Descrição de chapéu Venezuela

Maduro autoriza Cruz Vermelha a levar ajuda humanitária à Venezuela

Missão teria escala similar à da Síria, segundo a organização

Contêineres bloqueam a ponte Tienditas que liga Táchira, na Venezuela, e Cúcuta, na Colômbia
Contêineres bloqueiam a ponte Tienditas que liga Táchira, na Venezuela, e Cúcuta, na Colômbia - Juan Pablo Bayona - 20.mar.2019/AFP
Caracas | AFP e Reuters

A Cruz Vermelha informou nesta sexta-feira (29) que obteve permissão do regime de Nicolás Maduro e da oposição, comandada por Juan Guaidó, para dar início a uma operação de entrada de ajuda humanitária na Venezuela.

A missão será similar àquela que a organização atualmente mantém na Síria, onde, segundo a ONU, 89% da população vive na pobreza e depende de ajuda alimentar internacional, ​afirmou Francesco Rocca, presidente da Federação Internacional da Cruz Vermelha. 

A entidade advertiu que não aceitará ser alvo de interferência política em meio à luta entre o regime chavista e a oposição.

"Em um período de aproximadamente 15 dias, estaremos preparados para oferecer ajuda (...) Esperamos ajudar 650 mil pessoas a princípio", disse Rocca. A Venezuela tem cerca de 30 milhões de habitantes. 

Quase um quarto da população da Venezuela necessita de ajuda urgente, segundo a ONU. 

Os primeiros suprimentos incluem equipamentos médicos, kits para cirurgias e geradores. A Venezuela sofreu dois grandes apagões no último mês. 

​​Rocca afirmou que a organização agirá de acordo com seus princípios de "imparcialidade, neutralidade e independência", "sem aceitar a interferência de ninguém". 

"Esta missão obviamente não resolverá todos os problemas da Venezuela e ninguém deve presumir que esta é uma solução completa", disse. 

O anúncio foi recebido por Guaidó como uma vitória da pressão da oposição sobre Maduro.

"O regime reconhece seu fracasso ao admitir a existência de uma emergência humanitária total produzida por eles", afirmou ele, que é reconhecido como presidente interino da Venezuela por mais de 50 países, dentre eles Brasil e Estados Unidos.

Em meio à escassez aguda de alimentos básicos e medicamentos, a entrada da ajuda humanitária tornou-se um dos elementos centrais da luta pelo poder entre Maduro e Guaidó. 

Por causa da hiperinflação que atinge o país, comida e remédios têm se tornado inacessíveis a uma parcela cada vez maior da população, causando aumento nos índices de desnutrição, especialmente de crianças, e de doenças preveníveis. 

Em 23 de fevereiro, Nicolás Maduro impediu a entrada de toneladas de alimentos, remédios e itens de primeira necessidade enviados pelos EUA. Os mantimentos entrariam no país pelas fronteiras com o Brasil e a Colômbia. 

Os tumultos deixaram cerca de sete mortos e dezenas de feridos. Maduro negava a existência de uma "emergência humanitária" na Venezuela e rejeitava a ajuda, considerando um pretexto para uma intervenção militar liderada pelos Estados Unidos, desde que o presidente Donald Trump não descartou o uso da força para forçar a saída Maduro.

Rocca expressou a disposição por parte da Cruz Vermelha de trabalhar com esses suprimentos acumulados nas divisas da Colômbia e do Brasil com a Venezuela, mas sob as regras da instituição. 

"Essa é uma questão muito politizada... Se essa ajuda estiver de acordo com nossas regras e nossos protocolos, é claro que estamos dispostos a distribuí-la", concluiu.​

Nos últimos anos, o regime de Maduro tem usado a distribuição de alimentos e acesso a atendimento de saúde como ferramentas para angariar apoio da população carente.

O ditador disse repetidas vezes que o país não precisa de ajuda internacional. 

Para manter sua imparcialidade, a Cruz Vermelha anunciou que irá distribuir os suprimentos diretamente a oito hospitais que a organização possui na Venezuela, contornando assim as redes de fornecimento do regime.

O Itamaraty informou à Folha que o governo brasileiro não foi contatado pela Cruz Vermelha para o envio de ajuda humanitária. ​

Ajuda chinesa

O ministro das Indústrias, Tareck El Aissami, afirmou nesta sexta que a Venezuela recebeu uma remessa de 65 toneladas de medicamentos chineses.

Pequim apoia o ditador Nicolás Maduro e e tem grandes investimentos no setor petrolífero venezuelano.

Segundo o ministro, a China está ajudando Caracas a neutralizar os esforços americanos para minar o regime chavista. 

"Este é um exercício de soberania, independência e dignidade", disse El Aissami sobre os pacotes, que incluem suprimentos médicos e remédios analgésicos e para tratamento de diabetes, entre outros. 

"Estamos derrotando o bloqueio que o imperialismo americano quer impor", afirmou. 

O ministro não classificou a remessa como ajuda humanitária, dizendo que a Venezuela tinha "saudáveis relações comerciais" para garantir o fornecimento dos produtos. 

A Cruz Vermelha não foi citada por El Aissami e já havia anunciado que não se envolveria na distribuição dos medicamentos chineses. 

Na última década, a China emprestou cerca de US$ 50 bilhões à Venezuela por meio de acordos de troca de financiamentos por petróleo. 

Após os recentes apagões ocorridos no país, Pequim também se ofereceu para ajudar a reformar o sistema de fornecimento de energia elétrica. ​

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