Descrição de chapéu The New York Times

Após Nova York, grandes cidades dos EUA estudam adotar pedágio urbano

Taxas para dirigir em áreas congestionadas deve ser cobrada a partir de 2021; ideia conflita com a cultura do carro no país

The New York Times

O trânsito em Los Angeles é tão ruim que os ônibus se arrastam em velocidade inferior a 20 km/h. Em San Francisco, os carros raramente passam dos 15 km/h. E as ruas de Seattle andam tão cheias que a cidade está em busca de maneiras de reduzir o número de carros em circulação.

Grandes cidades em todo o território dos Estados Unidos estão enfrentando ruas cada vez mais congestionadas, e seus esforços para lidar com o problema não encontram grande sucesso.

Mas, agora que Nova York adotou um sistema de pedágio urbano em Manhattan, se torna mais provável que o restante do país considere implementar essa ideia —ainda que no passado ela fosse vista como tóxica em termos políticos, de acordo com funcionários de governos municipais e analistas de transporte.

"O uso do pedágio urbano em Nova York pode mudar o jogo", disse Travis Brouwer, diretor assistente de transportes no estado do Oregon, que está considerando adotar um sistema de pedágio urbano na congestionada Portland.

"Se Nova York oferecer prova de que o pedágio urbano pode funcionar e ser aceito pelo público, isso estimularia os esforços de cidades como Portland, onde queremos adotar o sistema", ele disse.

Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos, vai cobrar pedágio dos motoristas que desejem circular nos bairros mais congestionados, como forma de arrecadar mais dinheiro para o transporte público e persuadir as pessoas a abandonar o uso de carros.

A expectativa é de que o sistema de pedágio seja implementado no começo de 2021.

Trânsito na Segunda Avenida, em Nova York - AFP

Los Angeles e San Francisco já estão conduzindo estudos que serviriam de base para pedágios urbanos, e Jenny Durkan, prefeita de Seattle, está liderando os esforços para adotar um sistema de pedágio urbano antes do final de seu primeiro mandato, em 2021.

Filadélfia começou a estudar a adoção do pedágio urbano, e está acompanhando de perto a situação em Nova York, "para ver se isso ajudaria a aumentar a igualdade, segurança, sustentabilidade e mobilidade", disse Kelly Cofrancisco, porta-voz de Jim Kenney, o prefeito de Filadélfia.

"Realmente ajuda, podermos apontar para uma cidade como exemplo e dizer que eles estão fazendo isso, e funciona", disse Michael Manville, professor associado de planejamento urbano na Universidade da Califórnia em Los Angeles, que assessora o governo de Los Angeles quanto ao pedágio urbano. "No mínimo, isso muda a conversa em outras cidades".

Nem todo mundo está pronto a aderir. Kathryn Barker, que é supervisora no condado de Los Angeles, expressou preocupação por o pedágio urbano poder representar uma penalidade para motoristas que vivam em comunidades nas quais o transporte público é precário, e onde "usar o carro não é uma escolha, mas uma necessidade".

Algumas poucas cidades na Europa e na Ásia já têm sistemas de pedágio urbano em funcionamento. Isso ajudou a esvaziar as ruas de Londres, Estocolmo e Cingapura. Mas também foi rejeitado por motoristas e críticos como uma forma injusta de tributação que incide principalmente sobre os pobres.

Por efeito do boom na economia, do renascimento das áreas urbanas, da proliferação de carros da Uber e Lyft e do crescimento explosivo nas entregas de pacotes, alimentado pela ascensão da Amazon, a velocidade média dos veículos nas áreas centrais das grandes cidades dos Estados Unidos caiu a 24 km/h no ano passado, ante 29 km/h em 2015, de acordo com a INRIX, uma empresa de pesquisa sobre transportes,

"Acredito que tenha enfim chegado a hora de adotar sistemas de pedágio para aliviar os congestionamentos nas grandes cidades", disse Phil Washington, presidente-executivo da Autoridade Metropolitana de Transportes do Condado de Los Angeles. "Aqui em Los Angeles, o desafio dos congestionamentos é tão ruim quanto o de Manhattan, se não pior."

Trânsito nos arredores de Los Angeles - AFP

Ele acrescentou: "Não podemos ficar sentados sem fazer nada e permitir que a situação piore." Em Nova York, muitos detalhes do plano para o pedágio urbano —entre os quais o preço que os motoristas pagarão—ainda estão sendo decididos.  O plano representa a culminação de uma campanha iniciada 18 meses atrás, que atraiu organizações que se preocupam com o trânsito e também líderes empresariais, cívicos e trabalhistas que não viam outra maneira de combater a paralisação das ruas.

O governador Andrew Cuomo apostou no projeto e utilizou sua influência política para levá-lo em frente, fazendo dele a peça central de seu orçamento estadual de US$ 175 bilhões, depois que esforços anteriores fracassaram.

Até mesmo o prefeito Bill de Blasio, que não era entusiasta do pedágio urbano e tem um relacionamento gélido com o governador, decidiu apoiar a ideia. Os dois defendem o argumento de que a proposta é crucial para levantar o dinheiro necessário para modernizar o sistema de metrô da cidade, que está em crise.

As autoridades de transporte, que enfrentam uma crise financeira cada vez mais grave, vêm alertando repetidamente que a alternativa seria aumentar muito as tarifas dos transportes coletivos.

O momento do pedágio urbano chegou depois de décadas de esforços frustrados para reduzir o congestionamento das ruas dos Estados Unidos. Historicamente, as cidades responderam ao congestionamento construindo novas vias ou alargando as existentes, mas sempre terminaram por descobrir que as vias novas também se congestionavam, disse Matthew Turner, professor de economia na Universidade Brown.

Como resultado, o trânsito é cada vez mais intenso nas ruas das cidades americanas. O número de pessoas que vão de carro ao trabalho subiu a 130 milhões em 2017, ante 121 milhões em 2012, de acordo com uma análise da companhia de pesquisa Social Explorer com base em números do censo. Delas, mais de 116 milhões vão sozinhas e apenas 14 milhões usam sistemas de "carpooling" [carona programada]. Apenas oito milhões de trabalhadores usam o transporte coletivo para ir ao trabalho.

O trânsito cada vez mais intenso vem acompanhado por preocupações de saúde, segurança e quanto ao meio ambiente. O número de pedestres mortos em acidentes de trânsito nos Estados Unidos está perto de sua marca mais alta em três décadas.

Problemas de trânsito representam o lado do avesso para as cidades bem sucedidas. O boom atrai um influxo de novos moradores, empresas e construções. Mais de duas dúzias de grandes cidades nos Estados Unidos, entre as quais Nova York, Filadélfia, Austin, Los Angeles, San Francisco e Seattle, têm mais congestionamentos hoje do que uma década atrás, de acordo com estatísticas anuais de trânsito compiladas pela INRIX.

Os resultados mais recentes apontam que o motorista médio passou 97 horas preso em congestionamentos no ano passado, ante 82 horas em 2015. Isso representa um custo econômico de US$ 87 bilhões em produtividade perdida, em 2018, ante US$ 74 bilhões em 2015, de acordo com a INRIX.

"Basta um carro que não consiga atravessar um cruzamento para bloquear duas faixas de rodagem", disse Trevor Reed, analista de transportes da INRIX.

Algumas rodovias americanas cobram pedágios desde a década de 1990, com vias expressas de acesso pago —conhecidas como "faixas Lexus"— construídas ao lado das faixas normais de rodagem, a fim de oferecer uma alternativa mais rápida aos motoristas dispostos a pagar por isso.

Ainda assim, Charles Komanoff, economista de Nova York cujos modelos foram usados no desenvolvimento do pedágio urbano, disse que a ideia de "cobrar para que a pessoa use seu carro" conflita com a cultura de amor ao carro que predomina entre os americanos, para os quais dirigir para onde quer que a estrada os leve é muitas vezes visto como a maior das liberdades.

Ele compara promover a adoção do pedágio urbano a "disparar um foguete para a Lua. A gravidade é tão forte —as forças que se opõem a isso são tão poderosas— que a sensação é quase a de estar desafiando a natureza".

O pedágio urbano também é visto como uma carga para os motoristas, muitos dos quais são pobres e se viram forçados a deixar suas moradias nas áreas centrais das cidades por conta da alta nos custos da habitação, e agora precisam ir ao trabalho de carro em função do acesso mínimo ao transporte coletivo.

"A questão da justiça social sempre travava as conversas, quando os sistemas de pedágio urbano entravam em discussão", disse Stuart Cohen, diretor e fundador da TransForm, uma organização californiana que recentemente publicou um relatório sobre sistemas de pedágio urbano. "Nas cidades da costa oeste, a justiça social tem posição bem elevada na agenda."

Mas Cohen afirma que os congestionamentos também resultam em atrasos nos sistemas de ônibus e outras formas de transporte coletivo dos quais as pessoas mais pobres dependem. O custo dos pedágios urbanos para os motoristas pobres pode ser subsidiado ou reduzido.

Em Los Angeles, os ônibus públicos percorriam as ruas a em média 19 km/h no ano passado, ante 19,6 quilômetros por hora em 2013, de acordo com dados das autoridades de trânsito. Washington disse que pretende usar o dinheiro arrecadado com o pedágio urbano para pagar por melhoras nos transportes coletivos e para subsidiar as tarifas, permitindo que todos os passageiros viajem de graça.

Uma porta-voz de Eric Garcetti, o prefeito de Los Angeles, disse que ele apoia o pedágio urbano "porque representa uma promessa de reduzir dramaticamente o tráfego e melhorar a qualidade de vida".

Mas continua a ser difícil promover a ideia dos pedágios urbanos. Depois de um recente relatório divulgado por líderes políticos e educadores de Boston no qual eles recomendavam um pedágio de US$ 5 para a circulação de carros em certos bairros, o gabinete do prefeito da cidade anunciou que o governo não adotaria um sistema de pedágio urbano.

Em Nova York, os motoristas teriam de pagar para circular em Manhattan abaixo da rua 60, onde a velocidade média dos veículos caiu a 7,6 km/h, ante 11,1 km/h em 1994.

John Corlett, lobista da Associação Automobilística Americana (AAA) em Nova York, disse que o pedágio só transferiria o congestionamento para outras áreas da cidade, se os motoristas decidirem evitar a região central para escapar do custo. "Dizer que isso vai reduzir os congestionamentos pode ser uma falsa esperança", ele afirmou.

Mas Sam Schwartz, um dos arquitetos do plano da prefeitura para o pedágio urbano, disse ter recebido telefonemas de funcionários de governos de uma dúzia de cidades, bem como de outros interessados que estão acompanhando os desdobramentos em Nova York. "Se é possível adotar esse sistema em Nova York, ele poderá ser adotado em qualquer lugar", ele disse.

 

Tradução de Paulo Migliacci.

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