Descrição de chapéu The New York Times

Massacre na Nova Zelândia coloca astro do YouTube em destaque

Autor do ataque citou nominalmente PewDiePie durante vídeo em que transmitiu a ação

Niraj Chokshi
The New York Times

Um das maiores celebridades do YouTube se descobriu envolvida na manhã da sexta-feira (15) na cobertura noticiosa feita do massacre em duas mesquitas na Nova Zelândia.

O atirador que transmitiu ao vivo parte do ataque que deixou pelo menos 50 mortos exortou quem estava assistindo a “assinar o PewDiePie”, uma alusão ao pseudônimo usado por Felix Kjellberg, sueco cujo canal domina o YouTube e provoca polêmica.

Kjellberg fez questão de distanciar-se da matança.

O youtuber Felix Kjellberg, conhecido pelo nome PewDiePie
O youtuber Felix Kjellberg, conhecido pelo nome PewDiePie - 15.dez.17/Reprodução/YouTube-

“Estou enojado por meu nome ter sido mencionado por essa pessoa”, ele disse no Twitter. “Meus sentimentos estão com as vítimas, as famílias e todas as pessoas afetadas por essa tragédia.”

Kjellberg está acostumado com controvérsias. Nos últimos anos ele foi abraçado por figuras da extrema direita e foi criticado pelo uso que faz de linguagem racista e sexista e imagens antissemitas. A seguir, olhamos mais de perto para o canal PewDiePie e as palavras do atirador da Nova Zelândia.

Quem é PewDiePie?

Nos últimos dez anos, Kjellberg acumulou 89 milhões de assinantes no YouTube como PewDiePie, com vídeos que misturam discursos em tom cômico, comentários e narrações de videogames.

Embora sejam editados, os vídeos se caracterizam por uma estética intimista e aparentemente não trabalhada, algo que ajuda Kjellberg a se manter relevante e atrair o interesse de anunciantes. Segundo a revista “Forbes”, o patrocínio de um vídeo do PewDiePie pode custar até US$ 450 mil (R$ 1,7 milhão). Kjellberg ganhou US$ 15,5 milhões (R$ 59 milhões)no ano passado.

O significado de “assine o PewDiePie”

O sentido das palavras do atirador –“assinem o PewDiePie”— não se resume ao significado evidente.

Kevin Roose, colunista do jornal The New York Times, escreveu na sexta-feira que a mensagem pode ter tido dois objetivos: inflamar as tensões políticas e funcionar como gesto de reconhecimento às pessoas que pudessem estar assistindo aos atos do atirador e aprovando.

Para isso, o atirador lançou mão de um meme que nasceu de uma competição por hegemonia no YouTube.

No ano passado a T-Series, produtora de cinema e gravadora musical indiana, emergiu como rival do PewDiePie pelo status de canal mais visto do YouTube.

Em resposta, Kjellberg convocou seus fãs a combater a T-Series, chegando a fazer uma faixa de sátira cômica para ironizar a concorrência. Outros youtubers também entraram na disputa.

Como já ocorreu com muitas outras frases repetidas frequentemente online, “assinem o PewDiePie” virou um símbolo, um meme por si só.

Abraçado pela extrema direita

Em 2017 a Disney cortou relações com Kjellberg e o YouTube se distanciou dele depois de o jornal The Wall Street Journal ter identificado pelo menos nove de seus vídeos que incluíam gestos e imagens antissemitas.

Em um vídeo, dois homens contratados por Kjellberg desenrolavam uma faixa dizendo “morte a todos os judeus” e depois riam e dançavam. Em outro vídeo Kjellberg usa uniforme militar marrom e faz gestos de assentimento com a cabeça enquanto vemos imagens de arquivo de Hitler fazendo um discurso.

Alguns dos vídeos foram tirados do ar, e Kjellberg descreveu esses segmentos como brincadeiras, dizendo em comunicado que não apoiava atitudes de ódio e destacando: “Entendo que essas brincadeiras acabaram sendo ofensivas”.

Apesar desses comentários, membros da extrema direita abraçaram o que Kjellberg fez.

Um post publicado no site neonazista The Daily Stormer destacou que os vídeos suscitam dúvidas quanto às opiniões do próprio Kjellberg, mas concluiu que isso não tem importância: “O efeito é o mesmo: normalizar o nazismo e marginalizar nossos inimigos”.

Em artigo do ano passado, Paul MacInnes, que escreve sobre esportes e cultura popular no jornal britânico The Guardian, criticou as publicações mainstream por terem em grande medida ignorado Kjellberg.

“Chamá-lo de agitador da alt-right talvez seja injusto, já que ele nunca se identificou publicamente com o movimento protofascista”, escreveu MacInnes. “Mas ele compartilha muito da cultura desse movimento e a divulga pelo mundo afora. As pessoas deveriam prestar mais atenção ao PewDiePie.”

Outras controvérsias

Mais tarde em 2017, Kjellberg lançou um insulto racista durante o livestream de um videogame, algo que mais tarde disse ter sido “extremamente imaturo e estúpido”.

“Falei a pior palavra que me veio à cabeça. Essa palavra meio que escapou, e não vou tentar me desculpar ou explicar o porquê”, ele disse em vídeo em que pediu desculpas por ter usado o termo.

No ano passado Kjellberg se envolveu numa vendeta com Natalia Mogollon, outra personalidade online famosa no Twitch, onde ela é conhecida sob o pseudônimo Alinity Divine e narra livestreams de videogames.

Em um vídeo em que testou um aparelho que rastreia os olhos, Kjellberg aludiu em tom de brincadeira às mulheres em um dos vídeos aos quais assistiu, incluindo Mogollon, como “stupid Twitch thots”, algo como “periguetes estúpidas do Twitch”.

Mogollon se ofendeu. Em uma troca subsequente de críticas, Kjellberg sugeriu que ela se veste intencionalmente de forma provocante em seus vídeos.

“Ah, tá, quer dizer que você joga games usando a saia mais curtinha possível e a culpa é nossa por encarar isso de maneira sexual?”, ele disse.

Alguns meses mais tarde ele foi criticado como insensível por compartilhar um meme que ironizava as dificuldades enfrentadas pela cantora Demi Lovato em sua luta contra a dependência de drogas.


 

Tradução de Clara Allain

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