Papa acirra polêmica entre alas do Vaticano ao recusar beija-mão; assista

Vídeo que mostra pontífice retirando a mão para evitar que fiéis beijem anel repercutiu mal entre conservadores

Imagem retirada de um vídeo mostra o papa Francisco recolhendo sua mão enquanto uma fiel tenta alcançá-la para beijar o anel papal
Imagem retirada de vídeo mostra o papa Francisco recolhendo sua mão enquanto uma fiel tenta alcançá-la para beijar o anel papal - Reprodução/Youtube
Lucas Ferraz
Roma

Um papa Francisco incomodado e que recusa o beija-mão dos fiéis após uma missa é o novo capítulo da polêmica entre conservadores e progressistas que agita os bastidores do Vaticano

O vídeo dos cumprimentos após uma celebração em Loreto, cidade a 280 km de Roma, onde o pontífice esteve na segunda-feira (25), ganhou as redes sociais após o evento. 

Ao receber os fiéis, Francisco retira a mão quando alguns tentam beijá-la no anel. Ele repete o gesto várias vezes, ficando aparentemente confortável só quando dois jovens não fazem a reverência. 

Francisco, como todos os outros papas, recebeu quando eleito o “anel do pescador” (referência a são Pedro, que era pescador e é o padroeiro da categoria), usado na mão direita e um dos símbolos da investidura do poder papal. 

O “baciamano”, como se diz no Vaticano, é um antigo ritual de reverência do catolicismo —ao papa e em alguns casos a bispos e cardeais, que também usam o anel como símbolo espiritual. 

A recusa em receber os beijos segue a política do argentino à frente do Vaticano.

Eleito há pouco mais de seis anos, Jorge Mario Bergoglio deixou claro seu objetivo de mudar a imagem e a cultura da Igreja Católica, aproximando-a dos fiéis.

Ele já pediu aos seus subordinados no Vaticano para não agirem como “príncipes”. 

“O papa não quer ser tratado como um rei. Seu gesto foi explícito nesse sentido”, disse Paolo Rodari, vaticanista do jornal italiano La Repubblica. 

Há outros gestos do primeiro papa latino-americano da história na tentativa de desmistificar o cargo e tornar a igreja mais “humana”.

Francisco faz questão de carregar a própria pasta e sempre cumprimenta os membros da Guarda Suíça que o escoltam. 

Além do discurso carregado de mensagens de justiça social, o argentino também promoveu mudanças internas —algumas visando reduzir custos e acabar com regalias. 

Uma delas foi o fim de um concerto anual realizado em Roma para a elite política, econômica e cultural da Itália, uma tradição do Vaticano por décadas.

Muito menos pomposa, agora a apresentação é aberta aos pobres. 

O que chamou a atenção e não escapou das críticas da ala conservadora que faz oposição aberta ao pontífice foram os gestos bruscos ao recusar o beija-mão em Loreto —além de seu visível desconforto. 

No vídeo, ele chega a colocar a mão no cotovelo de uma das fiéis para fazê-la sair, logo após driblar um beijo na mão. 

O episódio passou a ser usado na atual cruzada contra Bergoglio, alvo de ataques dentro e fora da igreja por sua agenda progressista. 

Internamente, o argentino é acusado de desvirtuar os dogmas da tradição católica —o desprezo com o ritual do anel seria um exemplo. 

Papa Francisco acena a fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano, em 2014
Papa Francisco acena a fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano, em 2014 - Filippo Monteforte - 26.nov.2014/AFP

Seu antagonista é justamente o antecessor, o papa emérito Bento 16, referência da ala conservadora da igreja.

O alemão Joseph Ratzinger, que renunciou em 2013 após quase oito anos de pontificado, sempre foi apegado aos rituais clássicos do catolicismo como a comunhão de joelhos e o recebimento das hóstias diretamente na boca. 

O site conservador norte-americano Life Site, que se tornou uma espécie de porta-voz da oposição ao argentino, tachou o vídeo de “perturbador” e compartilhou críticas anônimas ao papa.

No passado, o site veiculou dossiês elaborados por cardeais contrários ao argentino sobre temas como o abuso sexual na igreja, um dos temas da agenda de Bergoglio. 

O Vaticano não se manifestou. Federico Lombardi, diretor da Fundação Ratzinger e ex-porta-voz de Francisco, minimizou o episódio. 

Segundo ele, “o pontífice do encontro” prefere ser abraçado ao antigo beija-mão.

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