Bloqueio de redes sociais após ataque no Sri Lanka opõe techs e governo

Para críticos, proibição é censura; outros pedem pressão sobre empresas sem danos à população

Padres observam destroços após explosão de bomba próximo à igreja de Santo Antônio, em Colombo (Sri Lanka)
Padres observam destroços após explosão de bomba próximo à igreja de Santo Antônio, em Colombo (Sri Lanka) - ewel Samad/AFP
São Paulo

A série de atentados que deixou ao menos 310 pessoas mortas no Sri Lanka no domingo de Páscoa (21) levou o governo a tomar uma medida sem precedentes: bloquear de modo preventivo o acesso a redes sociais em todo o país.

O objetivo alegado pelo governo para a ação era impedir que os boatos e fake news em circulação levassem a uma onda de violência no país, que tem histórico de conflitos étnico-religiosos.

Imediatamente após os ataques, saíram do ar Facebook, WhatsApp, YouTube, Instagram e Snapchat, informou a ONG NetBlocks, que monitora a disponibilidade da internet no mundo. Todas as plataformas continuaram bloqueadas na segunda-feira (22). 

Para Ivan Sigal, diretor-executivo da ONG Global Voices, esse tipo de medida seria considerada absurda há alguns anos, mas hoje é aceitável porque as empresas de tecnologia já não são mais vistas como confiáveis pelo público. 

“Não há mais uma presunção de que elas sejam efetivas, benevolentes ou tragam uma influência positiva”, disse ele ao jornal The New York Times. 

O procurador Frederico Ceroy concorda que as empresas não têm feito o suficiente para combater as fake news, embora considere que o bloqueio total das redes seja muito drástico. 

Para ele, a solução é obrigar as companhias a mudarem de atitude. Ele cita como exemplo o combate à pedofilia, área em que as plataformas têm avançado. 

“Os legisladores deveriam aprovar mecanismos para obrigar as empresas a fazerem o mesmo com fake news”, afirmou. “É possível combater disseminação de conteúdo falso respeitando a liberdade de expressão.”

Para os críticos, porém, a medida dificultou o acesso da população à informação exatamente quando ela mais precisava. “É um típico caso em que se coloca na balança a liberdade de expressão de um lado e a segurança pública do outro”, disse à Folha Patricia Peck, advogada especializada em direito digital do escritório PG Advogados.

Para ela, a decisão deve ser chamada por outro nome. “É uma forma de censura, uma solução de curto prazo enquanto não há uma saída definitiva para o problema”.

A pesquisadora Joan Donovan, da Universidade Harvard, concorda que o bloqueio pode dificultar mais do que ajudar. 

“Quando há uma situação em grande escala que envolve mortes e muitos feridos, é importante que as pessoas consigam se comunicar para se sentirem seguras”, disse ao jornal The Guardian. “Isso realmente coloca aquelas que estão mais vulneráveis em uma posição ainda pior. É um precedente perigoso.”

Já Sanjana Hattotuwa, pesquisador do Centre for Policy Alternatives (do Sri Lanka), afirmou ao site BuzzFeed que a medida pode ser efetiva no curto prazo, “dependendo do que e quanto for bloqueado”. 

O ataque de domingo, que deixou mais de 500 pessoas feridas, teve como alvo três igrejas que celebravam a Páscoa, além de hotéis de luxo. 

Os cristãos são uma das minorias religiosas do país ao lado dos hindus e dos muçulmanos. A maior parte dos 22 milhões de habitantes é budista.

O temor do governo era que fake news culpassem a minoria islâmica pelas explosões, o que poderia tornar o grupo alvo de violência. Desde o domingo foram registrados ataques contra mesquitas e lojas de muçulmanos, sem registro de feridos. 

O Sri Lanka já viveu um cenário parecido. Em 2018, boatos online culpavam um muçulmano pelo assassinato de um budista, o que causou uma onda de violência contra os seguidores do islã. A situação fez o governo declarar estado de emergência e impor um bloqueio às redes sociais. 

Desta vez, o Sri Lanka deixou claro que decidiu adotar a tática antes que os boatos começassem a circular. Em nota, avisou que a medida será mantida até o fim das investigações sobre os atentados.

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