Descrição de chapéu The New York Times

Principal clube de luta do Afeganistão é reconstruído após ataque terrorista

Centro Maiwand treina campeões de luta greco-romana; mais de US$ 10 mil foram arrecadados para novo ginásio

Fatima Faizi
Cabul, Afeganistão | The New York Times

Os lutadores de Maiwand estão de volta, melhores do que antes.

Em setembro de 2018, o Estado Islâmico explodiu uma bomba em seu ginásio, matando dezenas deles. Neste ano, os lutadores reconstruíram o lugar, e sua vingança foi torná-lo maior, melhor e mais movimentado do que antes.

Em setembro do ano passado, eu estava assistindo ao telejornal Tolo TV News e um dos repórteres, Samim Faramarz, falava ao vivo do local do atentado, no ginásio do Clube de Luta de Maiwand, em um bairro da etnia hazara na zona oeste de Cabul.

Enquanto ele falava, uma segunda bomba explodiu, matando Faramarz e seu câmera, Ramiz Ahmady; as imagens foram transmitidas ao vivo.

Porque conhecíamos e admirávamos Faramarz e Ahmady, e por causa da natureza chocante de sua morte, diante da câmera —e também porque o governo, como sempre, estava acobertando a escala da carnificina—, nosso primeiro artigo destacou a situação dos jornalistas mortos, e em geral desconsideramos os lutadores.

Quando se tornou claro o número de vítimas entre os lutadores, tentamos voltar ao local. Mas os sobreviventes estavam tão zangados, conosco e com todos os jornalistas, que se recusaram a falar.

Também estavam ocupados com funerais e visitas a hospitais; no total, 26 lutadores foram mortos e outros 91 saíram feridos.

Por fim, conseguimos visitar o ginásio.

Mesmo uma semana depois do atentado, a cena continuava horrível. Ainda havia pedaços de carne humana espalhados pelos destroços, e familiares dos mortos continuavam a procurar objetos que os ajudassem a recordá-los.

O Maiwand é o mais importante ginásio de luta de nosso país, e tradicionalmente produz muitos dos campeões afegãos de luta greco-romana; parecia que a instituição tinha chegado ao fim.

Mas dois antigos lutadores apareceram para socorrer os colegas, depois de lerem nossa cobertura. Um deles, executivo aposentado da IBM e morador em Ridgefield, Connecticut, se apresentou como "Paul Halsey (114-4)", uma referência ao seu total de vitórias e derrotas em sua carreira como lutador amador.

O outro é Hooman Tavakolian, 42, um administrador de investimentos americano de ascendência iraniana que trabalha em Nova York e Londres e colabora com a United World Wrestling, uma organização mundial da modalidade; ele se descreve como "diplomata do esporte".

Tavakolian iniciou uma campanha no site de "crowdfunding" GoFundMe para a reconstrução do clube de Maiwand. Ao mesmo tempo, Halsey nos procurou e encaminhamos a ele mensagens de leitores que queriam ajudar, muitos dos quais lutadores e ex-lutadores.

Por fim, Halsey e Tavakolian se encontraram e decidiram unir seus esforços. As equipes de luta de universidades como a de Iowa e a Estadual da Pensilvânia contribuíram; o mesmo vale para Nike, Adidas e Cliff Keen, esta última fabricante de equipamento para luta. Os lutadores de uma escola particular americana também contribuíram.

No total, eles arrecadaram mais de US$ 10 mil em dinheiro, disse Tavakolian, e essa quantia, somada ao equipamento doado, bastou para reconstruir o ginásio de Maiwand. Ele disse que até sobrou dinheiro para outros clubes de luta do Afeganistão.

Quando retornei a Maiwand no mês passado, a instalação dos novos tatames estava sendo concluída. Boa parte do edifício, essencialmente destruído pela explosão, já estava reconstruída, ainda que o telhado continuasse a ser provisório, porque as obras foram retardadas pela neve e chuva.

Maalim Abbas também estava lá. Ele era famoso como campeão de luta ao se tornar o primeiro treinador chefe em Maiwand, onde é conhecido como Professor Abbas. Agora, se tornou ainda mais famoso, porque impediu o terrorista suicida de entrar no prédio ao bloquear uma porta com seu poderoso braço esquerdo.

O professor Abbas está de volta ao trabalho, a despeito da amputação. O mais gratificante, ele disse, é que Maiwand agora conta com mais lutadores que nunca —o ginásio chega a receber 400 pessoas por dia, tantas que o clube precisou acrescentar um quarto turno de aulas.

"Esses lutadores todos acreditam que precisamos mostrar aos terroristas que eles podem nos matar, mas não vão nos parar", disse o treinador.

Halsey e Tavakolian ficaram muito felizes ao serem informados sobre a reação dos lutadores aos seus esforços.

"A luta é um esporte que requer muito sacrifício, e também ajuda os jovens lutadores a canalizar suas emoções de modo positivo", disse Halsey, explicando seu desejo de ajudar o clube. "A tragédia me conectou a eles de um modo muito pessoal."

Muitas das 91 pessoas feridas sofreram lesões graves, que as incapacitaram, com perda de membros e efeitos ainda mais graves. Cinco dos feridos continuam em estado crítico.

O filho de Hajji Juma Khan Hassani, Mustafa, 19, é uma dessas cinco vítimas.

Mustafa, um lutador da categoria peso pesado, continua hospitalizado, e está pesando apenas 46 kg; ele perdeu boa parte de seus intestinos. Seu primo Alidad, 24, foi morto.

Hassani disse que a filha de Alidad, de dois anos, ao ver a foto emoldurada do pai na cerimônia fúnebre, a apanhou e beijou - seis vezes.

"Tive de sair da sala", ele disse, enxugando as lágrimas. "Meu coração arde sempre que me lembro disso."

Tradução de Paulo Migliacci

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