Vigilante preso por matar brasileira na Nicarágua pede redução de pena

Ex-militar que confessou ter matado Raynéia Lima com tiro de fuzil em 2018 foi condenado a 15 anos

São Paulo

O homem que confessou ter matado a estudante de medicina brasileira Raynéia Gabrielle Lima na Nicarágua no ano passado apelou da sentença e pediu redução de pena de 15 para dez anos de prisão.

Segundo a imprensa nicaraguense, o advogado de Pierson Gutiérrez Solís alega que a pena foi desproporcional por ele ser réu primário e ter confessado o crime.

O recurso foi apresentado no fim de fevereiro ao Tribunal de Apelações de Manágua e aguarda uma resposta da Justiça, informaram nesta terça (13) os jornais La Prensa e El Nuevo Diario.

A estudante de medicina brasileira Raynéia Gabrielle Lima
A estudante de medicina brasileira Raynéia Gabrielle Lima, morta na Nicarágua - Reprodução/Facebook

A pernambucana Raynéia, de 31 anos, foi atingida por um tiro de grosso calibre na noite do dia 23 de julho de 2018, em Manágua, quando voltava de um plantão no hospital para casa, de carro.

Dois meses antes, havia começado um período conturbado na Nicarágua, com uma onda de protestos contra o ditador Daniel Ortega e uma forte repressão a opositores que deixou centenas de mortos e milhares de feridos. 

Vigilante particular e ex-militar, Solís foi condenado, em dezembro, a 14 anos de prisão pelo homicídio e um ano por porte ilegal de armas. Segundo a sentença, ele usava um fuzil sem número de série visível.

Na época do crime, a imprensa nicaraguense levantou suspeitas sobre a verdadeira autoria do crime. Segundo investigou o jornal Confidencial, Solís é militante da Frende Sandinista de Libertação Nacional, à qual pertence o ditador Daniel Ortega, e trabalhava como segurança na Albanisa, uma parceria do governo com a petroleira estatal venezuelana PDVSA.

A região da sede da companhia, a 500 metros de onde Raynéia foi morta, era um dos pontos de confronto de estudantes com as forças de Ortega e estava ocupada por paramilitares.

Esses homens encapuzados, que ajudavam a defender o governo de forma extraoficial, usavam o tipo de arma que matou a brasileira. Além disso, o namorado de Raynéia, que testemunhou o crime, contou que viu três homens encapuzados dispararem na direção do carro dela.

Solís confessou o crime em uma audiência que foi criticada pela família da garota e pela oposição por durar só 35 minutos e não ter tido a presença de representantes da vítima. Ele alegou que fazia a segurança da rua ao lado de dois colegas quando o carro de Raynéia se aproximou em alta velocidade, de "maneira errática" e em uma "atitude suspeita".

O ex-militar diz que ficou atrás de um poste de luz, a cerca de seis metros da guarita, e fez vários disparos contra o veículo. Um deles atravessou a lataria do carro e acertou o assento dianteiro esquerdo, no qual estava Raynéia, atingida no abdômen.

Em entrevista à Folha, a mãe da garota, Maria José da Costa, 55, questionou a versão de Solís, que ela considera um bode expiatório do governo nicaraguense para dar satisfação ao Brasil a respeito do crime, e queixou-se do sumiço de provas como as câmeras de segurança da área.

 
“Como um simples vigilante tem o poder de retirar o carro da minha filha do lugar duas horas depois da morte dela? De arrancar as câmeras que filmaram o que aconteceu?”
 
Segundo ela, o veículo e o celular de Raynéia nunca foram encontrados.
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