Nova York vota criação de pedágio urbano para bancar expansão do metrô

Cidades buscam fontes de recursos para expandir transporte público e desonerar passageiros

Rafael Balago
São Paulo

A avenida Washington Luís, em São Paulo, e a Segunda avenida, em Nova York, têm um problema em comum: obras do metrô paradas por falta de dinheiro.

No caso nova-iorquino, a demora é mais longa: túneis chegaram a ser escavados, mas a obra foi paralisada em 1975.

Houve uma retomada em 2007, e três estações foram entregues em 2017. A próxima parte do ramal, que deve custar US$ 6 bilhões (R$ 23,7 bi), ainda espera recursos. 

A maior cidade dos EUA enfrenta dificuldades para financiar seu serviço de transporte.

O total arrecadado com as passagens e os atuais investimentos públicos não são suficientes para manter o sistema, inaugurado há 113 anos. 

Diante das dificuldades, a cidade debate opções para atrair recursos. A que ganhou mais força nas últimas semanas é a criação de um pedágio urbano, chamado de “taxa de congestionamento”, na área central de Manhattan. 

Antes contrário, o prefeito democrata Bill de Blasio anunciou apoio à ideia, já defendida pelo governador Andrew Cuomo, do mesmo partido. 

A proposta está em debate no Legislativo estadual, de maioria democrata, e precisa ser votada até segunda (1º/4), como parte do Orçamento do próximo ano.

“A crise é mais profunda do que nunca, e não há outro jeito de resolvê-la sem a taxa de congestionamento e outras fontes de financiamento”, disse Blasio, no fim de fevereiro. 

A expectativa é que o pedágio urbano possa gerar até US$ 1,5 bilhão por ano (R$ 5,9 bi), que seria usado como base para obter financiamentos de até US$ 15 bilhões a serem direcionados para melhorar o transporte local, que sofre com atrasos, quebras e falta de manutenção há alguns anos. 

Pela proposta original, cada carro particular pagaria cerca de US$ 11 (R$ 45) para circular, e táxis e veículos de aplicativos, entre US$ 2 e US$ 5 (R$ 8 e R$ 20) por viagem. Opositores da ideia dizem que ela onera motoristas pobres. 

O pedágio urbano integra um pacote que inclui dez iniciativas para obter fundos, como taxar as vendas de maconha, caso ela seja legalizada no estado, e compras na internet. A taxa sobre transações online renderia até US$ 320 milhões anuais.

Se aprovado, o pedágio urbano de Nova York será o primeiro do tipo nos EUA. A medida é usada em poucas cidades do mundo, como Cingapura e Estocolmo. 

Em Londres, há cobrança na área central desde 2003. O valor arrecadado é usado para investir em infraestrutura de transportes, como novos ônibus e ciclovias. 

Uma alternativa para atrair recursos sem depender de taxas é explorar outros negócios, como no ramo imobiliário.

“A construção de uma estação gera um impacto radical no valor para os imóveis ao redor, e o governo pode criar maneiras para capturar esse ganho e custear a expansão e a manutenção do sistema”, diz Clarisse Linke, diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento no Brasil. 

“Para manter a operação, é fundamental que se diversifiquem as fontes de recurso. Manter-se só pela tarifa é insustentável. A cada reajuste, o usuário sofre muito.”

A RATP, que administra os transportes de Paris, investe em imóveis e em negócios no exterior, administrando sistemas de ônibus e de metrô em países como EUA e China. 

A partir de setembro, a capital francesa dará passe livre para crianças de até 11 anos e 50% de desconto para estudantes menores de 18 anos, na expectativa de que isso estimule os pais a deixar o carro em casa e acompanhar os filhos na viagem. 

Um dos metrôs que mais investem no modelo imobiliário é o de Hong Kong. A empresa MTR administra 20 mil unidades habitacionais, 13 shoppings e 18 andares de escritórios, entre outros espaços, gerando o equivalente a R$ 5,7 bilhões de faturamento em 2018. 

Operações no exterior trouxeram mais R$ 20,8 bilhões. A MTR fechou o ano com lucro equivalente a R$ 8,4 bilhões. 

Hong Kong é uma das inspirações do Metrô de São Paulo para diversificar suas fontes de renda. Hoje, 11% da receita vem de negócios como a concessão de terrenos para shoppings anexos a estações. 

“Estamos mapeando como usar melhor os ativos que temos, como os terminais de ônibus, e usar o conhecimento técnico que acumulamos para participar de projetos remunerados em outras cidades”, diz Silvani Pereira, presidente do Metrô de São Paulo. 


Ideias para atrair recursos para o metrô


Pedágio urbano 
Cobrar motoristas que usam carro para ir ao centro da cidade
Onde  Em Londres e em estudo em Nova York

Novos impostos 
Taxar compras online, venda de maconha e imóveis perto das estações
Onde  Em estudo em NY

Administrar imóveis perto das estações 
Aluguéis pagos por moradores, comerciantes e prestadores de serviço custeiam o sistema de transporte
Onde  Em Hong Kong e Paris

Aluguel de túneis para passagem de cabos 
Espaço subterrâneo pode ser usado por empresas de telefonia
Onde  Em São Paulo

Desconto para crianças e jovens 
Para atrair mais famílias ao transporte público
Onde  Em Paris

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