Onda antipolítica leva humorista a ser o favorito à presidência da Ucrânia

Ator que faz presidente em série de TV deve vencer o primeiro turno no domingo (31)

A artista ucraniana Dariya Marchenko faz retrato do presidente Petro Porochenko com papéis de doces e cartuchos de bala, em Kiev 
A artista ucraniana Dariya Marchenko faz retrato do presidente Petro Porochenko com papéis de doces e cartuchos de bala, em Kiev  - Valentyn Ogirenko/Reuters
Igor Gielow
São Paulo

Um “outsider” do sistema político emerge do nada para o favoritismo na campanha presidencial de um país em crise institucional e econômica profunda.

A narrativa familiar, com toques quase surreais, se repete agora na conturbada Ucrânia, que vai às urnas domingo (31).

O azarão antiestablishment é o ator Volodimir Zelenski, 41. Famoso por suas imitações de políticos, em 2015 ele começou a estrelar a popular série de TV “Servo do Povo”.

Nela, ele interpreta um professor que faz um discurso inflamado contra a corrupção na Ucrânia para seus alunos.

Um deles o filma, o vídeo viraliza e ele acaba eleito presidente de verdade, com toda a sorte de situação inesperada à frente do país.

Aparentemente, Zelenski levou a sério o papel, e em janeiro deste ano entrou na corrida eleitoral.

retrato de Volodimir Zelenski, comediante e candidato à Presidência da Ucrânia
Volodimir Zelenski, comediante e candidato à Presidência da Ucrânia - Valentyn Ogirenko - 6.mar.2019/Reuters

Um diplomata em Kiev conta que, em novembro, conversava com políticos locais sobre a possibilidade de um “outsider” se lançar numa corrida que estava pulverizada entre vários nomes naquele ponto.

Os elementos estavam todos lá: a crise econômica e a falta total de credibilidade dos políticos no poder, incapazes de lidar com o conflito congelado com a Rússia de Vladimir Putin.

Mas ninguém levava a sério a possibilidade de o nome ser Zelenski, como de certa forma ocorreu no caso de Donald Trump nos EUA ou Jair Bolsonaro, no Brasil.

Desde o fim da União Soviética, em 1991, presidentes ucranianos se revezavam sempre entre os pró-Moscou e aqueles mais pró-Ocidente.

Em 2014, o apoiado pelo Kremlin na ocasião foi derrubado, e Putin moveu suas peças, anexando a Crimeia e fomentando uma tentativa separatista que acabou congelada no leste ucraniano com 10 mil cadáveres na contagem.

A Ucrânia afundou em recessão, com queda de 17% do PIB nos dois anos seguintes.

O governo anti-Rússia de Petro Porochenko, eleito naquele mesmo 2014 em um pleito com ares de referendo e acusações de fraude, só manteve a economia viva devido a pacotes de ajuda do Fundo Monetário Internacional que somaram US$ 21,4 bilhões.

Segundo a avaliação feita pelo diplomata, Zelenski se mostrou uma opção palatável para o eleitorado pelo que chama de absoluto fastio dos ucranianos em relação à política tradicional.

É uma história que já se ouviu na Itália, nos EUA, no Brasil e outros lugares em disputas recentemente.

No caso italiano, o motor do partido populista Movimento 5 Estrelas, central no esquema de poder hoje, também foi um comediante, Beppe Grillo.

Na Eslovênia, outro ator satírico chegou ao poder em 2018, o premiê Marjan Sarec.

Em um mês e meio, Zelenski começou a pontear as pesquisas eleitorais.

Ele chega às vésperas do primeiro turno no próximo domingo (31) com algo acima dos 25% das intenções de voto no agregado de diversas pesquisas, e é considerado tecnicamente favorito na provável segunda rodada, em 21 de abril.

O problema lá é a confiabilidade das pesquisas e o risco sempre presente de fraude.

Cédulas de registro de eleitores falsas já foram apreendidas nesta semana, segundo relatos de jornalistas locais.

Atrás de Zelenski, após uma campanha que até fevereiro estava embolada, engalfinham-se o presidente Porochenko, 53, e a ex-primeira-ministra Iulia Timochenko, 58.

Contra o primeiro, há o desgaste de cinco anos de conflito com a Rússia, a crise econômica e diversas acusações de corrupção.

Um dos homens mais ricos do país, Porochenko é também associado às políticas de austeridade exigidas como contrapartida pelo FMI.

Já a segunda é acusada igualmente de ser corrupta, além de populista por rejeitar os termos colocados em troca da ajuda externa.

Timochenko fala diretamente aos aposentados, muitos deles saudosistas dos tempos da União Soviética, que apoiam sua rejeição ao fim do subsídio ao gás previsto nos acordos.

Só que isso se choca também com a realidade: até o fim do ano um novo gasoduto russo deverá desviar boa parte do produto que hoje passa por território ucraniano, pagando US$ 3 bilhões anuais em pedágio.

Na campanha, Zelenski tem repetido os mantras de seu personagem, Vasil Holoborodko, que vai trabalhar na Presidência de bicicleta todos os dias. Até seu partido leva o nome do programa de TV, que chegou ao serviço de streaming global Netflix.

O candidato tem se mostrado elusivo em relação aos grandes temas do país.

Critica a anexação da Crimeia pelo Kremlin, mas como tem o russo como língua nativa, tem boa penetração na minoria étnica no país (17% antes de 2014) e evita usar um tom muito forte de confronto com Putin.

Ele se diz favorável à aproximação do Ocidente, mas não coloca o ingresso na Otan (aliança militar) ou na União Europeia como prioridade central de seus discursos, como Porochenko, por exemplo.

Não promete subsídios, mas também se recusa a secundar cegamente os acordos com o FMI.

Contra ele, pesam duas questões. Primeiro, a suspeita generalizada de que ele é um títere do bilionário Ihor Kolomoiski, o segundo homem mais rico da Ucrânia, dono do grupo Privat e adversário figadal de Porochenko.

Sua emissora transmitia o show de Zelenski e foi nela que fez seu bombástico anúncio de candidatura.

Kolomoiski é judeu e vive em Israel, mas é dono de centenas de empresas na Ucrânia e países vizinhos. Ambos negaram à imprensa a ligação.

Outro ponto é a governabilidade. As eleições parlamentares ucranianas só ocorrerão em seis meses, então há boas chances de ele ser eleito e passar metade do ano sem conseguir governar, já que o atual Congresso é dominado por forças pró-Porochenko.

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