Pressionado, Putin dilui comemorações por anexação da Crimeia

Poucos eventos estão programados na península que até 2014 pertencia à Ucrânia

Mural em Ialta (Crimeia) retrata o presidente russo, Vladimir Putin, como marinheiro 
Mural em Ialta (Crimeia) retrata o presidente russo, Vladimir Putin, como marinheiro  - Igor Gielow/Folhapress
Crimeia

Pressionado internamente e buscando evitar marolas políticas que afetem a delicada eleição na vizinha Ucrânia, o governo de Vladimir Putin resolveu diluir as celebrações pelo quinto aniversário da anexação da Crimeia.

Desde 2014, quando tropas russas asseguraram a realização de um referendo a ser comemorado neste sábado (16), o evento era alvo de ostentação política.

Em vez dos grandes comícios na península que pertencia a Kiev desde 1954, celebrações mais burocráticas. Uma logomarca foi criada com o mapa da península e o slogan “Primavera da Crimeia – Cinco Anos no Porto Nativo”.

Em Moscou, Putin não é esperado em nenhum dos 13 estandes celebrando com música e gastronomia a anexação, que substituíram o tradicional grande comício.

A “primavera”, ironia de marketing já que o Kremlin sempre denunciou a versão árabe como uma farsa, é anunciada apenas nas discretas telas de LCD de alguns trens de linhas centrais do metrô, um legado da Copa-2018.

Putin deve, segundo a imprensa russa, fazer uma rápida aparição na segunda (18), em Sebastopol —maior cidade da região, sede da Frota do Mar Negro da Marinha Russa e, por isso, um ente federativo à parte da atual República da Crimeia. Se for, irá inaugurar duas usinas termelétricas que prometem cortar o último cordão umbilical da Crimeia com a Ucrânia: a dependência de energia elétrica.

No ano passado, o maior passo já havia sido dado, com a inauguração da maior ponte da Europa, com 19 km sobre o estreito de Kerch, ligando a região à Rússia. A estreita faixa de fronteira seca ao norte com a Ucrânia, no istmo de Perekop, é isolada por uma cerca de 60 km com sensores e pontos de checagem.

Em Sebastopol, é possível inferir que algo está para acontecer pelos cartazes e pela montagem de um palco discreto na praça Nakhimov, que homenageia o heroi de uma guerra mais antiga e importante, a da Crimeia (1853-56).

“Eu acho que foi bom para nós, mas não vejo grandes motivos para comemorar também. O governo tem de se preocupar com a economia”, disse o funcionário público Alexei Markov, 35, que trabalha na sede do governo local.

Ele e outros colegas foram convidados, por assim dizer, a comparecer aos shows que celebramr o que Markov chama de “volta ao lar”, de sexta (15) a domingo (17).

Resolução da ONU, da qual o Brasil se absteve, não reconhece a reabsorção das terras que foram russas de 1793 a 1954.

As dificuldades econômicas a que se referem são complexas na península, onde a inflação chegou a bater 80% anuais em 2015 (hoje caiu pela metade, diz o governo).

Mas Putin está em apuros relativos. Apesar de ter saído da recessão em 2016, a Rússia tem crescido com dificuldade, na casa abaixo dos 2% anuais, e tem sanções ocidentais decorrentes da anexação a lhe dificultar acesso a crédito.

Em Ialta, cujo litoral abrigou algumas das mais prestigiosas estâncias de veraneio da aristocracia imperial russa e dos altos funcionários do Partido Comunista da União Soviética, os sinais de festa são ainda mais escassos.

Na praça Lênin, principal como em toda cidade russa de porte pequeno, cartazes discretos listam os feitos dos novos gestores —ponte e reforma do aeroporto de Simferopol à frente.

Uma corrida de rua deve ocorrer no domingo. Ela estava programada para ser sobre a nova ponte, apelidada de Putin, mas foi cancelada por alegadas razões de segurança.

O temor pode ser justificado. A obra passa por uma região volátil, onde três navios ucranianos foram aprisionados pelos russos no fim do ano passado, levando à declaração de lei marcial por Kiev.

 

Mas também há um fator político. O analista moscovita Konstantin Frolov afirma que Putin está preocupado em não provocar o meio político ucraniano com grandes celebrações porque teme o resultado das eleições no vizinho, cujo primeiro turno ocorre no próximo dia 31.

Isso porque as pesquisas dão a liderança a um outsider, o comediante Volodimir Zelenski, 41. Ele flutua na casa dos 25% nas pesquisas, enquanto a ex-premiê Iulia Timochenko e o presidente Pero Porochenko disputam o segundo lugar abaixo de 20%.

Para Putin, os políticos tradicionais, ainda que usem retórica agressiva contra Moscou, são atores conhecidos e confiáveis. Inflamar o público, a essa altura, pode favorecer o desconhecido.

Ambos os presidentes mantêm o conflito separatista no leste da Ucrânia congelado em benefício próprio: para Putin, ele garante a Ucrânia fora das estruturas ocidentais como a Otan (aliança militar); Porochenko tem por sua vez uma causa em que se apoiar.

Com tudo isso, parece estar em processo de rebaixamento no calendário o “mais importante evento geopolítico da história pós-soviética”, como diz o Museu Central Estatal da História Contemporânea Russa em Moscou.


Fim da União Soviética agravou o a disputa pela Crimeia

1992 Crimeia vira uma república com presidente, bastante autônoma sob o controle da Ucrânia

1993 Rússia pede que Sebastopol volte a ser do país

1995 Ucrânia retira autonomia da Crimeia

1998 Ucrânia muda Constituição da Crimeia para transformá-la em uma República Autônoma, com menos poderes

2014 Governo pró-russo em Kiev cai, Putin envia tropas disfarçadas em fevereiro para apoiar o plebiscito de 16 de março, que declara a volta à Rússia, aceita em 18 de março. Em 24 de março, a ONU condena a anexação (Brasil se absteve)

2014-19 No leste da Ucrânia, áreas separatistas continuam em conflito com o poder em Kiev, 10 mil morreram

2019 Eleições na Ucrânia prometem afetar a estabilidade precária

Onde fica a Crimeia


 


 

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