Assessor da Presidência publica poema que abre manifesto de atirador da Nova Zelândia

Filipe Martins diz que associação com autor de massacre é 'ofensiva'

Ricardo Della Coletta
Brasília

O assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, publicou em sua conta no Twitter um poema que abre o manifesto de Brenton Tarrant, que em meados de março realizou ataques a tiros em uma mesquita na Nova Zelândia e matou 50 pessoas.
 
Martins atualizou sua foto de perfil na rede social e publicou a imagem de um ataque de cavalaria. Acima dos cavaleiros, aparece a inscrição “Do not go gentle into that good night”.

No Brasil, o poema citado por Martins em sua conta social, de autoria do poeta galês Dylan Thomas (1914-1953), foi traduzido por Augusto de Campos como “Não vás tão docilmente nessa noite linda”.
 
O poema abre o manifesto The Great Replacement (“a grande substituição”), texto publicado por Tarrant na internet em que ele explica os motivos e as influências que o levaram a cometer o massacre nas mesquitas em Christchurch. 

 
reprodução da página no twitter de filipe martins
Página no Twitter do assessor da Presidência para assuntos internacionais, Filipe Martins, com o trecho 'do not go gentle into that good night' - Reprodução

Após a veiculação da reportagem, Martins publicou uma mensagem no Twitter na qual diz que ao longo desta semana se reuniu com o embaixador da Nova Zelândia no Brasil, Chris Langley, além de outros chefes de missões diplomáticas, e atacou o que chamou de "ativismo camuflado de jornalismo."

A reunião com Langley ocorreu na terça-feira (23).

"Participei hoje de um almoço oferecido pelo embaixador da Argentina, com a presença de embaixadores e representantes da América do Sul, dos EUA, do Canadá e da Espanha. Tivemos uma conversa franca e prazerosa sobre o Governo Bolsonaro, sua política externa e a conjuntura global", escreveu o assessor especial da Presidência.

"Ao longo da semana, dentre outros compromissos, também recebi os embaixadores do Azerbaijão, da Nova Zelândia e dos Emirados Árabes. As conversas foram ótimas e nos permitiram avançar em nossas agendas bilaterais e desfazer ruídos gerados pelo ativismo camuflado de jornalismo", concluiu. 

 Tarrant transmitiu ao vivo, pelo Facebook, cenas do ataque que ele perpetrou.
 
Nas suas mais de 70 páginas, o atirador se define como um “homem comum nascido na Austrália em uma família de classe trabalhadora e de baixo salário".
 
O título do manifesto é referência ao livro do polemista francês Renaud Camus. Na obra, Camus discorre sobre a "teoria" de que a maioria branca europeia está em curso de substituição por imigrantes não brancos da África do Norte e da África subsaariana, muitos dos quais muçulmanos. 
 
O atirador se posiciona como um nacionalista branco, contra a diversidade racial, apoiador de Trump e do brexit —mas não do partido de extrema direita francês Frente Nacional— e inspirado, entre outros, pelo atirador da Noruega Anders Breivik, cujos ataques em 2011 vitimaram 77 pessoas
 
O Brasil aparece em uma seção intitulada "Diversidade é Fraqueza", no qual Terrant diz que os países "diversos" ao redor do mundo são locais de "conflito social, político, religioso e ético".

 
O uso do poema por Martins, que despacha a apenas metros do gabinete do presidente Jair Bolsonaro, foi criticado internamente no Itamaraty.
 
Na visão de diplomatas consultados pela Folha, que falaram sob condição de anonimato, o gesto pode ser classificado como no mínimo insensível, uma vez que o massacre na Nova Zelândia é recente e o poema foi associado à tragédia pelo próprio atirador. 
 
Aos 30 anos, Martins foi diretor da área internacional do PSL antes de ocupar o posto no Palácio do Planalto.

Após a publicação da reportagem, Martins enviou uma nota em que afirma que a associação de seu nome ao manifesto de Brenton Tarrant é ofensiva.

"Essa associação não é ofensiva apenas a mim, mas ao conjunto do governo brasileiro, de seu serviço exterior e, em grau ainda mais elevado, ao legado do poeta Dylan Thomas", disse.

"Poucas coisas se aproximam do terrorismo, em matéria de estupidez e incivilidade. Uma delas é a predisposição de permitir que terroristas de qualquer vertente se apropriem da cultura ou de expressões artísticas, estigmatizando pinturas, poemas, músicas e filmes consagrados pelo uso indevido que fazem do patrimônio cultural em nome de suas agendas niilistas de destruição, morte e pânico psicológico", afirmou.

"Insinuar, como faz a Folha de S.Paulo, que uma menção a um dos poemas mais conhecidos do mundo expressa qualquer tipo de vínculo com o terrorismo, com a supremacismo branco e outras práticas execráveis não é apenas sinal de ignorância e de grande incultura, mas uma ofensa criminosa à minha honra e uma contribuição aos propósitos do perpetrador do massacre", ressaltou o assessor do Planalto. 

"Vale lembrar ainda que possuo um claro histórico de rejeição ao identitarismo de qualquer vertente e que sempre combati todo e qualquer esforço de dividir e balcanizar a sociedade em grupos separados de acordo com características físicas e biológicas", disse.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.