Sobrevivente perdoa atirador que matou sua mulher em massacre na Nova Zelândia

Homem estava em mesquita atacada na sexta-feira por atirador que se declarou fascista

Farhid Ahmed, que sobreviveu ao massacre, mostra foto com a mulher, Husna - Edgar Su/Reuters
Tom Westbrook
Cristchurch (Nova Zelândia)

​Farhid Ahmed, 59, sobreviveu ao massacre na mesquita de Al Noor, na Nova Zelândia, na sexta-feira (15), mas sua mulher foi assassinada. No entanto, ele oferece o perdão ao assassino e disse que gostaria de encontrá-lo e dizer "eu ainda amo você".

Os ataques a duas mesquitas da cidade de Christchurch deixaram 50 mortos. O atirador atacou as pessoas enquanto elas faziam orações.

"Eu quero enviar uma mensagem para a pessoa que fez isso, ou se ele tem algum amigo que também pensa como ele: eu ainda amo você", disse Ahmed à agência Reuters em entrevista concedida em sua casa, enquanto conhecidos chegavam para dar condolências pela morte de sua mulher, Husna.

"Eu não concordo com o que você fez. Você tomou uma decisão errada, uma direção errada, mas eu quero acreditar em você. Que você tem um grande potencial em seu coração", prosseguiu Ahmed.

O australiano Brenton Tarrant, 28, um supremacista branco, foi indiciado no sábado por ser o autor do massacre, o maior já registrado na Nova Zelândia. Ele voltará ao tribunal em 5 de abril, quando deverá enfrentar novas acusações.

Ahmed, que usa uma cadeira de rodas por ter sido atropelado anteriormente por um carro, estava na mesquita de Al Noor quando o atirador entrou. Ele não estava orando na sala principal, onde costuma ficar, mas em uma antessala, junto a um amigo.

"Na hora, eu concluí duas coisas: um, que com certeza eram tiros e, dois, este é meu último dia", disse. "Porque em uma situação assim, em uma cadeira de rodas, é impossível escapar."

Mas o assassino não entrou na antessala, e Ahmed conseguiu escapar para o estacionamento, de onde ele viu o massacre escondido atrás de um carro, no lado oposto da mesquita onde sua mulher foi morta.

"Pessoas estavam gritando e correndo para sair. Elas estavam em pânico, eu vi que algumas pessoas estavam sangrando", disse.

Depois que o atirador foi embora, Ahmed voltou para dentro da mesquita. "Era inacreditável", ele disse. "No lado direito, onde eu costumava rezar, havia muitos corpos."

Os feridos estavam gritando. Ahmed os confortou até que a polícia chegou. "Naquele momento, eu não sabia que o corpo da minha mulher estava no outro portão."

Farhid Ahmed perdeu o movimento das pernas após um atropelamento - Edgar Su/Reuters

Nos dias seguintes após a tragédia, a cidade de Christchurch vive um clima de perplexidade. Os moradores estão absorvendo o tamanho da tragédia.

Nos escritórios, as pessoas falam em voz baixa. As crianças têm levado flores para os arredores das mesquitas e criado memoriais pela cidade.

Há um clima de generosidade e solidariedade, liderado por vítimas como Ahmed, que tem rezado na mesquita e defende o perdão.

"Se houver alguma chance, eu quero encontrar você", disse Ahmed ao atirador. "Eu quero te abraçar e dizer cara a cara que estou falando do fundo do coração. Eu não tenho rancor de você. Eu nunca o odiei, e nunca vou odiar você."

"Eu quero abracá-lo e dizer: 'Eu o perdoei'. Eu quero dizer a ele, se ele tem mãe, eu quero abraçá-la também e dizer a ela que eu vou tratá-la exatamente como a minha tia. Eu quero passar essa mensagem", contou Ahmed. 

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