem que a rivalidade regional entre Índia e China, os dois países mais populosos do mundo, tenha se transferido para o espaço.

Para Kazuto Suzuki, professor de relações internacionais na Universidade de Hokkaido, no Japão, e especialista em segurança espacial, o teste indiano foi “uma demonstração contra a China.”

“A proliferação desta tecnologia e capacidade pode desestabilizar a ordem espacial”, ele disse.

Nenhum outro país confirmou a derrubada do satélite até agora. Estados Unidos, Europa, Japão e alguns outros são capazes de rastrear dejetos do tamanho de uma bola de beisebol no espaço. Mas especialistas disseram que é pouco provável que a Índia anunciasse o teste como tendo tido êxito se esse não fosse o caso.

Modi anunciou a notícia num discurso em transmissão nacional pela televisão, algo que é raro. Muitos indianos suspeitaram imediatamente que seu objetivo principal tenha sido mais político que tecnológico.

Em pouco mais de duas semanas a Índia vai começar a realizar uma eleição anunciada como a maior na história, com quase 900 milhões de eleitores cadastrados, e Modi é candidato à reeleição. Líderes de seu partido político foram vaiados recentemente, e os comícios de alguns dos candidatos de seu partido atraíram apenas um público pequeno.

No mês passado, Modi recebeu uma onda de apoio popular depois de a Índia ter lançado ataques aéreos em Balakot, no Paquistão, em retaliação por um ataque suicida letal de militantes contra forças indianas. Mas a notícia já deixou de ter destaque.

O anúncio da derrubada do satélite “revela um desespero de véspera de eleições que ainda não havíamos detectado ou suspeitado”, tuitou Shekhar Gupta, um dos comentaristas políticos mais conhecidos do país.

“É apenas uma nova manchete frenética de segurança nacional, já que o caso de Balakot perdeu espaço, depois de um mês.”

Na manhã da quarta-feira (27), Modi postou uma mensagem no Twitter, algo que faz com frequência, dizendo à população para prestar atenção porque ele faria um anúncio importante.

Muitas pessoas pensaram que o discurso diria respeito ao Paquistão; as tensões aumentaram muito rapidamente no mês passado depois de caças indianos terem jogado várias bombas sobre o local em Balakot onde militantes anti-Índia estariam escondidos. Não está claro o que as bombas atingiram, se é que atingiram alguma coisa.

No dia seguinte, o Paquistão derrubou um caça indiano e capturou o piloto, levando os dois países a chegar perto de um conflito de grandes proporções. Ambos possuem arsenais nucleares. O Paquistão desarmou a situação rapidamente, libertando o piloto.

O episódio inteiro levou uma onda de apoio a Modi. Os problemas espinhosos que o perseguem constantemente –como o desemprego crescente, a má qualidade da água potável e as dificuldades enfrentadas pelos agricultores— desapareceram por um instante.

Bandeiras foram hasteadas em todo o país. Mesmo indianos que não necessariamente concordam com o viés nacionalista hindu do partido de Modi aplaudiram o primeiro-ministro.

Mas o clima eleitoral parece ter mudado mais uma vez nos últimos dias. As queixas sobre empregos, saúde e subsídios agrícolas são crescentes.

O Congresso Nacional Indiano, o principal partido da oposição, marcou alguns pontos quando seu líder, Rahul Gandhi, membro da dinastia política dos Gandhi, prometeu que o partido, se for vitorioso, dará o equivalente a US$ 1.000 às famílias mais pobres do país.

Ao meio-dia, quando faria seu discurso à nação, as ruas de Nova Déli silenciaram de maneira incomum. Muitas pessoas entraram em lojas para acompanhar o discurso pela televisão.

Saurav Jha, editor chefe da revista online Delhi Defence Review, que cobre temas militares, disse que a derrubada de um satélite representa uma grande realização. “É algo tão significativo quanto a primeira explosão nuclear da Índia”, ele disse.

Tradução de Clara Allain

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