Depois de esvaziamento, coletes amarelos dão demonstração de força em Paris

Manifestantes, muitos usando preto e capuzes, jogaram pedras contra a polícia

Paris

A violência voltou a tomar as ruas do centro de Paris no 19º sábado de manifestações dos coletes amarelos, que reuniu cerca de 10 mil pessoas na capital francesa e quase 15 mil na França toda, de acordo com um balanço do Ministério do Interior divulgado no meio da tarde (fim da manhã no Brasil).

Os números sugerem uma recuperação de fôlego por parte da mobilização, que vinha minguando ao menos desde janeiro deste ano.

Só em Paris, 151 pessoas foram detidas, e 27 sofreram ferimentos.

Pessoas com coletes amarelos atacam loja da Hugo Boss na avenida Champs Elysées, em Paris
Pessoas com coletes amarelos atacam loja da Hugo Boss na avenida Champs Elysées, em Paris - Zakaria Abdelkafi/AFP

Os atos ocorreram um dia após o fim do grande debate nacional lançado pelo governo Emmanuel Macron na esteira dos primeiros protestos, com vistas a identificar demandas de diferentes setores e possíveis soluções.

Nas ruas desde novembro de 2018 com uma pauta heterogênea, mas calcada sobretudo na busca da recuperação do poder aquisitivo da classe média, o movimento se dividiu em dois neste sábado (16).

Parte se juntou a marchas de ecologistas e contra a violência policial que percorreram o tradicional bulevar Haussmann em direção à Ópera de Paris.

Ali, o clima era tranquilo, festivo. Havia fanfarra, batucada, pessoas fantasiadas de urso e até, na chegada do cortejo, um trio elétrico com música eletrônica.

Alguns manifestantes erguiam cartazes com os dizeres “fim do mês, fim do mundo: o combate é o mesmo”, cruzando a referência aos coletes amarelos (que sempre falam na dificuldade de “fechar o mês”, por falta de recursos) com a luta dos ambientalistas.

Outro grupo passou a tarde na avenida Champs Elysées e nas ruas adjacentes, onde houve enfrentamentos com a polícia e muito mais tensão.

Motos e bancas de jornal foram incineradas, abrigos de ônibus e vitrines de lojas e restaurantes, destruídos.

Estabelecimentos comerciais do célebre perímetro turístico também foram saqueados.

Ainda que os atos de vandalismo em sua maioria não fossem perpetrados por pessoas com coletes amarelos (havia black blocs infiltrados na multidão), chamava a atenção a resposta entusiasmada de muitos deles à derrubada de tapumes usados para proteger fachadas e à invasão de lojas.

Batiam palmas, sopravam apitos e gritavam “revolução!”.

Em um dos incidentes registrados nas cercanias da Champs Elysées, uma agência bancária localizada no térreo de um edifício foi incendiada.

O fogo começou a subir pelas paredes, e uma mulher e seu bebê precisaram ser resgatados pelos bombeiros de um dos andares superiores.

Ao longo da tarde, a polícia deslocou a massa de manifestantes avenida abaixo, evacuando o entorno do Arco do Triunfo.

Na ação, foram usados jatos d’água, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

Os manifestantes, de perfil mais jovem do que os da marcha conjunta com ambientalistas, pareciam mais bem equipados do que nos atos anteriores.

Muitos exibiam óculos de esqui ou de natação e máscaras para se proteger do gás lacrimogêneo. Paramédicos circulavam oferecendo soro, band-aid e curativos.

Entre bandeiras de Cuba, da Catalunha, da Bretanha e, é claro, da França, grupos tiravam selfies ou faziam transmissões ao vivo da aglomeração em redes sociais, entre palavras de ordem como “todo mundo detesta a polícia” e “Macron, nós vamos buscar você”.   

Muitos grupos vieram de outras cidades, o que ajudou a robustecer a manifestação parisiense deste sábado.

“No interior, é muito tranquilo. Aqui é que as coisas acontecem”, disse o aposentado Dominique Odile, 60, que veio de Orléans, a 1h30 de Paris, para derrubar o governo Emmanuel Macron, em suas palavras.

“É preciso que haja lágrimas e sangue. Somos numerosos e inteligentes o suficiente para reconstruir o país.”

O reprografista Gabriel Bordalampé, vindo da região de Estrasburgo (leste francês), adotava discurso semelhante. “Hoje, era preciso que houvesse quebra-quebra, senão ninguém nos escutaria.”

Para ele, o governo trata quem participa do movimento como ignorante. “Mas o problema não é Macron. São 40 anos de política. Ou nos escutam agora, ou não sei o que vai acontecer.”

Entre as reivindicações ouvidas pela reportagem estão o reajuste universal do salário mínimo (a alta anunciada pelo presidente em dezembro pressupõe algumas condições), a reindexação das aposentadorias e a realização de referendos de iniciativa cidadã.

Essa última, recorrente na atual fase da mobilização, consiste na realização de consultas populares sobre propostas de lei ratificadas por 700 mil signatários e retrabalhadas pelo Parlamento.

Uma parte dos coletes amarelos, no entanto, sustenta que o dispositivo também seja usado para revogar mandatos de governantes, suprimir leis e mudar a Constituição.
 

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