Descrição de chapéu The New York Times

Segunda família mais rica da Alemanha descobre passado nazista

Donos de conglomerado bilionário contrataram historiador para investigar período pregresso sombrio

Berlim | The New York Times

A segunda mais rica família da Alemanha ergueu sua fortuna multibilionária com os donuts Krispy Kreme, sapatos Jimmy Choo e perfumes Calvin Klein –e com mão-de-obra de trabalhadores forçados sob os nazistas.

A família Reimann, que controla o conglomerado de bens de consumo JAB Holding Co., contratou um historiador recentemente para mergulhar nos arquivos da empresa e pesquisar suas atividades durante os 12 anos do regime nazista.

Anunciadas 74 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, as primeiras revelações são profundamente perturbadoras.

Peter Harf, porta-voz da família e um dos dois sócios gerentes da JAB Holding, durante conferência em Berlim
Peter Harf, porta-voz da família e um dos dois sócios gerentes da JAB Holding, durante conferência em Berlim - Soeren Stache - 27.mai.16/AFP

Albert Reimann, pai, e seu filho Albert Reimann Jr., que comandaram a empresa nos anos 1930 e 1940, foram partidários entusiastas de Hitler e antissemitas convictos.

Eles aprovavam o uso de trabalhadores forçados não apenas em sua empresa de produtos químicos industriais, no sul da Alemanha, mas também em sua residência.

Operárias do leste europeu eram forçadas a ficar em posição de sentido, nuas, em seus alojamentos nas fábricas. As que se recusavam a fazê-lo eram sexualmente agredidas. Trabalhadores levavam chutes e eram espancados. Foi o que aconteceu com uma trabalhadora russa que fazia a faxina da mansão privada dos Reimann.

A notícia do passado tenebroso da família foi divulgada primeiramente no domingo pelo tabloide Bild.

Peter Harf, porta-voz da família e um dos dois sócios gerentes da JAB Holdings, disse que os fatos trazidos à tona pelo historiador “coincidem plenamente” com o que a família já sabia.

“Reimann pai e Reimann Jr. eram culpados”, disse Harf. “Deveriam ter ido para a cadeia.”

A exploração de trabalhadores forçados foi generalizada na Alemanha na época da guerra, uma época de escassez aguda de mão-de-obra.

Estima-se que 12 milhões de pessoas de mais de uma dúzia de países europeus foram sequestradas pelos nazistas e forçadas a trabalhar para sustentar o esforço de guerra alemão. Em seu auge, os trabalhadores forçados teriam chegado a formar 20% da força de trabalho alemã.

Fazendas e empresas industriais importantes para o esforço de guerra eram priorizadas pelo departamento governamental que distribuía os trabalhadores –homens e mulheres arrancados de suas casas em territórios sob ocupação nazista, ou, em alguns casos, prisioneiros de guerra.

O caso da família Reimann se destaca pela brutalidade especial detalhada em alguns dos documentos citados e também pelo fato de que pai e filho parecem ter se envolvido pessoalmente nos maus-tratos, disse Andreas Wirsching, diretor do Instituto Leibniz de História Contemporânea, em Munique.

“Era muito comum que companhias fizessem uso de trabalhadores forçados. Mas não era comum que os diretores das companhias tivessem contato direto e físico com esses trabalhadores”, explicou Wirsching.

Consta que após a guerra Albert Reimann, pai, que morreu em 1954, e Albert Reimann Jr., morto em 1984, nunca falaram sobre a era nazista. Foi apenas no início dos anos 2000 que a geração mais jovem da família começou a vasculhar documentos antigos da empresa e topou com materiais sugerindo que seu pai e avô tivessem sido nazistas convictos.

Em 2014 a família convidou Paul Erker, historiador econômico da Universidade de Munique, a documentar a história da empresa. A pesquisa de Erker ainda está em andamento. O que emergiu até agora veio de uma apresentação provisória que ele fez no início do ano, disse Harf.

“Ficamos atônitos”, disse. “Ficamos envergonhados, pálidos como a parede.”

Harf disse que quando o historiador completar seu relatório, previsto para 2020, o texto será levado a público. A família pretende doar 10 milhões de euros, cerca de R$ 43,64 milhões, a uma entidade beneficente que ainda não foi identificada.

No ano 2000 o governo alemão ajudou a criar um fundo de 10 bilhões de marcos (5,1 bilhões de euros) para pagar indenizações a trabalhadores forçados. Metade do dinheiro veio de empresas como a Siemens, Deutsche Bank, Daimler e Volkswagen.

A lista de empresas alemãs muito conhecidas que lucraram com o uso de mão-de-obra forçada –e com os crimes nazistas de modo mais geral— é longa. Muitas dessas empresas levaram décadas para abrir seus arquivos a pesquisadores.

A Daimler foi uma das primeiras a fazê-lo, na década de 1980. A fabricante da Mercedes usou quase 40 mil trabalhadores forçados perto do final da guerra. A Volkswagen usou 12 mil, entre os quais prisioneiros de campos de concentração que eram mantidos em um campo ocupado apenas por seus trabalhadores.

A Hugo Boss produzia os uniformes pretos da SS. O Deutsche Bank foi uma de muitas empresas que lucraram com o confisco de firmas de seus proprietários judeus.

Os Reimann fizeram sua fortuna inicialmente com uma empresa química que se tornaria a Reckitt Benckiser, gigante de bens de consumo que vale US$ 58 bilhões e cujas marcas incluem a Lysol.

Mais tarde eles canalizaram boa parte de seu dinheiro para o conglomerado JAB, que graças a uma série de aquisições ágeis tornou-se um dos maiores nomes no mundo dos bens de consumo.

A JAB gastou bilhões para rivalizar com empresas como Starbucks e Nestlé, adquirindo redes como a Peet’s Coffee & Tea, Krispy Kreme e Pret A Manger.

No ano passado ela ajudou a Keurig Green Mountain, empresa de café em cápsulas, a comprar a Dr Pepper Snapple por quase US$ 19 bilhões.

A JAB também controla a gigante dos cosméticos Coty, dona dos perfumes Calvin Klein, e foi no passado dona de grifes de moda de luxo como Jimmy Choo.

De acordo com a publicação financeira “Manager Magazin”, a fortuna dos Reimann, uma das famílias industriais alemãs que guarda mais segredo sobre suas atividades, foi estimada no ano passado em 33 bilhões de euros.

Mais recentemente, os Reimann figuraram em segundo lugar em listas das famílias mais ricas do país.

Com base no que foi revelado até agora, Andreas Wirsching, o historiador, disse que o mais provável é que os Reimann tenham sido não apenas oportunistas, mas também “nazistas comprometidos com a causa”.

Pai e filho se filiaram ao partido nazista e fizeram doações à SS antes mesmo de Hitler chegar ao poder.

Em julho de 1937 Albert Reimann Jr. escreveu uma carta ao líder da SS, Heinrich Himmler, que comandou o Holocausto.

“Somos uma empresa familiar puramente ariana com mais de cem anos de história”, ele escreveu. “Os proprietários são seguidores incondicionais da teoria racial.”

O Bild divulgou que em 1943, 175 trabalhadores, ou um terço do total, eram mão-de-obra forçada.

Além de civis russos e do leste europeu, os Reimann usavam prisioneiros de guerra franceses. Em 1940 Albert Reimann Jr. teria se queixado ao prefeito de Ludwigshafen, a cidade onde ficava sua fábrica, dizendo que os franceses não trabalhavam com afinco.

Quando a guerra acabou, as forças de ocupação aliadas investigaram os Reimann. Os franceses os proibiram de continuar com suas atividades comerciais, mas os Estados Unidos revogaram a decisão, segundo o Bild.

Tradução de Clara Allain 

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